Sermões Dominicais · Parte I · Sermão n.º 2

Domingo da Septuagésima Dominica in Septuagesima

Sermões Dominicais — Da Septuagésima a Pentecostes · 4 seções · 23 parágrafos · português, com o latim e o italiano a um clique

Temas do sermão

Primeiro evangelho da Septuagésima: “O reino dos céus é semelhante a um pai de família”, que se divide em duas partes.

Intróito da missa: “Cercaram-me”.

Epístola: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio”.

História: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”.

[Da primeira parte]. Na primeira parte deste evangelho encontrarás ao menos estes temas de sermões, ou princípios de pregações.

Primeiro, um sermão para a formação do coração do pecador e sobre a propriedade do tijolo, onde se diz: “Toma para ti um tijolo”.

Também um sermão sobre os sete artigos da fé, onde se diz: “No primeiro dia, Deus disse: Faça-se a luz”.

Também um sermão sobre a Natividade do Senhor, onde se diz: “No primeiro dia, Deus disse: Faça-se a luz”.

Também um sermão sobre o Batismo e sobre aqueles que o violam, onde se diz: “Faça-se o firmamento”, etc.

Também um sermão sobre a Paixão de Cristo e a fé da Igreja, onde se diz: “Produza a terra”, etc.

[Da segunda parte]. Na segunda parte do evangelho há, antes de tudo, um sermão sobre a contrição do coração, dirigido aos penitentes, onde se diz: Deus disse: “Faça-se a luz, e fez-se a luz”.

Também um sermão aos penitentes, onde se diz: “Entrou Saul”.

Também um sermão contra os ricos, onde se diz: “O Senhor preparou um verme”.

Também um sermão aos que se confessam, onde se diz: “Faça-se o firmamento”.

Também um sermão aos penitentes ou aos claustrais, onde se diz: “Quem soltou o asno selvagem?”.

Também um sermão sobre o amor de Deus e do próximo, onde se diz: “Façam-se dois luzeiros”.

E observa que desta autoridade se pode extrair um sermão para a festa dos apóstolos Pedro e Paulo. Pedro foi o luzeiro maior, que presidiu ao dia, isto é, aos judeus; Paulo, o luzeiro menor, que presidiu à noite, isto é, aos gentios.

Também um sermão aos contemplativos e sobre as propriedades da ave, onde se diz: “O homem nasce para o trabalho”.

Também um sermão sobre a dupla glorificação, isto é, da alma e do corpo, onde se diz: “Haverá mês após mês”.

Exórdio. Formação do coração do pecador

1. “No princípio, criou Deus”, etc. (Gn 1,1).

O Espírito Santo fala a Ezequiel, isto é, ao pregador: “E tu, filho do homem, toma para ti um tijolo e desenha nele a cidade de Jerusalém” (Ez 4,1). O tijolo, por causa das quatro propriedades que possui, significa o coração do pecador: é formado entre duas tábuas, é levado à largura, é solidificado pelo fogo e torna-se avermelhado. Com efeito, o coração do pecador deve ser formado entre as duas tábuas de ambos os Testamentos: “Entre o meio” dos “montes”, isto é, dos dois Testamentos, como diz o Profeta, “passarão as águas” (Sl 103,10), isto é, as doutrinas. E diz muito bem “é formado”: pois o pecador, deformado pelo pecado, recebe a forma pela pregação de ambos os Testamentos. Do mesmo modo, é levado à largura: a largura da caridade amplia o coração estreito do pecador; por isso: “É muito extensa a tua ordem” (Sl 118,96), e a caridade é mais larga que o oceano. Também é solidificado pelo fogo: pois pelo fogo da tribulação a mente úmida e dissolúvel se solidifica, para que não se derrame no amor das coisas temporais, porque, como diz Salomão, o que a fornalha é para o ouro, a lima para o ferro e o malho para o grão, isso é a tribulação para o justo (cf. Sb 3,6). Também se torna avermelhado: nisso se indica a audácia do santo zelo, do qual se diz:

“O zelo de tua casa”, isto é, da Igreja ou da alma fiel, “me devorou” (Sl 68,10); e Elias: “Ardi de zelo” (3Rs 19,10) pela casa de Israel.

No tijolo, portanto, são assinaladas estas quatro coisas: o conhecimento de ambos os Testamentos para instruir o próximo, a abundância da caridade para amá-lo, a paciência na tribulação para suportar o opróbrio por Cristo, e a audácia do zelo para ferir todo mal. “Toma, portanto, para ti um tijolo e desenha nele a cidade de Jerusalém”.

2. Observa que há uma tríplice Jerusalém espiritual: a primeira é a Igreja militante, a segunda é a alma fiel, a terceira é a pátria celeste. Portanto, em nome do Senhor, tomarei o tijolo, isto é, o coração de cada ouvinte, e desenharei nele a tríplice cidade, isto é, os artigos da Igreja, as virtudes da alma e os prêmios da pátria celeste, introduzindo e expondo, sob o número setenário, autoridades de ambos os Testamentos.

I. Dos sete dias da criação e dos sete artigos da fé

3. “No princípio, Deus criou o céu e a terra” etc. Entende o continente e o conteúdo. Deus, isto é, o Pai, no princípio, isto é, no Filho, criou e recriou: criou em seis dias, repousando no sétimo; recriou com seis artigos da fé, prometendo o repouso eterno com o sétimo.

