Sermões Festivos · Sermão n.º 85

Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo De Sanctis Apostolis Petro et Paulo

Sermões Festivos — Festas dos santos · 8 seções · 18 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

1. Naquele tempo: “O Senhor disse a Simão Pedro: Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” (Jo 21,15) etc.

Neste Evangelho, devem-se considerar três coisas: a tríplice declaração de amor do bem-aventurado Pedro ao Senhor, o tríplice encargo da Igreja a ele confiado e a paixão do próprio Pedro.

I. A TRÍPLICE DECLARAÇÃO DE AMOR AO SENHOR FEITA PELO BEM-AVENTURADO PEDRO

2. A tríplice confissão, como em: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”. Diz a Glosa: Jesus pergunta aquilo que já sabe: se Pedro o ama mais. Pedro declara aquilo que sabe de si mesmo, isto é, que o ama, porque não sabe quanto os outros o amam; se o ama mais do que eles, cala. Eis que ensinou a não sentenciar temerariamente sobre coisas ocultas e, lembrado do perigo anterior da negação, respondeu acerca de si com maior cautela. E observa que Jesus interroga Pedro não uma só vez, mas pela segunda e pela terceira vez, e pela terceira vez ouve de Pedro que é amado. À tríplice negação corresponde a tríplice confissão de amor, para que a língua não sirva menos ao amor do que ao temor. Primeiro, como relata Mateus, negou diante de todos, dizendo: “Não entendo o que dizes” (Mt 26,70). Segundo, negou com juramento: “Não conheço esse homem” (Mt 26,72). Terceiro, começou a praguejar e a jurar que não conhecia esse homem (Mt 26,74). Na primeira e na segunda vez, confessou: “Tu sabes que te amo” (Jo 21,15-16); na terceira: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo” (Jo 21,17). A Glosa sobre Lucas diz: À meia-noite nega, ao canto do galo arrepende-se e, depois da Ressurreição, confessa três vezes amar aquele que, antes da luz, havia negado três vezes; pois corrigiu o erro cometido nas trevas do esquecimento com a lembrança da luz esperada e, na presença da mesma verdadeira luz, reergueu plenamente tudo quanto havia vacilado.

3. Observa que são três as partes do corpo das quais procede a morte ou a vida: o coração, a língua e a mão. No coração está o consentimento ao bem ou ao mal; na língua, o desenvolvimento da palavra; na mão, a realização da obra. Se com estas três partes negamos a Deus, tratando os contrários com os contrários, confessemos o mesmo Senhor com estas três partes. Nega-o com o coração aquele que não crê ou que consente no pecado mortal. Por isso Estêvão diz, nos Atos: “Eles negaram este Moisés, dizendo: ‘Quem te constituiu chefe e juiz sobre nós?’” (At 7,35). Moisés, que se interpreta “aquático”, é a fé, que se nutre nas águas do Batismo, ou é a graça da compunção. A fé, primeira das virtudes, é como um chefe; a graça da compunção é como um juiz, pelo qual o pecador julga a si mesmo e condena o mal que praticou. Mas aqueles que não creem ou consentem no pecado mortal em seu coração negam este Moisés e não querem que ele seja constituído chefe e juiz sobre eles.

Do mesmo modo, nega Cristo com a língua aquele que destrói a verdade com a mentira ou difama o próximo. Por isso Pedro diz, nos Atos: “Vós negastes o Santo e o Justo diante de Pilatos e pedistes que vos fosse concedido um homicida” (At 3,13-14). Pilatos, que se interpreta “boca do martelador”, é a mentira e a difamação; na presença delas negam Cristo aqueles que martelam e destroem a verdade dele com a mentira e o amor ao próximo com a difamação. A difamação consiste em transformar em mal as boas ações dos outros ou diminuí-las. Esses tais pedem que lhes seja concedido um homicida, isto é, o ladrão Barrabás, ou seja, o diabo, e que Cristo seja crucificado.

Do mesmo modo, nega-o com a mão aquele que pratica obras perversas. “Negam a Deus com os atos”, diz o Apóstolo (Tt 1,16). Aqueles que assim negam Cristo três vezes nas trevas dos pecados, ao canto do galo, isto é, à pregação da palavra divina, arrependam-se, para que, na luz da penitência, possam confessá-lo três vezes com o bem-aventurado Pedro: “Amo, amo, amo”. Amo com o coração, pela fé e pela devoção; amo com a língua, pela confissão da verdade e pela edificação do próximo; amo com a mão, pela pureza das obras. Amém.

