Vida
Ao analisar a matéria inorgânica e a orgânica verifica-se que a ordem energética da intensidade, predominante na segunda, é superada na primeira pela ordem dinâmica da extensidade, o que levou, pelo não emprego da dialética, a construir-se da matéria uma visão meramente extensista sem considerar-se devidamente a ordem intensista, de magna importância. Não é, contudo, só aí que a matéria bruta (inorgânica) se distingue da matéria viva, própria dos seres chamados vivos. Na biologia são apresentados como caracteres os seguintes:
A irritabilidade, a faculdade de reagir aos estimulantes externos, segundo o bem do ser como um todo, por movimentos específicos e sem proporção com o excitante. As ações e reações nos corpos brutos são proporcionadas, mas a excitação biológica mostra-nos uma desproporcionalidade entre o estímulo e a resposta, como a reação de um cavalo de brio ao leve esporear do cavaleiro. Os seres vivos têm a capacidade de mobilizar potências em reserva e faze-las eclodir, sem a correspondência exata ao estímulo, permitindo aqui variância pela entrosagem de coordenadas outras, como as da afetividade e da educação nas reações humanas que variam de indivíduo para indivíduo sem que variem os estímulos.
A assimilação biológica é diferente da mera soma dos corpos brutos, pela observação de substâncias tomadas do mundo exterior, segundo seu grau de assimilação e afinidade e segundo os interesses do organismo, obedecendo a uma "inteligência" genuinamente inconsciente, mas biológica; são incorporadas ao organismo e nele sofrem transformações físico-químicas, que se caracterizam por aspecto distintivo importante: não são quaisquer transformações físico-químicas como as verificadas nos fatos corpóreos brutos, mas obedientes a uma norma, a uma regra, que é a do interesse vital hólico (de holos, em gr., totalidade) do ser vivo. Tais fenômenos não são quimicamente explicáveis, pois penetra neles um fator ainda desconhecido para a química, mas que aponta a vida. Certas combinações que quimicamente deveriam ser preferidas como são no mundo inorgânico, no orgânico são preteridas e vice-versa.
Como resultado da assimilação dá-se o crescimento do ser vivo, o qual não se processa como mero acrescentamento, mas por transformações obedientes a uma forma específica, pois o ser vivo cresce, obedecendo a forma da espécie à qual pertence.
Têm ainda capacidade de reproduzir-se, dando surgimento a indivíduos que pertencem à mesma forma e completam o mesmo ciclo. Os processos de reprodução, que são característicos dos seres vivos, dão-se de várias maneiras, como nos corpos monocelulares pela cissiparidade, pela cisão da célula em duas, dando nascimento a um novo ser. Nos pluricelulares há uma geração assexuada e uma sexuada. Na assexuada, uma parcela do ser vivo se destaca e se transforma num indivíduo independente que continua a série; a sexuada consiste no óvulo fecundado, que dá nascimento a um novo indivíduo, já estruturado virtualmente no próprio óvulo.
Qual a essência da vida? — Este é um problema metafísico que implica desde logo outras perguntas: de onde veio a vida? Qual a origem das diversas espécies? Como não é possível explicar tais fatos experimentalmente, permanece o problema entregue à metafísica, à qual cabe estudá-lo e propor respostas.
É a vida uma propriedade da matéria bruta, ou tem um princípio distinto da matéria, freqüentemente chamado de princípio vital? Temos duas hipóteses: a) o monismo materialista afirma que a vida é um modo de ser da matéria, e que aquela é explicável pelos processos físico-químicos, o que na verdade até agora não o tem sido, apesar do empenho dos defensores desta hipótese; b) o pluralismo, que admite a presença no acontecer cósmico de outros princípios, distintos da matéria, do qual a vida seria um (os vitalistas, por exemplo, defendem tal teoria). Ante tais hipóteses surge a do criacionismo, que afirma que a vida foi criada por um poder supremo, Deus.