No primeiro dia, Deus disse: “Faça-se a luz. E fez-se a luz” (Gn 1,3): primeiro artigo da fé, a Natividade. No segundo dia, Deus disse: “Faça-se o firmamento no meio das águas, separando águas de águas” (Gn 1,6): segundo artigo da fé, o Batismo. No terceiro dia, Deus disse: “Germine a terra erva verdejante e que produza semente, e árvore frutífera que produza fruto segundo a sua espécie” (Gn 1,11): terceiro artigo, a Paixão. No quarto dia, Deus disse: “Haja dois grandes luzeiros no firmamento” (Gn 1,14): quarto artigo, a Ressurreição. No quinto dia, Deus fez “as aves no ar” (cf. Gn 1,20): quinto artigo, a Ascensão. No sexto dia, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). “E soprou em seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7): sexto artigo, o envio do Espírito Santo. No sétimo dia, Deus repousou de toda a obra que realizara (cf. Gn 2,2): sétimo artigo, a vinda para o juízo, no qual repousaremos de todas as nossas obras e fadigas.

Invoquemos, portanto, o Espírito Santo, que é o amor e o vínculo do Pai e do Filho, para que ele nos conceda unir e harmonizar assim ambos os conjuntos de sete, isto é, os dias e os artigos da fé, de modo que disso resulte a sua honra e a edificação da sua Igreja.

4. No primeiro dia, Deus disse: “Faça-se a luz” etc. Esta luz é a Sabedoria de Deus Pai, que ilumina todo homem que vem a este mundo (cf. Jo 1,9) e habita numa luz inacessível (cf. 1Tm 6,16); dela diz o Apóstolo aos Hebreus: “Ele, que é o esplendor e a imagem da sua substância” (Hb 1,3); e o Profeta: “Na tua luz veremos a luz” (Sl 35,10); e no livro da Sabedoria: A Sabedoria “é o resplendor da luz eterna” (Sb 7,26). Dela, portanto, disse o Pai: “Faça-se a luz. E fez-se a luz”, o que João explica mais claramente, dizendo: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). E Ezequiel, com o mesmo sentido, mas com palavras diferentes: “Veio sobre mim”, diz ele, “a mão do Senhor” (Ez 3,22), isto é, o Filho, no qual e por meio do qual fez todas as coisas. A luz, portanto, que era inacessível e invisível, tornou-se visível na carne, iluminando aqueles que estavam sentados nas trevas e na sombra da morte (cf. Lc 1,79). Sobre essa iluminação, encontras em João que Jesus cuspiu no chão, fez lodo e ungiu os olhos do cego de nascença (Jo 9,6). A saliva, que desce da cabeça do Pai, significa a sabedoria: “A cabeça de Cristo”, diz o Apóstolo, “é Deus” (1Cor 11,3). A saliva é, portanto, unida ao pó, isto é, a divindade é unida à humanidade, para que sejam iluminados os olhos do cego de nascença, isto é, do gênero humano, cegado nos primeiros pais. Eis que claramente tens que, no dia em que Deus disse “Faça-se a luz”, nesse mesmo dia, isto é, no domingo, a Sabedoria de Deus Pai, nascida da Virgem Maria, expulsou as trevas que “estavam sobre a face do abismo” (Gn 1,2), isto é, do coração humano. Por isso, nesse mesmo dia, canta-se na Missa da Luz: “Resplandecerá a luz” etc., e no Evangelho: “Uma luz do céu envolveu os pastores” (Lc 2,9).

5. No segundo dia, Deus disse: “Faça-se o firmamento no meio das águas, e separe águas de águas” etc. O firmamento no meio das águas é o Batismo, que separa as águas superiores das águas inferiores, isto é, os fiéis dos infiéis, que são justamente chamados águas inferiores, porque buscam as coisas inferiores e todos os dias decaem por suas quedas. As águas superiores, porém, significam os fiéis, que, segundo o Apóstolo, devem procurar “as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3,1).

E observa que essas águas são chamadas cristalinas. Com efeito, o cristal, tocado ou atingido pelos raios do sol, emite centelhas ardentes; assim, o homem fiel, iluminado pelos raios do sol, deve emitir as centelhas da reta pregação e da boa ação, que inflamam o próximo. Mas, ai! ai! Rompido o firmamento, as águas superiores se dispersam no mar morto, entrando junto com os mortos. Por isso, Ezequiel diz: “Estas águas, que saem do monte de areia oriental e descem à planície do deserto, entrarão no mar” (Ez 47,8). O monte indica a contemplação, na qual, como num túmulo, o morto é sepultado e ocultado. O homem contemplativo, morto para o mundo e escondido da agitação dos homens, é sepultado. Por isso, Jó diz: “Entrarás na abundância do sepulcro, como se recolhe o monte de trigo no seu tempo” (Jó 5,26). O justo, na abundância da graça que lhe foi concedida, entra no sepulcro da vida contemplativa, assim como o monte de trigo é levado ao celeiro no seu tempo: expulsa a palha das coisas temporais, sua mente é recolhida no celeiro da plenitude celeste e, uma vez recolhida, sacia-se da sua doçura.

6. E observa que este monte é chamado “de areia oriental”. Na areia é designada a penitência. Por isso, no Êxodo, lês que Moisés “escondeu sob a areia o egípcio que havia ferido” (Ex 2,12), porque o homem justo deve ferir o pecado mortal na confissão e ocultá-lo pela satisfação da penitência, que deve sempre voltar-se para aquele Oriente do qual Zacarias diz: “Eis o homem, Oriente é o seu nome” (Zc 6,12).