II — Sobre a tríplice recomendação do bem-aventurado Pedro à Igreja

II. O TRÍPLICE ENCARGO DA IGREJA AO BEM-AVENTURADO PEDRO

4. A recomendação da Igreja, como em: “Apascenta os meus cordeiros” (Jo 21,15.16). Observa que três vezes se diz “apascenta”, e nem uma só vez “tosquia” ou “ordenha”. Se me amas por causa de mim, e não a ti por causa de ti, “apascenta os meus cordeiros”, como sendo meus, não teus. Busca neles a minha glória, não a tua; os meus lucros, não os teus, porque o amor de Deus se prova no amor ao próximo. Ai daquele que nem uma só vez apascenta, mas três ou quatro vezes tosquia e ordenha. A este diz, em Gênesis XIV, o rei de Sodoma, isto é, o diabo: “Dá-me as almas e toma para ti o resto” (Gn 14,21), isto é, a lã e o leite, a pele e as carnes, os dízimos e as primícias. A tal pastor, ou melhor, lobo, que apascenta a si mesmo, o Senhor ameaça, em Zacarias XI: “Ó pastor e ídolo, que abandona o rebanho: uma espada sobre o seu braço e sobre o seu olho direito; o seu braço secará pela aridez, e o seu olho direito, obscurecendo-se, ficará cego” (Zc 11,17). O pastor que abandona o rebanho que lhe foi confiado é um ídolo na Igreja, como Dagon junto da arca do Senhor (cf. 1Rs 5,2): conserva a aparência, não a realidade. Por que, então, ocupa esse lugar? É verdadeiramente um ídolo, porque tem olhos voltados para as vaidades do mundo e não vê as misérias dos pobres; tem ouvidos para as adulações de seus bajuladores e não ouve o clamor dos pobres; tem narinas para os frasquinhos de perfume, como uma mulher, e não sente o odor do céu nem o fedor da geena; tem mãos para acumular riquezas e não apalpa as cicatrizes das feridas de Cristo; tem pés para fortificar seus acampamentos e exigir tributos, e não caminha pregando a palavra do Senhor; nem há em sua garganta um clamor de louvor ou de confissão. Que relação há entre a Igreja de Cristo e este ídolo apodrecido? Que há de comum, como diz Jeremias, entre a palha e o trigo? (Jr 23,28). Que acordo pode haver entre Cristo e Belial? (2Cor 6,15.)

O braço deste ídolo secará pela espada, isto é, pelo juízo divino, para que não possa fazer o bem. E o seu olho direito, isto é, o conhecimento da verdade, ficará obscurecido, para que não possa contemplar, nem para si nem para os outros, o caminho da justiça. Estas duas coisas acontecem hoje, por exigência dos pecados, aos pastores da Igreja: carecem da força das boas obras e não possuem a luz da ciência. E por isso, ai de nós!, o lobo, isto é, o diabo, dispersa (cf. Jo 10,12), e o ladrão, isto é, o herege, arrebata. Mas o bom Pastor, que deu a sua vida pelo seu rebanho (cf. Jo 10,15), solícito por ele, porque o comprou por preço tão elevado, recomenda-o a Pedro, dizendo: “Apascenta os meus cordeiros”. Apascenta-os com a palavra da santa pregação; apascenta-os com o auxílio da devota oração; apascenta-os com o exemplo de uma santa conduta.

5. E observa que recomendou os cordeiros duas vezes, pois são mais delicados e débeis, e as ovelhas uma só vez. Com isso se dá a entender que aqueles que na Igreja são mais débeis e delicados devem ser muito mais amparados e sustentados, tanto com auxílio espiritual quanto corporal. Diz o Apóstolo: “Consolai os pusilânimes, sustentai os fracos” (1Ts 5,14). Por isso se diz no Gênesis: “Deus tomou Adão”, isto é, o prelado, “e o colocou no paraíso de delícias”, isto é, na Igreja, para que a cultivasse com obras de misericórdia para com os súditos e a guardasse (Gn 2,15) mediante a palavra da pregação, a fim de que, juntamente com eles, recebesse o prêmio do reino. Amém.

III. O MARTÍRIO DO BEM-AVENTURADO PEDRO

6. A paixão do bem-aventurado Pedro, como se lê: “Amém, amém, eu te digo: quando eras mais jovem, tu te cingias e caminhavas para onde querias” (Jo 21,18). Prediz que sofrerá aquele a quem predissera que o negaria. Agora, fortalecido pela Ressurreição, já podia fazer aquilo que, quando fraco, prometia de modo imaturo. Já não teme a morte desta vida, porque, com a ressurreição do Senhor, teve diante de si o exemplo da outra vida. “Quando envelheceres, estenderás as mãos” (Jo 21,18), isto é, serás crucificado; e acrescenta como isso acontecerá: “e outro”, isto é, Nero, “te cingirá” com cadeias, “e te levará para onde não queres” (Jo 21,18), isto é, para a morte. Pois ele foi levado contra a vontade para esse sofrimento da morte, mas dela foi libertado voluntariamente: não querendo ir até ela, mas querendo vencê-la, deixou para trás o sentimento de fraqueza pelo qual ninguém quer morrer, sentimento tão natural que nem a velhice o tirou de Pedro. Por isso diz o Senhor: “Passe de mim este cálice” (Mt 26,39). Mas, por maior que seja o sofrimento da morte, a força do amor o vence; se não houvesse sofrimento algum na morte, ou se fosse pequeno, não seria tão grande a glória do martírio. Disse isso para significar com que morte haveria de glorificar a Deus (Jo 21,19), isto é, por meio dessa morte mostrou quanto Deus deve ser honrado e amado.

