Universal Direto
Os escolásticos chamavam de real ou metafísico o universal direto, o que é concebido como estando na coisa (prima intentio); e universal reflexo, chamado lógico, o que não estava formalmente na coisa, mas apenas na mente (secunda intentio). A lei de proporcionalidade intrínseca, que está na coisa, que é a forma da coisa, é o universal direto real ou metafísico. É real porque está na coisa; é metafísico porque não é captado pela esquemática da sensibilidade humana, pela intuição sensível, ultrapassando assim ao físico. Esse universal é a res extra animam.
Para Tomás de Aquino (in De Potentia, q.7 a 9.) Como esse universal, segundo a doutrina pitagórico-platônica é apenas uma imitação, na coisa, do universal direto eidético, ele aponta ao seguinte: a proporcionalidade intrínseca da coisa ordena-se segundo um logos (lei de proporcionalidade intrínseca. Por ex.: a triangularidade. Esse logos da triangularidade é uma realidade eidética, independentemente dos triângulos, porque se não houvera triângulos, o logos da triangularidade não se tornaria num mero nada, nem seria um mero nada antes de haver triângulos, como um mero nada não é o logos do homem antes de haver homens.
Tal logos seria, na ordem do ser, uma possibilidade que se atualizou posteriormente. Como se deu essa atualização? Seres vivos animais repetiram, na proporcionalidade intrínseca de sua constituição, um logos, que é o da humanitas. Nenhum ser humano é a humanitas, como nenhum círculo é a circularidade. A circularidade é o logos (lei) da proporcionalidade intrínseca, que é imitada por todos os círculos. Mas ela é, enquanto tal, absolutamente perfeita. Nenhum ser circular ao imitá-la é plenamente a circularidade, porque esta é meramente eidética (formal), e não material. Dizer-se que é uma criação subjetiva do homem, é afirmar que antes do homem seria impossível pensar sobre a circularidade, que nada mais era que um mero nada. A circularidade é possível de ser imitada por seres físicos. Esse universal direto prescinde da singularidade (este ou aquele círculo) e da pluralidade (esses círculos). É um eidos (forma) ante rem, que se dá fora das coisas. Este pensamento pitagórico-platônico é absolutamente válido e a sua negação faz incorrer em contradições, pois afirmaria a nulidade (nihilatio) da forma antes das coisas.
Por outro lado, o que há nas coisas é o logos concreto, que dá a forma, que a informa, a forma deste círculo, a forma deste homem, que é um universal direto real (in re) e, finalmente, o universal reflexo lógico, que é o esquema eidético-noético em nós, intencional, que é segundo o que intelege o intelecto.