Diga-se: “Estas águas, que saem do monte de areia oriental” etc. Ai! Quantas águas, quantos religiosos saem do monte da vida contemplativa, da areia da penitência, do Oriente da graça! Saem, digo, com Dina e Esaú da casa paterna (cf. Gn 34,1; 29,8), com o diabo e Caim, da presença divina (cf. Gn 4,16), e, com Judas, o traidor, que tinha a bolsa (cf. Jo 12,6), da escola de Cristo (cf. Jo 13,29-30); e descem à planície do deserto, ao campo da solidão de Jericó, na qual, como diz Jeremias, Nabucodonosor, isto é, o diabo, cega Sedequias na amplidão das coisas temporais, isto é, o pecador é privado da luz da razão, com seus próprios filhos, isto é, suas obras, mortos pelo próprio diabo (Jr 39,4-7).

Nessa planície, Caim, cujo nome se interpreta “posse”, matou Abel, cujo nome se interpreta “luto”. Com efeito, a posse da abundância passageira mata o luto da penitência. Descendem, portanto, as águas à planície do deserto; por isso, diz-se no Gênesis: “Ao partirem do Oriente para o Ocidente, encontraram uma planície na terra de Senaar” (Gn 11,2). Do Oriente da graça para o Ocidente da culpa caminham os filhos de Adão e, tendo encontrado uma planície de alegria mundana, habitam na terra de Senaar, que se interpreta “fedor”. Com efeito, no fedor da gula e da luxúria constroem a casa de sua vida, não como cristãos, mas como pagãos, assumindo em vão o nome de seu Deus, pois o Senhor diz no Êxodo: “Não tomarás em vão o nome do Senhor, teu Deus” (Ex 20,7); toma em vão o nome de Deus aquele que não traz a realidade do nome, mas apenas o nome sem a realidade. E assim entram no mar, isto é, na amargura dos pecados, para daí chegarem à amargura dos tormentos.

Mas Deus fez o firmamento do Batismo no meio das águas, para separar águas de águas; porém estes pecadores, como diz Isaías, “transgrediram as leis, mudaram o direito, romperam a aliança eterna. Por isso a maldição devorará a terra, e os seus habitantes pecarão; por isso enlouquecerão os seus habitantes” (Is 24,5-6). Transgridem as leis da letra e da graça, porque não querem guardar nem a lei da letra, como servos, nem a lei da graça, como filhos; mudam o direito natural, que é: Não faças aos outros o que não queres que te façam (cf. Tb 4,16); rompem a aliança eterna que firmaram no Batismo. E por isso a maldição da soberba devorará a terra, isto é, os terrenos, e os seus habitantes pecarão com o pecado da avareza; a estes se diz no Apocalipse: “Ai dos que habitam sobre a terra” (Ap 8,13); e os que a cultivam enlouquecerão com o pecado da luxúria, que é loucura e demência da mente.

7. No terceiro dia, Deus disse: “Produza a terra erva verdejante” etc. A terra, que se diz a partir de tero, teris, isto é, triturar, é o corpo de Cristo, que foi triturado por causa de nossos pecados, como diz Isaías (cf. Is 53,5). E esta terra foi escavada e arada pelos cravos e pela lança, e dela se diz: “A terra escavada dará frutos no tempo desejado. A carne de Cristo, trespassada, deu o reino dos céus.” Ela fez brotar a erva verdejante nos apóstolos, produziu a semente da pregação nos mártires e a árvore frutífera que dá fruto nos confessores e nas virgens. A fé na Igreja primitiva era como erva tenra; por isso os apóstolos diziam no Cântico dos Cânticos: “Nossa irmã”, isto é, a Igreja primitiva, “é pequena” quanto ao número dos fiéis, “e não tem seios” com que amamente seus filhos; pois ainda não havia sido fecundada pelo Espírito Santo e, por isso, diziam: “Que faremos à nossa irmã no dia”, o da “Pentecostes, em que se deverá falar-lhe” (Ct 8,8), com a palavra do Espírito Santo? A respeito dela, o Senhor diz no evangelho: “Ele vos ensinará todas as coisas e vos sugerirá”, isto é, vos fornecerá, “todas as coisas” (Jo 14,26).

8. No quarto dia, Deus disse: “Façam-se dois luzeiros no firmamento”. No firmamento, isto é, em Cristo já glorificado pela Ressurreição, houve dois luzeiros: a claridade da Ressurreição, indicada pelo sol, e a incorruptibilidade da carne, indicada pela lua, tendo-se em consideração o estado do sol e da lua antes da queda do primeiro pai, depois de cuja desobediência todas as criaturas sofreram dano. Por isso, diz o Apóstolo: “Toda a criação geme e sofre as dores do parto até agora” (Rm 8,22).

9. No quinto dia, Deus fez as aves do céu, ao que corresponde e bem se harmoniza o quinto artigo, isto é, a Ascensão, na qual o Filho de Deus, como uma ave, voou com a carne assumida para a direita do Pai. Por isso, ele mesmo disse em Isaías: “Chamando do Oriente uma ave e de uma terra longínqua o homem da minha vontade” (Is 46,11). “Chamando do Oriente”, isto é, do monte das Oliveiras, que está no Oriente, daquele de quem se diz: “Subiu acima do céu dos céus” (Sl 67,34), isto é, à igualdade do Pai; “a ave”, isto é, meu Filho; “e de uma terra longínqua”, isto é, do mundo, “o homem da minha vontade”, aquele que disse: “Meu alimento é fazer a vontade de meu Pai, que me enviou” (Jo 4,34).