7. MORALMENTE. “Quando eras mais jovem.” Sobre isso, nos Provérbios VII: “A prostituta”, diz, “agarra um jovem, beija-o e lisonjeia-o com semblante atrevido, dizendo: Vem, embriaguemo-nos de amor, deleitemo-nos nos abraços desejados. E ele imediatamente a segue, como um boi levado ao sacrifício e como um cordeiro lascivo” (Pr 7,10.13.18.22). A prostituta é o mundo ou a carne, que agarra o jovem, isto é, o espírito, pelo prazer; beija-o pelo consentimento; acaricia-o pela execução. “Vem”, diz ela, “embriaguemo-nos de amor”, isto é, de gula e luxúria; “deleitemo-nos nos abraços desejados”, por meio do hábito. E, porque ainda não é velho, mas jovem, isto é, leviano e inconstante, como um novilho ou um cordeiro lascivo, segue e obedece aos desejos da carne.

Diz, portanto: “Quando eras mais jovem, cingias-te e andavas por onde querias.” Algo semelhante se lê em Jeremias XLVI: “O Egito é uma novilha elegante e formosa; mas do aquilão virá contra ela o seu domador” (Jr 46,20); e em Oseias IV: “Como uma vaca lasciva, Israel se desviou” (Os 4,6); e no capítulo X: “Efraim é uma novilha ensinada a amar a debulha; e eu passei sobre a formosura do seu pescoço: subirei sobre Efraim” (Os 10,11). Ó liberdade escrava, cingir-se com o cinto da própria vontade e andar para onde quer que o próprio impulso a conduza! A novilha, assim chamada por causa da verde idade, é o jovem, isto é, o leviano e inconstante, que é chamado elegante porque agrada a si mesmo, formoso na aparência exterior, mas, contudo, Egito, isto é, tenebroso na consciência; do aquilão, isto é, do diabo, vem-lhe o aguilhoador, isto é, o ímpeto da própria vontade, que o faz agir lascivamente e desviar-se da obediência a Deus e ao seu prelado. Este é como uma novilha que é retirada da debulha da eira e levada ao prado ou ao estábulo, mas, acostumada a debulhar, não pode repousar senão quando retorna à debulha. Há muitos que nunca descansam senão quando trabalham, e dizem, no livro da Sabedoria V: “Estamos cansados no caminho da iniquidade e da perdição, e percorremos caminhos difíceis”, isto é, os da própria vontade, “mas não conhecemos o caminho do Senhor” (Sb 5,7), isto é, a obediência, por meio da qual ele veio a nós. É estultície, diz Gregório, cansar-se no caminho e não querer levá-lo até o fim. Mas o bom Deus sobe sobre Efraim e pisa a formosura do seu pescoço, isto é, a sua vanglória e a soberba do seu coração; humilha-o, para que se submeta e obedeça.

8. Daí se segue: “Mas, quando envelheceres.” Por isso, a Sabedoria IV: “A velhice venerável não é a de longa duração, nem se calcula pelo número dos anos; os cabelos brancos são os sentimentos do homem, e a idade da velhice é uma vida sem mancha” (Sb 4,8-9). O ancião é chamado assim porque não conhece a si mesmo (se nescit). Quem quer obedecer perfeitamente deve ser ancião, isto é, deve ignorar a si mesmo, ignorar a própria vontade. Por isso, em Gênesis XXVII: “Isaac envelheceu, seus olhos se obscureceram e ele não podia ver” (Gn 27,1). Isaac, cujo nome se interpreta “riso”, é o obediente, que deve obedecer com alegria à vontade de quem ordena e ignorar a sua própria. Nesta velhice, os olhos se obscurecem e não podem ver, isto é, discernir. Por isso, Bernardo diz: A obediência perfeita, sobretudo no principiante, deve ser sem discernimento, isto é, não deve discernir o que ou por que se ordena, mas esforçar-se apenas para que se faça fiel e humildemente aquilo que o superior ordena.

Por isso, acrescenta-se: “Estenderás as tuas mãos”, isto é, para as obras da obediência, “e outro”, isto é, o prelado, “te cingirá”, porque já és velho, e não jovem como antes, quando te cingias e andavas por onde querias. Mas agora ele te conduzirá para onde não queres, para que digas com Cristo: “Não o que eu quero, mas o que tu queres. Pai, não se faça a minha vontade, mas a tua” (cf. Mt 26,39.42); e com Davi: “Tornei-me como um jumento diante de ti” (Sl 72,23). Fere com o açoite, pica com o aguilhão, impele com as esporas, oprime com o peso, restaura com coisas ásperas! Isso se faz com um jumento, e eu me tornei como um jumento diante de ti, para que me conduzas para onde queres e faças de mim o que queres, porque me tornei diante de ti como um jumento, ou melhor, como um morto.

