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Universal E O Individual

Individuação

O problema da individuação é um dos temas mais importantes da filosofia. E o é porque implica o seu contrário, o da universalidade, ao qual é contraposto, frequentemente. Distinguem os escolásticos o universale reflexum, o universal que é apenas o conteúdo de um conceito, como o universal "sabedoria", que não precisa nem desta nem daquela, pois pode conceituar-se por si mesmo, do universale directum, o correlativo correspondente nos objetos a esse conteúdo, o que é real e, neste caso, será objetivo o conceito ao qual correspondem tais correlativos. Costuma-se também chamar universale reflexum de lógico. A essência homem não é subsistente de per si para os escolásticos porque, do contrário, seria singular, única, e não se poderia repetir nos homens. Corresponde-lhe a universalidade, porque pode referir-se como correlativo a uma pluralidade de objetos. Daí a necessidade de distinguir a individualidade, que é o caráter de ser indivíduo, do ser distinto de formar um todo, uma totalidade, que não pode ser dividida sob pena de deixar de ser o que é. Há uma individualidade numérica e uma qualitativa. É numérica a individualidade que podemos numerar, como este e aquele livro, etc., que poderiam chamar-se livro I, livro II ou livro III... Este livro é nenhum outro. Está aqui, tem heceidade (haecceitas), é singular, inmultiplicável e não pode ser ele e simultaneamente outro. Cada homem é numericamente este homem, mas também o é, cada um, em si, diferenciado qualitativamente, Pedro, João, Paulo, etc., pois todos os seres parecem distinguir-se qualitativamente, embora possa haver seres que se pareçam iguais. Também a individualidade pode ser vista como absoluta e como relativa. É absoluta quando considerada apenas em si. Cada coisa, considerada apenas em si, é individualidade numérica e qualitativamente tal coisa. Como relativa, salientamos a relação dela com outras semelhantes, como Paulo em face da espécie humana. Todo o indivíduo é uma individualidade relativa dentro da espécie. Podem os escolásticos disputar entre si sobre o problema dos universais em alguns pormenores mas, na verdade, todos estão de acordo em que não se pode dar um universale a parte rei, e que portanto todos os seres existentes estão determinados individualmente. No que toca à individualidade numérica, é certo que não se pode dar um universal separado dos indivíduos, e do qual estes "participem"; porque dita essência universal hipostasiada, por ex.: "homem", seria eo ipso, uma espécie singular, o mesmo que os homens singulares. Além disso, os homens particulares só podem ser constituídos como homens por algo intrínseco a eles e não por uma essência exterior aos mesmos". (Fuetscher) Todo ser existente, além de numericamente este, é determinado pela sua qualidade, o que se pode atribuir a todo existente. O conceito universal só tem objetividade como idéia, pois falta-lhe a exemplaridade; do contrário, se a tivesse, deixaria de ser universal para ser singular. O eidos no ser supremo (ante rem) não é um individual hipostasiado, mas um pensamento (logos) no e do ser. Reconhecem os escolásticos que a nossa mente não só pode separar o que a parte rei está unido, como também pode distinguir o que a parte rei é idêntico. Nesse caso, a distinção se achará, actu e formalmente, só no entendimento; enquanto no objeto só se achará fundamentaliter (fundamentalmente). A fonte última dessa distinção é a finitude das coisas.

Um infinito, como tal, exclui a distinção conceptual adequada entre essência e individualidade. A finitude faz também que seja possível uma pluralidade de seres da mesma espécie. E essa pluralidade oferece ao conhecimento comparativo um fundamento para escolher o comum, e prescindir do diverso por mais que ambos elementos não sejam distintos ex natura rei nos diversos indivíduos. Mas essa distinção não é puramente conceitual, no sentido de não fundada nos objetos, "A essência e a individualidade são intencionalmente distintas, mas a parte rei se acham em identidade real", como o expõe Fuetscher. Além dos escotistas, os suarezistas repelem a distinção real entre a essência e a individualidade.

Longa é a polêmica entre os escolásticos para esclarecer, de maneira decisiva, o problema da individualidade. Se Tomás de Aquino considera que é a quantidade que determina a individualidade, os suarezistas, com uma lógica férrea, demonstram que a quantidade já pressupõe a forma individual, portanto não poderia intervir na individuação da forma. Também a argumentação dos tomistas, de que o que individualiza é a quantidade determinada, que recebeu uma "impressão", uma sigillatio, que a marca, tornando-se matéria signata quantitate, também encontra dos suarezistas a mesma argumentação, pois seria uma petitio principii tal afirmativa, segundo eles. Fuetscher, fundado na oposição de Suarez, conclui que a individualidade se dá na união entre quantidade e a forma, cuja unidade revela propriedades totalmente novas; o que corresponderia à nossa concepção tensional. A distinção entre sujeito e forma, entre essência e individualidade, é atual somente no pensamento diferenciante; não na própria coisa. É este o pensamento escotista. A singularidade pertence à coisa enquanto tal, em si mesma. O ser é singular da mesma maneira que é um, isto pelo simples fato de ser, dizem os tomistas. Mas Duns Scot discorda, pois como poderia um objeto, que é de per si singular, ser apreendido como universal pelo intelecto? A individualidade é, para ele, a ultima actualitas formae, a última atualidade da forma, e a haecceitas surge (haec, esta, estidade) dos princípios individuantes, que formam as entidades do compositum, é a forma nessa singularidade do composto, fundada nessas entidades.

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