10. No sexto dia, Deus disse: “Façamos o homem” etc. O sexto artigo da fé é o envio do Espírito Santo, pelo qual a imagem de Deus, deformada e desfigurada no homem, é restaurada e iluminada pela inspiração do Espírito Santo, que “soprou no rosto do homem o sopro da vida” (Gn 2,7), como se diz nos Atos dos Apóstolos: “E, de repente, veio do céu um ruído, como o de um vento impetuoso que se abate” (At 2,2).

E observa que o Espírito Santo é justamente chamado “impetuoso”, isto é, aquele que remove o eterno ai; ou ainda impetuoso, isto é, aquele que eleva a mente. Por isso, o profeta Davi: “Está assinalada sobre nós a luz do teu rosto, Senhor” (Sl 4,7). O rosto do Pai é o Filho; pois, assim como alguém é reconhecido pelo rosto, assim conhecemos o Pai por meio do Filho. Portanto, a luz do rosto de Deus é o conhecimento do Filho e a iluminação da fé, que, no dia de Pentecostes, foi assinalada e impressa nos corações dos Apóstolos como um sinal, e assim “o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7).

11. No sétimo dia, Deus repousou de todas as suas obras. E também a Igreja, no sétimo artigo, repousará de toda fadiga e suor, quando “Deus enxugar toda lágrima dos seus olhos” (Ap 21,4), isto é, eliminar toda causa de pranto; então ela será louvada por seu esposo e merecerá ouvir: “Dai-lhe do fruto de suas mãos, louvem-na às portas do juízo as suas obras” (Pr 31,31), quando ouvir, com seus filhos, “o sussurro de uma brisa suave” (3Rs 19,12): “Vinde, benditos” etc. (Mt 25,34).

Depois de termos descrito brevemente, à margem, estes sete dias e os sete artigos da fé, passemos a descrever, em sentido moral, as seis virtudes da alma fiel e as seis horas da leitura evangélica, concordando-as com o “denário” e o “sábado”.

A: Roguemos, portanto, caríssimos irmãos, ao Verbo do Pai, princípio de todas as criaturas, que, vivendo segundo o corpo o setenário desta vida, nos faça viver segundo a alma o setenário dos artigos da fé, para que mereçamos chegar àquele que é a própria vida, o repouso do sábado e o denário [a recompensa] dos santos; que ele no-lo conceda, ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

II. Dos seis dias da criação e das seis virtudes da alma

12. Consideremos brevemente a “segunda Jerusalém”, isto é, a alma fiel, que em Mateus é chamada “vinha” (cf. Mt 21,33): vejamos de que modo ela deve ser sachada com o sacho da contrição, podada com a foice da confissão e sustentada com as estacas da penitência (satisfação).

Deus disse: “Faça-se a luz. E a luz foi feita”. Pois, como diz Ezequiel, “uma roda estava dentro de outra roda” (cf. Ez 1,16), isto é, o Novo Testamento está no Antigo, e uma cortina puxa outra cortina (cf. Ex 26,3), isto é, o Novo Testamento explica o Antigo. Por isso, ao explicarmos moralmente as seis horas do Evangelho por meio das obras dos seis dias realizadas por Deus, harmonizemos o Novo com o Antigo.

13. No primeiro dia, portanto, Deus disse: “Faça-se a luz. E a luz foi feita”. Ouve a concordância da primeira hora: “O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada” etc. (Mt 20,1).

Observa que são seis as virtudes da alma, a saber: a contrição do coração, a confissão da boca, a obra da penitência (satisfação), o amor de Deus e do próximo, o exercício da vida ativa e da contemplativa, e a consumação da perseverança final. Quando sobre a face do abismo, isto é, no coração, estão as trevas do pecado mortal, o homem sofre a ignorância do conhecimento de Deus e da própria fragilidade, e não sabe discernir entre o bem e o mal. E este é o “tríduo” de que se fala no Êxodo, onde se diz que, durante três dias, houve na terra do Egito trevas palpáveis; mas, onde quer que estivessem os filhos de Israel, havia luz (cf. Ex 10,21-23). Os três dias são: o conhecimento de Deus, de si mesmo e o discernimento entre o bem e o mal. A respeito dos dois primeiros, Agostinho reza: “Senhor, faze que eu te conheça e que eu me conheça”. Quanto ao terceiro, diz-se no Gênesis que a árvore, isto é, o discernimento do bem e do mal, estava no paraíso (cf. Gn 2,9), isto é, na mente do homem.

O primeiro dia nos ilumina para conhecermos a dignidade de nossa alma; por isso, diz o Eclesiástico: “Guarda a tua alma com mansidão e presta-lhe honra” (Eclo 10,31). Mas o miserável homem, quando estava na honra, não compreendeu e tornou-se semelhante aos animais (Sl 48,13). O segundo nos ilumina para conhecermos a nossa própria enfermidade; por isso, diz Miqueias: “A tua humilhação está no meio de ti” (Mq 6,14). O centro do nosso corpo é o ventre, depósito de excrementos, e, ao meditarmos sobre isso, nossa soberba é humilhada, a arrogância é abatida e a vanglória desaparece. O terceiro nos ilumina para discernirmos entre o dia e a noite, entre a lepra e a não lepra, entre o puro e o impuro; e isso é sumamente necessário. Com efeito: “O mal confina com o bem, no próprio erro. Muitas vezes a virtude é acusada pelos crimes do vício” (Ovídio).