Por isso, segue-se: “Disse isso para significar com que morte havia de glorificar a Deus.” Nisso concorda Gênesis XXV: “Abraão, enfraquecendo, morreu em boa velhice, em idade avançada e cheio de dias” (Gn 25,8). Observa que aquele que quer obedecer perfeitamente deve perder três coisas: o próprio modo de pensar, a própria vontade e o próprio corpo. Abraão, que, obedecendo ao mandamento do Senhor e sem saber para onde ia, saiu da sua terra, da sua parentela e da casa paterna, é o verdadeiro obediente, que, renunciando ao próprio modo de pensar, não se apoia no seu, mas no modo de pensar do seu prelado, ainda que este seja simples; “morto em boa velhice”, quanto à mortificação da própria vontade; “em idade avançada”, quanto à maturidade e à humilhação do corpo. Se estas coisas estiverem nele, os seus dias serão cheios, não vazios. Com tal morte, o obediente glorifica o Senhor na terra; e por isso o Senhor o glorificará no céu, ele que é bendito pelos séculos. Amém.

IV. SERMÃO ALEGÓRICO SOBRE OS SANTOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

9. “Alegra-te, Zabulão, na tua saída, e tu, Issacar, nas tuas tendas. Chamarão os povos ao monte e imolarão vítimas de justiça. Sugarão como leite as inundações do mar” (Dt 33,18-19). Esta autoridade é do Deuteronômio, capítulo XXXIII. Nestes dois patriarcas são designados os dois príncipes da Igreja, Pedro e Paulo. Zabulão, que se interpreta “habitação da fortaleza”, é o bem-aventurado Pedro, que, depois da vinda do Espírito Santo, se tornou habitação de tamanha fortaleza que aquele que antes negara o Senhor à voz de uma serva depois não temeu a espada de Nero. “Pela palavra do Senhor”, diz, “os céus”, isto é, os apóstolos, “foram firmados, e pelo sopro de sua boca toda a sua força” (Sl 32,6); e: “Eu firmei as suas colunas” (Sl 74,4).

Issacar, que se interpreta “homem da recompensa”, é o bem-aventurado Paulo, que foi verdadeiramente homem da recompensa eterna, pela qual trabalhou mais que todos (cf. 1Cor 15,10); pois viu que o repouso era bom e que a terra era ótima, e submeteu o ombro e as costas para carregar (Gn 49,15): o evangelho sobre o ombro, o flagelo nas costas por causa do evangelho, e por isso a recompensa para ele como prêmio. “Ai de mim”, diz, “se eu não evangelizar. Se faço isso voluntariamente, tenho recompensa” (1Cor 9,16-17). Diz Jó, capítulo XXXI: “Escreva um livro aquele mesmo que julga, para que eu o leve sobre o meu ombro” (Jó 31,35-36). Jesus Cristo, a quem o Pai confiou todo julgamento (cf. Jo 5,22), escreveu o livro, isto é, o evangelho, que Paulo, vaso de eleição, levou sobre o ombro diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel (At 9,15), pelos quais foi açoitado três vezes com varas e uma vez apedrejado (cf. 2Cor 11,25) por causa do nome de Cristo.

10. Estes dois apóstolos hoje se alegraram em sua paixão: Pedro “na sua saída”, do suplício da cruz para a glória da bem-aventurança; Paulo “nas tendas”, saindo da tenda do próprio corpo e entrando na tenda da morada celeste. Pedro se alegra na cruz, Paulo sob a espada, porque estão certos da retribuição eterna, à qual, enquanto viviam, chamaram os povos que lhes haviam sido confiados.

Por isso se acrescenta: “Chamarão os povos ao monte”. Daí concorda o capítulo X dos Números: “O Senhor falou a Moisés, dizendo: Faze para ti duas trombetas de prata batida, com as quais possas convocar a multidão” (Nm 10,1-2). Estes dois apóstolos são chamados trombetas de prata por causa da sonoridade da pregação, e de prata batida por causa dos golpes da paixão. Cristo fez estas trombetas, isto é, escolheu-as por sua graça, e por meio delas convocou a multidão dos povos ao monte da vida eterna. E assim como aquelas trombetas convocavam para a guerra, o banquete e a festa (cf. Nm 10,9-10), assim estes chamaram os povos para a guerra contra os vícios. Por isso Pedro diz: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo” (1Pd 5,8) etc.; e Paulo: “Tomando o escudo da fé, com o qual possais apagar todos os dardos inflamados do maligno” (Ef 6,16); chamaram-nos ao banquete da inocência e da santa vida. Por isso Pedro diz: “Como crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual, puro e sem malícia, para que por ele cresçais para a salvação, se é que provastes quão doce é o Senhor” (1Pd 2,2-3); e Paulo: “Celebremos a festa”, diz, “com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1Cor 5,8); chamaram-nos à festa da pátria celeste. Por isso Pedro diz: “Exultareis de alegria indizível e gloriosa, alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1Pd 1,8-9); e Paulo: “Correi”, diz, “de modo a alcançar” (1Cor 9,24); e novamente: “Até que todos cheguemos ao homem perfeito, à medida da plenitude da idade de Cristo” (Ef 4,13).

E depois que estas trombetas convocaram os povos para as três coisas acima mencionadas, ouçamos o que eles próprios fizeram. “E imolarão”, diz, “vítimas de justiça.” Foi o que eles fizeram hoje, imolando ao Senhor, pelo martírio, os seus corpos como vítimas de justiça, porque justas e santas.

