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Técnica

TÉCNICA

(do gr. tekhnê, a arte manual, a indústria).

a)

Tekhnikós é o que concerne a uma arte, o que é próprio de uma arte. Daí formar-se o conceito técnica, que é o conjunto dos processos definidos e sistematicamente ordenados, com o fim de produzir certos resultados julgados úteis ou convenientes.


b)

Indica os métodos organizados de uma disciplina científica; ou seja, os meios para alcançar os resultados desejados.


c)

Na estética é o conjunto dos processos que são indispensáveis como instrumentos ou materiais para alcançar o fim desejado. Como adjetivo refere-se a tudo quanto é concernente à técnica ou que tem qualquer aspecto referente à ela.

Análise

É comum ouvir chamar-se a nossa era de "era mecânica" e também afirmar-se que a transformação que se observa na indústria começa com a invenção da máquina a vapor, atribuída a Watt, ou com a "máquina automática de tecer". O desenvolvimento da máquina processou-se durante pelo menos sete séculos, na Europa, antes que se dessem as mudanças que acompanharam a chamada "revolução industrial". A mecanização do homem no mosteiro e no exército precedem à que se verificou na fábrica. Nem a mecanização, nem a sistematização são fenômenos novos na história. O que houve de novo foi a organização das formas. "Tanto os gregos como os árabes tinham máquinas, mas não haviam desenvolvido a máquina" (Mumford). Foi à Europa Ocidental que coube o papel de adaptar a vida ao ritmo e à capacidade da máquina, como a ela caberá incorporar o inorgânico à máquina, à vida. Para Mumford três são os momentos sucessivos de penetração da máquina na nossa civilização. A primeira deu-se no século X, a segunda no século XVIII e, em nossos dias, temos o início do terceiro momento.

"Máquina é uma combinação de corpos resistentes dispostos em forma tal para que, mediante eles, as forças mecânicas da natureza possam ser obrigadas a fazer trabalho, acompanhadas por certos movimentos determinados" (Reulau). A máquina serve para poupar forças e obter maior proveito com menor esforço, pois o automatismo adquire mais exatidão, reduzindo o trabalho humano. Foi nos mosteiros do Ocidente que o desejo de ordem e de poder, distinto do domínio militar, manifestou-se mais plenamente e onde reinava a mais completa disciplina. O relógio foi a primeira grande máquina, que teve sua influência decisiva sobre a formação técnica. Nos mosteiros, sobretudo nos dos beneditinos, onde imperavam a ordem e a disciplina, deu-se uma das revoluções que sucedem à revolução cristã. Os beneditinos são em grande parte os fundadores do capitalismo moderno. O trabalho, que havia sido apresentado como uma maldição, encontrou neles uma redenção. Com o não advento do juízo final, aos poucos o espírito místico do cristianismo foi sofrendo um refluxo cada vez maior e os homens começaram a olhar para a vida e para o corpo com outra atenção. Este é mais um dos elementos que vão constituir uma das coordenadas do capitalismo em sua fase ascendente. Vide Capitalismo e a técnica.

Foi o relógio a máquina-chave da época industrial moderna, e não a máquina a vapor que, ao sobrevir, já abre o campo a uma outra fase no terreno técnico. O relógio é o símbolo mais típico da máquina. Serviu de modelo para outras classes de funções mecânicas, como também permitiu a análise do movimento, os tipos de engrenagens e transmissões e a exatidão da medida. Com o tempo adquiriu um sentido quantitativo, separando-se do sentido intuitivo, qualitativo, que lhe era próprio. Passou a ser medido, separado em minutos, segundos e permitiu que se tivesse da existência uma outra concepção, favorecendo assim o advento da ciência. A idéia de tempo tornou-se tão importante que o maior ideal burguês foi a regularidade: "ser regular como um relógio", "funcionar como um relógio". "Tempo é dinheiro" é uma das frases prediletas dos burgueses do século XVIII em diante, quando o relógio atingiu a sua grande perfeição cronológica. A própria vida humana passou a ser regulada por ele! A nova idéia do tempo permitiu que se desenvolvesse o conceito da história sob outros aspectos e o interesse sobre o tempo passado tornou-se tão forte, que o Renascimento, em seu aspecto cultural, foi uma tentativa de reviver o que já se dera, o esplendor das civilizações greco-romanas.