Nestes três dias, porém, há trevas palpáveis na terra do Egito e sobre a face do abismo; mas, onde quer que estejam os verdadeiros filhos de Israel, há luz, da qual Deus disse: “Faça-se a luz”. Esta luz é a contrição do coração, que ilumina a alma, produz o conhecimento de Deus e da própria enfermidade, e mostra a diferença entre o homem reto e o malvado.

14. Esta é a primeira manhã e a primeira hora em que saiu o pai de família, isto é, o penitente, para contratar trabalhadores para cultivar a sua vinha, como se diz no Evangelho deste domingo; no introito da missa canta-se: “Cercaram-me gemidos de morte”; e lê-se a epístola do bem-aventurado Paulo aos Coríntios: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio”, etc.

Desta manhã diz o Profeta: “Pela manhã”, isto é, no despontar da graça, “estarei diante de ti” (Sl 5,5), reto e erguido, como me fizeste reto e erguido. Com efeito, Deus, como diz Agostinho, sendo reto e erguido, fez também o homem reto e erguido, para que tocasse a terra somente com os pés, isto é, buscasse da terra apenas as coisas necessárias. Desta manhã se diz em Marcos: “E, muito cedo, no primeiro dia depois do sábado, foram ao sepulcro, já tendo nascido o sol” (Mc 16,2). E observa que diz acertadamente “no primeiro dia depois do sábado”; ninguém pode ir “ao sepulcro”, isto é, à consideração da própria morte, se antes não cessar da preocupação com as coisas temporais. “Pela manhã” da contrição, diz o Profeta, “eu exterminava”, isto é, reprimia, “todos os pecadores da terra” (Sl 100,8), isto é, todos os movimentos da minha carne. “Quem é esta”, diz o esposo acerca da alma penitente, “que avança como a aurora que surge?” (Ct 6,9). Pois, assim como a aurora é o início do dia e o fim da noite, assim a contrição é o fim do pecado e o início da penitência. Por isso diz o Apóstolo: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5,8); e novamente: “A noite avançou, e o dia se aproximou” (Rm 13,12).

15. Portanto, à primeira luz e de manhã cedo, saia o pai de família para cultivar a vinha, da qual diz Isaías: “Uma vinha foi dada ao meu amado num outeiro, filho do óleo (ubértil, fértil). Ele a cercou com uma sebe e retirou dela as pedras; edificou no meio dela uma torre, construiu nela um lagar e plantou uma vinha escolhida” (Is 5,1-2). “A vinha”, isto é, a alma, “foi feita para o amado”, isto é, para a honra do amado, “num outeiro”, isto é, no poder da Paixão; “para o amado”, digo, “filho do óleo”, isto é, da misericórdia; pois somente a misericórdia, “não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito” (Tt 3,5), salvou a própria vinha; “e a cercou com uma sebe”, a sebe da lei escrita e da graça, acerca da qual Salomão diz nos Provérbios: “Quem destrói a sebe”, isto é, transgride a lei, “será mordido pela serpente” (Ecl 10,8), isto é, pelo diabo, que cultiva as sombras, isto é, os pecadores. Por isso diz Jó: “Dorme à sombra”, isto é, com a mente sombria, “repousa no esconderijo do caniço”, isto é, na falsidade do hipócrita, “e em lugares úmidos” (Jó 40,16), isto é, nos luxuriosos.

Segue-se: “E retirou dela as pedras”, isto é, a dureza do pecado; edificou a torre da humildade, ou a parte superior da razão, “no meio dela, e construiu nela o lagar” da contrição, do qual se espreme o vinho das lágrimas, e assim, pelos exemplos e ensinamentos dos santos, “plantou uma vinha escolhida”, na qual o pai de família deve, de manhã cedo, contratar trabalhadores, a saber, o amor e o temor de Deus, que a cultivam devidamente.

16. Do mesmo modo, acerca desta manhã, tens no primeiro livro dos Reis que “Saul entrou no meio do acampamento” dos filhos de Amon “na vigília matutina e feriu Amon até que o dia se aquecesse” (1Rs 11,11). “Saul” significa o penitente, ungido com o óleo da graça; este deve, “na vigília matutina”, isto é, pela contrição do coração, entrar “no meio do acampamento” dos filhos de Amon, cujo nome se interpreta como água paterna e significa os movimentos da carne, que do primeiro pai se derivam para nós como água corrente. Saul deve feri-los até que o dia se aqueça, isto é, até que o fervor da graça irradie a mente e, depois de iluminá-la, a aqueça.

Do mesmo modo, acerca desta manhã, tens no profeta Jonas que “o Senhor preparou um verme ao despontar da aurora; e ele feriu a hera, e ela secou” (Jn 4,7). A hera, que por si mesma não pode elevar-se ao alto, mas, apegando-se aos ramos de alguma árvore, busca as alturas, significa o rico deste mundo, que não por si mesmo, mas pelas esmolas dadas aos pobres, como que por certos braços, se eleva ao céu. Por isso o Senhor diz no Evangelho: “Fazei para vós amigos com o dinheiro da iniquidade”, isto é, da desigualdade, “para que, quando vierdes a faltar, eles vos recebam”, etc. (Lc 16,9). Esta hera, “ao despontar da aurora”, isto é, no despontar da graça ou pela contrição do coração, é ferida e arrancada pelo dente do verme, isto é, pelo remorso da consciência, para que, caindo por terra, isto é, considerando-se terra, seque em si mesma e se torne desprezível, dizendo com o Profeta: “Desfaleceu o meu coração”, isto é, o orgulho do meu coração, “e a minha carne” (Sl 72,26), isto é, a minha carnalidade.