11. E quão doce lhes foi a amargura da paixão de hoje, revela-se quando se acrescenta: “Sugarão como leite as inundações do mar”. Observa que o mar que transborda tem aspecto horrível e sabor amargo; ao contrário, o leite tem cor agradável e sabor doce. Nesta palavra “sugarão” são indicados o desejo ardente e o deleite. Ó amor de Cristo, que transformas todas as coisas amargas em doces! A paixão dos apóstolos foi horrível e amarga, mas o amor de Cristo a tornou agradável e doce para eles, de modo que a acolheram com avidez e deleite e, depois, se alegraram eternamente com aquele que é bendito pelos séculos eternos. Amém.

V. SERMÃO MORAL

14 - Segue-se: “Convocarão os povos ao monte.” Observa que há o homem interior e o exterior, e cada um deles tem o seu povo. O homem interior tem a multidão de muitos pensamentos e afetos; o homem exterior, a multidão dos membros e dos sentidos.

O amor de Deus convoca o povo do homem interior ao monte, isto é, à sublimidade da santa contemplação, para que ali se reúna naquele banquete de que fala Isaías: “O Senhor dos exércitos preparará para todos os povos, neste monte, um banquete de carnes gordas e medulosas, um banquete de vinho purificado” (Is 25,6). Quando a mente se eleva na contemplação, então o povo se reúne no monte, porque os pensamentos são retirados da vã divagação e os afetos são refreados da concupiscência ilícita; e então o Senhor lhes prepara um banquete, isto é, a alegria, de carnes gordas e medulosas, isto é, da luz da sabedoria interior, pela qual a consciência se fortalece. “Ao som”, diz ele, “da exultação e da confissão, o ruído dos que festejam” (Sl 41,5). Assim como o animal, quando está bem cevado, se alegra e brinca, assim a alma, quando é tocada por aquele sabor, exulta e salta de alegria. O banquete, isto é, a alegria, do vinho purificado, refere-se à efusão das lágrimas. Esta dupla alegria está no afeto e no intelecto, isto é, no amor e no conhecimento.

Do mesmo modo, o amor do próximo convoca ao monte, isto é, à sublimidade do amor fraterno, o povo do homem exterior, para que os membros e os sentidos sirvam também ao próximo e lhe administrem o necessário. Por isso, Ageu: “Subi ao monte, trazei madeira, edificai a casa, e ela me será agradável, e serei glorificado, diz o Senhor” (Ag 1,8). Sobe ao monte quem ama o próximo; leva madeira quando o sustenta; edifica-lhe uma casa quando lhe provê o necessário.

12. “Alegra-te, Zabulon, em tua saída, e tu, Issacar, em tuas tendas.” Nestes dois patriarcas são figurados, em sentido moral, os dois amores, a saber, o amor de Deus e o do próximo. Zabulon, que se interpreta como “sustento da habitação”, é o amor de Deus. A habitação é a mente do homem, cujo sustento, isto é, cuja riqueza, é o amor de Deus; não há riqueza maior que ele. Por isso, nos Provérbios: “Feliz o homem que encontrou a sabedoria e que é rico de prudência”, isto é, de amor de Deus; “melhor é a sua aquisição que o comércio da prata, e seus frutos, que o ouro primeiro e puríssimo” (Pr 3,13-14). Nisto se indica que a doçura da contemplação, que nasce do amor do Criador, é mais preciosa que todas as riquezas, e tudo quanto se pode desejar não se compara com ela. Ou então, o amor de Deus é chamado sustento da habitação porque faz subsistir a mente que possui, para que não desabe. Ai daquela habitação que carece deste sustento. Por isso, no Saltério: “Estou cravado no lodo profundo, e não há sustento” (Sl 68,3). O lodo é assim chamado, quase como algo brando; é o amor da carne ou do mundo. Nele se afunda aquele que não tem o amor de Deus em que se apoiar e, por isso, é tragado pela profundidade.

Issacar, que se interpreta “minha recompensa”, é o amor do próximo, que oferece o ombro para levar os seus fardos, como diz o Apóstolo: “Levai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei”, isto é, a caridade, “de Cristo” (Gl 6,2). O amor do próximo é chamado “jumento forte”, porque leva os seus fardos pelo caminho, para receber a recompensa na pátria. Por isso, no Saltério: “Quando tiver dado o sono aos seus amados, eis a herança do Senhor: os filhos; a recompensa, fruto do ventre” (Sl 126,2-3). Doce é o sono depois do trabalho. “Amados” é dito daqueles que estão ligados por duas coisas. Portanto, quando tiver dado o sono, isto é, o repouso, depois do trabalho, aos seus amados, isto é, àqueles que foram ligados pelos vínculos da dupla caridade, eis a herança do Senhor! Pois nesse sono está a posse da pátria eterna, que é a recompensa do filho, adotado pela graça, que é fruto do ventre, isto é, da mãe Igreja. Ou então: os amados são a herança do Senhor e são a recompensa do Filho Jesus Cristo, dados a ele pelo Pai como recompensa da Paixão; e este Filho é fruto do ventre virginal: “Bendito”, diz ela, “o fruto do teu ventre” (Lc 1,42).