Depois da atomização européia, que decorrera da invasão dos bárbaros, com seus castelos fortificados, seus burgos defendidos, com a vida segregada nos mosteiros, o mundo tomara uma feição espacial estreita bastante limitada. A amplificação do espaço foi também uma influência da idéia nova de tempo. A divisão do espaço e a nova concepção que dele se forma têm início sobretudo nos séculos XVI e XVII, na época das descobertas. O espaço não é mais uma hierarquia de valores, mas um sistema de magnitude. O sentido quantitativo predomina definitivamente. A relação simbólica entre os objetos é substituída por uma relação visual. A fase místico-espiritual dos cristãos, que substituiu a fase orgânica dos gregos, foi sucedida pela fase mecânica do Renascimento. Surgiu, com Galileu e Leonardo, novas concepções. Em vez de procurar saber por que um corpo cai, preocupou-se Galileu em estudar como caía. O modo tornou-se mais importante e urgente de conhecer-se do que o porquê, entregue apenas à filosofia. A ciência introduzia-se no campo das coisas contingentes e experimentáveis.

"Assim como todas as diferenças qualitativas entre as mercadorias desaparecem quando intervêm o dinheiro, este, que é um nivelador radical, faz desaparecer todas as distinções. O próprio dinheiro é uma mercadoria, um objeto externo, capaz de chegar a ser a propriedade privada de um indivíduo. Portanto, o poder social se converte em poder privado em mãos de uma pessoa privada" (Marx). E a medida comum, o denominador comum é o dinheiro, representado pelo ouro, tomou um vulto extraordinário e simplificou as relações de troca. A atenção humana foi desviada para o "ganho e a perda" e surgiram os banqueiros. Não podiam os cristãos, nos primeiros séculos do cristianismo, emprestar dinheiro com juros. No entanto, a reforma protestante o permitiu e além disso os judeus, não sujeitos a essas restrições, faziam grandes negócios com empréstimos a juros. Esses elementos são importantes e vão constituir as coordenadas do capitalismo moderno que, conjugadas com as anteriores, formam as condições concretas das grandes transformações que a economia começa a sofrer. Por outro lado os protestantes, como Calvino, julgavam que a vitória no mundo dos negócios era uma manifestação da graça divina. Os homens que venciam, que aumentavam seu pecúlio, eram agraciados por Deus, o que significava uma reviravolta importante. Essa época marca a predominância do quantitativo.

"Assim como o ouvido está feito para perceber o som, e a vista a cor, a mente do homem foi formada para compreender, não toda classe de coisas, mas quantidades. Quanto mais se aproxima uma coisa, quanto à sua origem, às quantidades nítidas, tanto melhor a percebe a mente, e à medida que uma coisa se afasta das quantidades, aumentam nela, em proporção, a obscuridade e o erro" (Kepler). O capitalismo ter-se-ia de tornar racional, portanto quantitativista, pois o mercador pesa, mede, compara, conta. A razão é a função do espírito que mede, pesa e conta, compara. O racionalismo, como a racionalização do cristianismo, que passava do domínio platônico para o aristotélico, era uma decorrente dessas condições. O desenvolvimento técnico influiu sobre o capitalismo como este sobre a técnica. Se a indústria necessitava de capitais e tendia a crescer, graças à mecanização, o comércio oferecia também possibilidades de grandes lucros. A economia fechada, que então predominava, abria-se e procurava mercados. O capitalismo existiu em outras épocas, mas com técnicas diferentes. A técnica permitiu que o capitalismo ocidental tomasse a feição que conhecemos. Mas ela não depende dele, como observou Marx.