Depois de termos feito estas considerações sobre o primeiro dia e a primeira manhã da contrição, passemos ao segundo dia e à terceira hora da confissão.

17. No segundo dia, Deus disse: “Faça-se o firmamento no meio das águas, e separe as águas das águas”. O firmamento é a confissão, que cinge firmemente o homem, para que não se disperse nos prazeres. Por isso o Senhor repreende, por Jeremias, a alma pecadora, privada deste firmamento: “Até quando te dissolverás nos prazeres, filha errante?” (Jr 31,22); e, por Isaías: “Atravessa a terra como um rio, filha do mar; porque já não tens cinto” (Is 23,10). A miserável alma é chamada filha do mar, porque, como de uma teta do diabo, suga avidamente o prazer do mundo, que tem sabor de doçura, mas gera eterna amargura. Por isso diz Tiago: “A concupiscência gera o pecado, e o pecado, quando consumado, gera a morte” (Tg 1,15). A esta se diz: “Atravessa a terra como um rio”; como se lhe dissesse: Cinge-te com o cinto da confissão e recolhe as tuas vestes, para que não desçam até às imundícies; e não escolhas passar pela abundância dos bens terrenos, onde muitos pereceram, mas pela estreiteza e angústia da pobreza; pois se atravessa um riacho com segurança de espírito. Mas a alma pecadora “não tem cinto”, não tem o firmamento da confissão, do qual se diz: “Faça-se o firmamento no meio das águas, e separe as águas das águas”.

As águas superiores são os eflúvios da graça; as águas inferiores, os eflúvios da concupiscência, que devem estar sob o homem. Ou, de outro modo: a mente do justo possui as águas superiores, isto é, a razão, que é a potência superior da alma e sempre incita o homem ao bem; e as águas inferiores, isto é, a sensualidade, que sempre tende para o declínio. Separe, portanto, o firmamento da confissão as águas superiores das inferiores, para que o penitente, tendo saído de Sodoma e subido aos montes, não olhe para trás, como a mulher de Lot, e não se transforme numa estátua ou rochedo de sal (cf. Gn 19,17.26), que os animais, isto é, os demônios, consumirão lambendo-o com grande avidez. Tendo também saído do Egito com os verdadeiros israelitas e dirigindo-se para a terra prometida, não estabeleça para si um guia, isto é, a própria vontade, e não retorne às panelas de carnes, aos melões e aos alhos do Egito, isto é, aos desejos carnais.

“Faça-se”, portanto, suplico, “o firmamento no meio das águas”, para que o penitente, tendo dado ao confessor a garantia de um firme propósito de não recair, na própria confissão, como na hora terça com os apóstolos, mereça embriagar-se com o mosto do Espírito Santo e, como um odre tornado novo pela confissão, seja preenchido com vinho novo. Pois, se o vinho novo, como diz o Senhor, isto é, o do Espírito Santo, for lançado num odre velho dos dias de males, o odre se romperá e o vinho se derramará (cf. Lc 5,37), como aconteceu ao empedernido traidor Judas, que, suspenso pelo pescoço como um odre, rompeu-se ao meio pelo ventre, e as entranhas, que haviam absorvido o veneno da avareza, espalharam-se pela terra (cf. At 1,18).

E justamente a confissão é chamada hora terça, na qual o verdadeiro penitente, como um pai de família, cultiva a vinha de sua alma. Com efeito, deve confessar-se culpado de três coisas: de ter ofendido o Senhor, de ter matado a si mesmo e de ter escandalizado o próximo, não prestando a cada um a justiça devida: a Deus, a honra; a si mesmo, a cautela; ao próximo, o amor. Por isso, no intróito da missa de hoje, lamenta-se, dizendo:

“Cercaram-me os gemidos da morte”, porque ofendi a Deus; “as dores do inferno me cercaram”, porque caí em pecado mortal; “e, na minha tribulação”, pela qual sofro, porque escandalizei o próximo, “invoquei”, com a contrição do coração, “o Senhor, e ele ouviu, desde o seu templo santo”, isto é, desde a sua humanidade, na qual habita a divindade, “a minha voz” (Sl 17,5-7), isto é, a voz da minha confissão.

18. No terceiro dia, Deus disse: “Produza a terra erva verdejante que produza semente segundo a sua espécie, e tenha em si mesma a sua semente sobre a terra”. Note-se que, no terceiro dia, é indicada a satisfação da penitência, que consiste em três coisas: oração, jejum e esmola, todas três indicadas pelas palavras de Deus.

Diga-se, portanto: “Produza a terra erva” etc. A erva verdejante significa a oração. Por isso, Jó diz acerca do penitente: “Quem deixou livre o asno selvagem e quem soltou os seus laços? Dei-lhe por casa o deserto e as suas tendas na terra salobra. Despreza a multidão da cidade e não ouve o clamor do cobrador. Percorre com o olhar os montes do seu pasto e procura tudo o que é verdejante” (Jó 39,5-8). O onagro, assim chamado de ônus e campo, significa o penitente, que, no campo da Igreja, suporta o peso da penitência. O Senhor o deixa “livre” e “solta os seus laços” quando lhe permite partir, livre da escravidão do demônio e solto dos vínculos, isto é, dos pecados. Por isso, no Evangelho de João, o Senhor diz aos apóstolos: “Soltai-o e deixai-o ir” (Jo 11,44).