13. Zabulon, isto é, o amor de Deus, alegra-se em sua saída; nisso é indicada a vida contemplativa, na qual, para progredir, é preciso sair não somente da preocupação com o mundo, mas também da preocupação consigo mesmo, isto é, sair para fora de si. Por isso se diz no Gênesis: “Abraão correu ao encontro do Senhor desde a entrada da tenda e adorou-o por terra; e disse: Senhor, se encontrei graça aos teus olhos, não passes adiante sem te deteres junto de teu servo” (Gn 18,2-3). A tenda é a milícia da vida ativa, da qual sai e corre ao encontro do Senhor aquele que, livre de impedimentos, se eleva à contemplação e, levado para fora de si pelo êxtase da mente, contempla, na alegria do espírito, a luz da suma Sabedoria; e, para poder permanecer nela por mais tempo, pede-lhe que não passe adiante. Alegra-se, portanto, Zabulon em sua saída; alegra-se também Issacar, isto é, o amor do próximo, nas tendas, isto é, na milícia da vida ativa, na qual trabalha para atender à necessidade do próximo.

Sobre essas tendas se diz no livro dos Números: “Como são belas as tuas tendas, Jacó, e as tuas moradas, Israel! Como vales cobertos de bosques, como jardins junto às águas correntes, como tendas que o Senhor firmou, semelhantes a cedros junto às águas” (Nm 24,5-6). Nesta passagem descreve-se elegantemente como deve ser aquele que quer dedicar-se à vida ativa. Jacó, que se interpreta como lutador, e Israel, vidente de Deus, representam o homem ativo: ora está na luta, ora no observatório da mente, isto é, no abraço de Lia, que significa laboriosa, e no abraço de Raquel, que se interpreta como visão do princípio, isto é, de Deus. As “tendas” ou “moradas” são propriamente a milícia da santa conversação, que é e deve ser “bela” pela honestidade dos costumes; “como vales cobertos de bosques”, pela humildade da mente, que oferece sombra protetora contra os estímulos da carne; “como jardins junto às águas correntes”, pela abundância das lágrimas; como tendas que o Senhor firmou, pela constância do ânimo e pela perseverança final; “semelhantes a cedros”, pela sublimidade da esperança e pelo perfume da boa reputação, que afugenta as serpentes da difamação; “junto às águas”, isto é, aos carismas da graça. Quem possui tais tendas pode alegrar-se e deleitar-se nelas.

15. Segue-se: “E imolarão vítimas de justiça. Oferecei”, diz ele, “sacrifícios de justiça” (Sl 4,6). O amor de Deus imola a vítima no espírito de humildade e com o coração contrito (cf. Dn 3,39); o amor do próximo, na aflição e no trabalho do corpo. Estas vítimas são chamadas de justiça porque são feitas unicamente por motivo de caridade. São verdadeiramente vítimas de justiça, e não de vanglória, a respeito das quais Oseias diz: “Fizestes cair as vítimas no abismo” (Os 5,2). Fazem isso aqueles que derramam lágrimas ou realizam obras em favor da necessidade fraterna por vanglória.

Segue-se: “Os que sorvem como leite as inundações do mar.” Quem deseja sorver deve comprimir os lábios. Ninguém pode sorver algo com a boca aberta. Diz-se sorver, isto é, sumendo agere, agir tomando. Quem deseja sorver como leite, isto é, docemente, as inundações do mar, isto é, as tentações da carne, do mundo ou do diabo, deve cerrar os lábios à vaidade do mundo; e, por isso, aquele duplo amor sorve as tentações como leite, porque não recebe um amor estranho. Por isso, no Cântico de Moisés: “Sorveram mel da pedra e óleo do rochedo duríssimo” (Dt 32,13). Na pedra é figurada a dureza da tentação carnal ou mundana; no rochedo duríssimo, a sugestão do diabo endurecido. Felizes aqueles que tanto de uma como da outra sabem sorver a doçura e a luz de uma consciência alegre! “A pedra”, diz Jó, “derramava para mim córregos de óleo” (Jó 29,6). Isso acontece quando alguém é duramente tentado, mas, na própria tentação, é visitado e iluminado pela graça e irrigado por torrentes de lágrimas. Digne-se irrigar-nos com elas aquele que é bendito pelos séculos. Amém.