Não há dúvida que a vida é condicionada pelos fatos físico-químicos que entram como coordenadas da realidade biológica, mas que apenas os fatos que se dão no plano físico-químico sejam suficientes para explicá-la, deixando de reconhecer a diferença qualitativa do plano biológico que ficaria reduzido àquele, é um salto no escuro. A presença de fatos mecânicos na vida não exclui a outros, como um mau racionalismo nos pode levar a crer, como levou ao materialismo, que decorre de um mau emprego do racionalismo. Que o ser vivo obedece aos princípios da mecânica não há dúvida, e tal o reconhecem até os vitalistas. Pode funcionar como uma máquina, mas uma máquina atende a um fim e a obter um resultado, portanto a vida implicaria um plano prévio, algo que ultrapassaria os próprios limites da matéria, uma forma que a antecederia e que não surge sempre nela, mas só em certas circunstâncias, que implica, exige necessariamente, a existência anterior de outros seres vivos para que eles se perpetuem pela reprodução.
Alegam os vitalistas que a vida apresenta a exigência da aceitação de um princípio de finalidade, que outros põem em dúvida, sob a alegação de que nem todos os fatos que sucedem aos corpos vivos interessam e correspondem ao bem do ser como totalidade. Mas o que não se pode negar, num caso ou noutro, é o aspecto hólico estrutural do ser vivo e o domínio que o todo exerce sobre a parte, que nos explicaria a presença constante do princípio de finalidade, o que o distinguiria qualitativamente, desde logo, da matéria bruta, dando-lhe um valor qualitativo diferente, e revelando assim a presença da pluralidade existencial, sem negar a homogeneidade do ser.
As inúmeras semelhanças que se encontram entre matéria bruta e matéria viva são mais extensistas que intensistas. Porque se a atividade do ser vivo, estudada parcial e separadamente oferece, nos pormenores, a presença das leis da matéria bruta (e que ela está presente na matéria viva), apresenta, em compensação, aspectos tensionais, de estrutura, de conjunto, modos de ser de uma totalidade, de uma ordem, de coerência diferente, que não podem ser explicados pela simples matéria bruta. Estes fatos permitiram o surgimento do vitalismo, que luta contra toda redutibilidade dos fatos biológicos a meros fatos físico-químicos. Afirmam eles que há a presença dos fatos físico-químicos na matéria viva, mas se dão diferentemente de como se dão nos fatos brutos. Há certos fenômenos físico-químicos obtidos com simplicidade pelos seres vivos e que, em laboratórios ou na matéria bruta, exigem e implicam grandes esforços. As células vegetais, por exemplo, fixam o azoto quimicamente à temperatura ordinária, enquanto este resultado, nos corpos brutos, não pode ser obtido senão a uma temperatura de 500° graus. A regeneração das células que podem substituir as partes, é outro argumento oferecido pelos vitalistas, mas combatido pelos mecanicistas, que afirmam que entre os cristais também há regeneração. Mas sucede que, com os cristais, dá-se uma aceleração local de crescimento, enquanto com os seres vivos a cicatrização se faz por um tecido diferente daquele que é preciso reparar, como o mostra Dauvillier e Desguin. Para embriologia toda a vida parte de uma célula que se segmenta e assim sucessivamente, e a obediência a esta lei distingue o fato biológico do físico-químico. Resta ainda a favor dos vitalistas o fato da finalidade, como uma distinção suficientemente forte para evitar a redutibilidade que é, sem dúvida, uma das maneiras primárias de resolver os grandes problemas filosóficos. É, em suma, uma maneira abstrata de enfrentar os fatos, que uma posição dialética mandaria ver sob os aspectos qualitativamente diversos, capazes de apreender o múltiplo e o antinômico do existir, que não pode ser explicado pelo primarismo das formas simples e redutivistas.
A concepção animista aceita uma alma animal, vegetal, como foi exposta por Aristóteles, princípio das diferenciações materiais pelas quais passam os seres vivos. Esse princípio vital, que é um só, pervive através das formas individuais, transmite-se a si mesmo em toda a vida que se agita no universo, e é imperecível, pois o que perece são os indivíduos e não a vida.
Quanto à origem desta há várias e diversas posições: a criacionista, a da geração espontânea, a da importação, que transfere o problema para outros planetas, sem resolvê-los, mas à qual se prendem muitos cientistas. Essas concepções não satisfazem à ciência atual, que ainda não encontrou a solução do problema, nem poderia encontrá-la. Na verdade o tema da vida é um tema metafísico e ultrapassa o campo da experimentação. Mas o que a experimentação tem feito no plano biológico é de magna importância para a filosofia.