A este penitente Deus dá “a casa na solidão da mente” e “as tendas” da vida ativa, nas quais combate “na terra salobra”, isto é, no convívio mundano. E assim este penitente “despreza a multidão da cidade”, da qual o Senhor diz pelo Profeta: “Eu sou o Senhor e não mudo” (Ml 3,6), e não entro na cidade; e Davi: “Vi na cidade a iniquidade”, contra Deus, “e a discórdia”, contra o próximo (Sl 54,10). “E não ouve a voz do cobrador.” O cobrador é o diabo, que uma vez ofereceu ao nosso primeiro pai a moeda do pecado e não cessa de exigi-la todos os dias, com os juros da usura. O penitente não ouve a voz deste cobrador quando não consente em sua sugestão. Ou então o cobrador é o ventre, que todos os dias exige em altos brados o tributo da gula; mas o penitente de modo algum o ouve, porque lhe obedece não para o prazer, mas apenas por necessidade.

Este onagro “percorre com o olhar os montes do seu pasto” porque, colocado num modo de vida superior, olhando ao redor, encontra as pastagens da Sagrada Escritura e diz com o Profeta: “Em lugar de pastagem, ali me colocou” (Sl 22,2); e assim procura tudo o que é verdejante na devoção da oração, para chegar, das pastagens da leitura sagrada, a colher os brotos verdes da oração devota, da qual se diz: “Produza a terra erva verdejante”.

19. Segue-se: “E produza semente”, palavras pelas quais se significa o jejum. Por isso Isaías diz: “Felizes os que semeais sobre as águas, atando o pé do boi e do jumento” (Is 32,20). Semeia sobre as águas aquele que acrescenta o jejum à oração e à compunção das lágrimas, e assim “ata”, com os vínculos dos mandamentos, “o pé”, isto é, o afeto, “do boi”, isto é, do espírito, “e do jumento”, isto é, do corpo. Por isso o Senhor diz: “Esta espécie de demônios”, isto é, a impureza do coração e a luxúria da carne, “não pode ser expulsa senão pela oração e pelo jejum” (cf. Mt 17,20). Com efeito, pela oração purificamos o coração do pensamento impuro, e pelo jejum refreamos a petulância da carne.

Segue-se o terceiro: “A árvore frutífera que produza fruto segundo a sua espécie”. Na árvore frutífera é designada a esmola, que frutifica nos necessitados e, pelas mãos deles, é levada de volta ao céu. E note-se que se diz: “que produza fruto segundo a sua espécie”. A espécie do homem é outro homem, criado da terra e vivificado pela alma; deve, portanto, fazer esmola, “produzir fruto segundo a sua espécie”, porque tanto a alma é restaurada pelo pão espiritual quanto o corpo pelo pão material. Por isso Jó diz: “Visitando a tua espécie, não pecarás” (Jó 5,24). A tua espécie é o outro homem, a quem deves visitar tanto com a esmola espiritual quanto com a material; e assim não pecarás contra aquele mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39). Mas note-se que se diz: “cuja semente esteja em si mesma” (Gn 1,11). Agostinho diz aí: “Quem quer fazer esmola retamente deve começar primeiro por si mesmo”.

Estas três coisas tornam perfeita a satisfação da penitência, que é bem representada pela hora sexta, isto é, o meio-dia, por volta da qual o pai de família saiu e contratou trabalhadores para cultivar a vinha. E note-se que no meio-dia, quando o sol arde mais do que nas outras horas do dia, é representado o fervor da satisfação. Por isso, perto do fim do Deuteronômio, lê-se: “Neftali gozará da abundância e estará cheio da bênção do Senhor: possuirá o mar e o meio-dia” (Dt 33,23). Neftali interpreta-se como convertido ou dilatado e significa o penitente que se converte de seu mau caminho e se dilata na boa obra. Este gozará da abundância da graça no caminho e será cumulado da bênção da glória; mas, para merecer alcançá-la, é necessário primeiro que possua o mar, isto é, a amargura do coração, e o meio-dia, isto é, o fervor da satisfação.

20. No quarto dia, Deus disse: “Haja dois grandes luzeiros no firmamento”. A quarta virtude é o amor a Deus e ao próximo: o amor a Deus é representado pelo esplendor do sol, e o amor ao próximo, pela mutabilidade da lua. Não te parece haver certa mutabilidade em “alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram”? (Rm 12,15). Sobre essas duas coisas se diz, quase no fim do Deuteronômio: “Encha-se a terra de José dos frutos do sol e da lua” (Dt 33,14). Os frutos significam as obras do justo, pela alegria da perfeição, pela beleza da pura intenção e pelo odor da boa reputação. Estes frutos são “do sol e da lua”, isto é, do amor a Deus e ao próximo, os quais tornam perfeito todo aquele que os possui. Este duplo amor é representado na hora nona, por volta da qual o dono da casa saiu; pois a perfeição do duplo amor conduz à perfeição da bem-aventurança angélica, que o profeta Ezequiel distingue em nove ordens, sob a figura de nove pedras, quando fala a Lúcifer: “Toda pedra preciosa era a tua cobertura: sárdio, topázio e jaspe, crisólito, ônix, berilo, safira, carbúnculo e esmeralda” (Ez 28,13).