VI. SERMÃO ALEGÓRICO SOBRE SÃO PAULO

16. “Quem deixou livre o asno selvagem, e quem desatou os seus vínculos? Dei-lhe a solidão por morada e suas tendas numa terra salobra. Despreza a multidão da cidade, não ouve o clamor do tirano. Volta os olhos para os montes de seu pasto e procura tudo quanto é verdejante” (Jó 39,5-8). Esta passagem encontra-se no livro de Jó, capítulo XXXIX. O asno selvagem é chamado asno do campo, e nele é representado o bem-aventurado Paulo, que foi como o asno do campo, isto é, da santa Igreja. O campo é chamado ager, porque nele sempre se faz alguma coisa: ou se semeia, ou se enxertam árvores, ou se prepara para pastagens, ou se adorna com flores. No campo da santa Igreja, o bem-aventurado Paulo realizou essas quatro coisas: semeou nele a semente da palavra divina; enxertou nos troncos infrutíferos os brotos da vida santa, para que se renovassem e produzissem fruto; ou, como se diz no Eclesiastes, “plantou árvores de toda espécie” (Ecl 2,5), isto é, homens justos; preparou-o para as pastagens da vida eterna; e adornou-o com diversas flores das virtudes. Foi, portanto, o asno desse campo, porque carregou o peso do dia e do calor (cf. Mt 20,12): “Em trabalhos sem conta, em prisões muito mais frequentes, em açoites além da medida, muitas vezes em perigo de morte” (2Cor 11,23) etc.; “além dessas coisas exteriores, há a minha preocupação cotidiana, o cuidado por todas as Igrejas” (2Cor 11,28).

Quem deixou livre esse asno selvagem? Sem dúvida, aquele que o separou desde o seio de sua mãe, isto é, da sinagoga, a cujos preceitos legais e cerimônias estava ligado, e o chamou por sua graça (cf. Gl 1,15), deixando-o assim livre. Por isso ele mesmo diz: “Não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi acaso Jesus Cristo, nosso Senhor?” (1Cor 9,1). Verdadeiramente era livre aquele que podia dizer: “De nada tenho consciência contra mim” (1Cor 4,4).

“Ou quem desatou os seus vínculos?” Certamente Cristo, de quem ele diz: “Desejo partir e estar com Cristo” (Fl 1,23); no momento da conversão, Cristo o deixou livre para correr por toda parte a anunciar a palavra; e, no martírio de hoje, desatou os vínculos de seu corpo, para que voasse ao céu.

17. Segue-se: “Dei-lhe a solidão por morada e suas tendas numa terra salobra”. O próprio Paulo diz o mesmo: “Aquele que operou em Pedro para o apostolado entre os circuncisos operou também em mim entre os gentios” (Gl 2,8), que eram chamados solidão, porque entre eles Deus não habitava, e terra salobra, isto é, de amargura e esterilidade; entre eles e a partir deles Deus deu ao bem-aventurado Paulo uma casa, isto é, para que edificasse entre eles e a partir deles uma casa, isto é, a santa Igreja, e as tendas da santa milícia, a fim de que lutasse por eles contra os inimigos visíveis e invisíveis e defendesse a casa que lhe fora confiada.

Segue-se: “Despreza a multidão da cidade” romana, na qual hoje teve a cabeça cortada; por isso podia dizer com Jó: “Se temi a grande multidão e o desprezo dos parentes me aterrou” (Jó 31,34), isto é, dos judeus. Outra tradução diz mais claramente: “Não temi a multidão do povo, a ponto de não confessar diante deles” (tradução dos Setenta). Foi exatamente isso que o bem-aventurado Paulo fez; por isso diz a Timóteo: “No Evangelho fui constituído pregador, apóstolo e mestre dos gentios. Por essa causa também sofro estas coisas, mas não me envergonho” (2Tm 1,11-12). Ele “não ouve o clamor do tirano”, isto é, de Nero, e não temeu a sua espada, porque nenhuma criatura pôde separá-lo da caridade de Jesus Cristo, como ele mesmo diz (cf. Rm 8,39).

Por isso acrescenta-se: “Volta os olhos para os montes de seu pasto”, nos quais é indicada a caridade de Cristo: “Ainda”, diz ele, “vou mostrar-vos um caminho sobremodo excelente” (1Cor 12,31). Ali estava o seu pasto, ali o seu alimento e a sua saciedade. Aquele que para ali voltava os olhos desprezava a multidão e não ouvia o clamor do tirano. Ou então os montes de seu pasto são aquelas ordens dos anjos às quais, no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe, foi arrebatado, e onde ouviu palavras que não é permitido ao homem pronunciar (cf. 2Cor 12,3-4). Ali se alimentava, ali exultava, porque ali estavam os seus pastos, isto é, a contemplação e o alimento que lhe eram próprios.

“E procura tudo quanto é verdejante.” Enquanto ainda estava na carne mortal, contemplava assídua e, se é lícito dizê-lo, continuamente, com a mente, os montes da pastagem celeste; agora, porém, “procura tudo quanto é verdejante”, expressão que indica a alegria da eterna saciedade, que satisfaz todo o seu desejo: pois quem procura, deseja. Tão grande é a beleza da divina Majestade que acende naqueles espíritos bem-aventurados o desejo de si; ao acendê-los, revigora-os, e, ao revigorá-los, faz com que desejem ainda mais. A ela, portanto, a honra e a glória pelos séculos eternos. Amém.