21. No quinto dia, o Senhor fez os peixes no mar e as aves sobre a terra. A quinta virtude é o exercício da vida ativa e contemplativa, na qual o homem ativo, como o peixe, percorre os caminhos do mar, isto é, do mundo, para poder socorrer o próximo necessitado; e o contemplativo, como uma ave elevada ao ar pelas asas da contemplação, contempla, segundo a medida de sua capacidade, “o rei em sua beleza” (Is 33,17). “O homem”, diz Jó, “nasce para o trabalho” da vida ativa, “e a ave para o voo” (Jó 5,7) da vida contemplativa.

E observa que, assim como a ave que tem o peito largo, por captar muito ar, é retardada pelo vento, ao passo que aquela que tem o peito estreito e agudo voa mais velozmente e sem dificuldade, assim também a mente do contemplativo, se se dilata em muitos e variados pensamentos, fica excessivamente impedida no voo da contemplação; mas, se começar a voar unida e recolhida numa só coisa, gozará da alegria da própria contemplação. O exercício desta dupla vida é representado na hora undécima, na qual saiu o pai de família. A hora undécima consta de um e dez: a vida contemplativa refere-se ao um, porque contempla um só Deus e uma só alegria; a vida ativa, portanto, refere-se aos dez mandamentos do decálogo, pelos quais a própria vida ativa se aperfeiçoa plenamente nesta vida de exílio.

22. No sexto dia, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. A sexta e última virtude da alma é a perseverança final, que é figurada na cauda da vítima no sacrifício e na túnica longa e multicolorida de José; sem ela, as cinco virtudes acima mencionadas são possuídas inutilmente, mas, com ela, são possuídas utilmente; nela, como no sexto dia, a imagem e a semelhança de Deus, que nunca deve ser desfigurada, nunca apagada, nunca maculada, imprime-se eternamente no rosto da alma.

Esta “tarde” do Evangelho, a última hora da vida humana, na qual o senhor da casa, por meio do administrador, isto é, de seu Filho, dá o denário àquele que trabalhou bem na vinha, é significada pelo sábado, que se interpreta como repouso. Sobre ele, Isaías diz: “Haverá mês após mês” (Is 66,23), isto é, perfeição da glória a partir da perfeição da vida, “e sábado após sábado” (Is 66,23), isto é, repouso da eternidade a partir do repouso do coração, que consiste na dupla veste da alma e do corpo.

A alma será glorificada com três dons, e o corpo, com quatro. A alma será adornada com a sabedoria, a amizade e a concórdia. A sabedoria de Deus resplandecerá no rosto da alma, e ela verá Deus tal como ele é (cf. 1Jo 3,2), e o conhecerá assim como é conhecida (cf. 1Cor 13,12); haverá também amizade com Deus, como diz Isaías: “Aquele cujo fogo está em Sião”, isto é, na Igreja militante, “e cuja fornalha”, a saber, de ardentíssimo amor, “está em Jerusalém” (Is 31,9), isto é, na Igreja triunfante; e haverá concórdia com o próximo, cuja glória alegrará a alma tanto quanto a sua própria. Haverá também quatro dons do corpo: claridade, transparência, agilidade e imortalidade, acerca dos quais se diz no livro da Sabedoria: “Os justos resplandecerão”, eis a claridade, “e, como centelhas”, eis a transparência, “correrão pelo canavial”, eis a agilidade, “e o Senhor deles reinará eternamente” (Sb 3,7-8), eis a imortalidade. Com efeito, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos (cf. Mt 22,32).

23. Para merecermos receber esta coroa incorruptível, ornada com estas sete pedras, corramos, como diz o Apóstolo na epístola de hoje: “Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas um só recebe o prêmio? Correi de tal modo que o alcanceis. Todo aquele que luta na arena abstém-se de tudo; eles, certamente, para receber uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível” (1Cor 9,24-25). O estádio é a oitava parte de uma milha, composto de cento e vinte e cinco passos, e significa o labor deste exílio, no qual devemos correr na unidade da fé (cf. Ef 4,13), com os passos do amor, que são cento e vinte e cinco. Nesse número é designada toda a perfeição do amor divino: no cem, que é o número perfeito, a doutrina evangélica; no vinte, os dez preceitos do Decálogo, que devem ser cumpridos literal e espiritualmente; no cinco, entende-se o deleite dos cinco sentidos, que deve ser refreado. Quem corre em tal estádio recebe o prêmio, isto é, a recompensa da coroa incorruptível, da qual se lê no Apocalipse: “Eu te darei”, diz o Senhor, “a coroa da vida” (Ap 2,10).

Imploremo-lo, ó caríssimos irmãos, com súplicas e lágrimas, para que ele mesmo, que nos criou e recriou — criou-nos do nada e recriou-nos com o próprio sangue — se digne estabelecer-nos no setenário da felicidade eterna; e, com ele, que é o princípio de todas as criaturas, mereçamos viver eternamente, por aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

Fonte: S. Antonii Patavini Sermones dominicales et festivi, texto latino da edição crítica do Centro Studi Antoniani (Pádua) e tradução italiana do mesmo Centro, publicados em centrostudiantoniani.it. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do latim com apoio do italiano; o original de cada seção abre pelos botões Latim e Italiano, e o botão Ver original coloca o latim ou o italiano ao lado do texto.