VII. SERMÃO MORAL

18. “Quem deixou livre o onagro?” Certamente aquele de quem Moisés diz, no Deuteronômio: “Quando amanhã teu filho te perguntar, dizendo: Que significam estes testemunhos, estas cerimônias e estes preceitos?, tu lhe dirás: Éramos escravos do faraó no Egito, e o Senhor nos tirou do Egito com mão poderosa, para nos introduzir numa terra” (Dt 6,20-21.23) “que mana leite e mel” (Dt 26,9). “Quem comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8,34); e Pedro: “Cada um é escravo daquele por quem foi vencido” (2Pd 2,19). Da escravidão o deixa livre aquele que lhe diz, em Isaías: “Sou eu, sou eu que apago as tuas iniquidades por causa de mim mesmo; e não me lembrarei dos teus pecados” (Is 43,25); e Miqueias: “Deporá todas as nossas iniquidades e lançará no profundo do mar todos os nossos pecados” (Mq 7,19). O onagro é o espírito do penitente que, como se diz nos Provérbios, “considerou um campo e o comprou” (Pr 31,16). O campo é a pátria celeste, onde continuamente se trabalha, porque ali Deus é louvado sem cessar: “Nos séculos dos séculos te louvarão”, diz ele (Sl 83,5). Ele contempla este campo na meditação da mente, compra-o com as obras de penitência e, por isso, é chamado asno do campo; e o Senhor o deixa livre quando, como à Madalena, lhe diz: “Teus pecados estão perdoados” (Lc 5,23).

“Ou quem desatou os seus vínculos?” Certamente Jacó, de quem se diz no Gênesis: “Foram desatados os vínculos dos braços e das mãos de José pela mão do Poderoso de Jacó” (Gn 49,24). Os vínculos são os maus hábitos e as cobiças do mundo, que prendem os braços e as mãos, impedindo-as de realizar boas obras, embora Salomão recomende, no Eclesiastes: “Tudo o que tua mão puder fazer, faze-o prontamente, porque não haverá obra, nem razão, nem sabedoria, nem ciência nos infernos, para onde tu te apressas” (Ecl 9,10), isto é, para onde te preparas desde longe, isto é, para onde te precipitas pelo pecado mortal. Mas estes vínculos são desatados pelas mãos do Poderoso de Jacó, isto é, pela misericórdia do Deus poderoso, que livrou Jacó, isto é, o espírito, da mão, ou seja, do poder de seu irmão Esaú, isto é, da carne ou do mundo. Por isso concorda com o que se lê no livro dos Juízes: “Sansão”, diz ele, “rompeu os vínculos como alguém rompe um fio de estopa torcida, quando este recebe o odor do fogo” (Jz 16,9). O fogo é a graça do Espírito Santo; ao seu odor, isto é, à sua inspiração, rompem-se os vínculos dos maus hábitos, pelos quais Sansão é mantido preso por Dalila, isto é, o espírito pela concupiscência da carne.

Agora que foi libertado, ouçamos o que o Senhor faz. “A ele”, diz, “dei uma casa na solidão”. Por isso Jeremias: “Diante da mão do Senhor, eu me sentava sozinho, porque me encheste de amargura” (cf. Jr 15,17). A casa é a paz do coração, que o Senhor concede na solidão da mente e do corpo. Por isso, nas Lamentações: “Sentar-se-á solitário e ficará em silêncio, porque se elevou acima de si; porá a sua boca no pó” (Lm 3,28-29). Nesta autoridade são apresentadas cinco coisas necessárias a todo justo, a saber: a paz do coração, quando se diz primeiro: “sentar-se-á”; a separação das coisas terrenas, quando se diz: “solitário”; o silêncio da boca, quando se acrescenta: “ficará em silêncio”; a elevação da contemplação, quando se adita: “elevou-se acima de si”; a lembrança da própria fragilidade, quando se conclui: “porá a sua boca no pó”, para que fale dela mesma, lembrado daquela sentença: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19).

19. Segue-se: “E as suas tendas estarão na terra salobra.” A terra salobra é este mundo; por isso diz o Salmo: “Tornou a terra fértil em salobra, por causa da maldade dos seus habitantes” (Sl 106,33-34). Porque, como se diz no Apocalipse, ai dos habitantes da terra (cf. Ap 8,13). Nesta terra o Senhor deu ao onagro, isto é, ao espírito, tendas, isto é, os membros do corpo, para que com ele e por ele combata contra o diabo e os vícios. Um inimigo que combate valorosamente faz com que também tu combatas valorosamente. Por isso diz o Apóstolo: “Assim luto, não como quem golpeia o ar” — mas a eles mesmos, e não somente a eles —; “mas castigo o meu corpo e o reduzo à servidão” (1Cor 9,26-27). Por isso diz o Gênesis XII: “Abraão”, diz, “estendeu a sua tenda entre Betel”, que se interpreta “casa de Deus”, “e Hai”, que se interpreta “questão da vida” (cf. Gn 12,8). Estender a tenda significa exercitar o corpo na satisfação da penitência e dilatá-lo para as obras de caridade. E isso entre a “casa de Deus”, isto é, a vida eterna, para que para lá dirija o olhar de toda a intenção, e a “questão”, isto é, a tentação desta vida, para que a combata e, combatendo-a, a vença pela fortaleza da alma. Na escola desta vida miserável surgem diversas questões acerca das tentações. E quem é tão experiente que possa refutá-las todas? Quantas são as tentações, tantas são as questões.

Não podemos superá-las com maior sabedoria senão desprezando-as. Por isso segue-se: “Despreza a multidão da cidade” (Jó 39,7).

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.