O mundo para o homem religioso ocidental não era a realidade que aparecia. Havia uma outra. As coisas permitiam que se vissem as intenções de Deus e o mundo era demasiadamente insignificante para ser valorado em extremo. A visão era mística e só a valorização da visão natural e a libertação do misticismo poderia permitir a ciência de formar-se sob uma base realista. Os estudos sobre o corpo humano o qual se pode, sob certo aspecto, considerar uma grande máquina, o desenvolvimento da anatomia e da fisiologia, a ânsia de conhecer o mundo, os animais, sua forma de vida, enfim o conhecimento intensivo e extensivo da natureza permitiram que Leonardo da Vinci construísse seus inventos. O desejo das descobertas, as grandes aventuras atiçavam o espírito humano ao conhecimento das coisas e não da divindade. Note-se que a máquina começou por imitar a vida, os homens e os animais. As primeiras máquinas tinham representações de animais; só depois, no desenvolvimento da técnica é que ela tomou o aspecto puramente mecânico. Por não serem as máquinas mais feias e repulsivas que o corpo humano, tão desprezado por alguns religiosos, esses não a combateram, apesar de encontrar-se na Crônica de Nuremberg, em 1038 frases como esta: "o diabo é o realizador das máquinas e rodas que realizam estranhas ações e trabalho". Mas nos mosteiros, entre os beneditinos, por exemplo, as máquinas eram construídas. Tiveram elas seu maior desenvolvimento nos mosteiros, nos campos de batalha e nas minas, e menor entre os camponeses, por serem mais conservadores. Não se deve considerar o papel do protestantismo na formação do capitalismo ocidental como o predominante, mas apenas como um dos fatores coordenados.

"O tempo é uma coisa real: aproveite-o! O trabalho é uma coisa real: pratique-o! O dinheiro é uma coisa real: economize-o! O espaço é uma coisa real: conquiste-o! A matéria é uma coisa real: meça-a! Essas eram as realidades e os imperativos da classe média". A mecanização cresce nas coisas e no espírito. O orgânico dos gregos e o espiritual místico dos primeiros cristãos é reduzido ao mecânico. Não era possível ao homem, imbuído pelas máximas do cristianismo, duvidoso da carne pecaminosa, voltar aos gregos. O renascimento foi um grande equívoco. Ele não retornava, apenas justificava através da arte uma nova visão da vida, que não era mais orgânica, pois procurava até no orgânico apenas o aspecto mecânico, extensista, quantitativo, e inibia, virtualizava, o intensista e qualitativo. Tudo tomava "fins práticos".

"Mencionarei agora algumas obras de arte maravilhosas e também algumas obras maravilhosas da natureza, que nada têm que ver com a magia, e que esta não poderia realizar. Podem fazer-se instrumentos graças aos quais grandes barcos serão guiados por um só marinheiro; tais barcos viajarão mais rapidamente do que se tivessem a bordo uma grande tripulação. Poder-se-ão construir carros que se transladarão de um lado a outro com incrível rapidez, sem a ajuda de animais. Talvez se construam aparelhos para voar, nos quais o homem sentado com toda comodidade e meditando sobre qualquer tema, possa bater o ar com suas asas artificiais, tal como o fazem os pássaros... e também máquinas que permitirão aos homens caminhar no fundo dos mares ou dos rios" (Roger Bacon).

O trabalho nas minas era penoso e os riscos eram numerosos. Com as descobertas de uma maquinaria complicada de bombear água, ventilar a mina, com o aproveitamento da energia hidráulica para acionar os grandes fornos, tornou-se necessário o emprego de capital, que não possuíam os primeiros trabalhadores. Desta forma capitais particulares começaram a ser aplicados na indústria da mineração, oferecido por patrões que não tomavam parte no trabalho, os quais, com o decorrer do tempo, foram apropriando-se plenamente da propriedade da mina e transformando os antigos patrões trabalhadores, em meros assalariados. No século XV dá-se na Europa um grande desenvolvimento da indústria mineira que prosseguiu em ascensão e atraiu o emprego de vultuosos capitais, graças aos lucros que oferecia, ocasionando a conquista de territórios para exploração das jazidas minerais, provocando guerras de conquista. O papel da pilhagem foi um dos meios de poupar trabalho e a guerra permitiu obter mulheres e poder, pelo uso da força. A guerra forçava um desenvolvimento da técnica e esta, por seu turno, a própria guerra. Os primeiros altos fornos construídos na Europa foram destinados às fundições e à manufatura de material bélico. Como a guerra e o exército são consumidores puros e oferecem maiores lucros às indústrias, provocaram a construção de grandes fábricas de armas. Pode-se dizer que a primeira produção em série organizada tecnicamente deu-se na fábrica de material bélico. As necessidades individuais eram colocadas de lado para atingir-se a uniformização, o que tinha fatalmente que levar à criação de uma indústria em série, já que o exército é um consumidor ideal, que tende a reduzir a zero o produto, e sendo todo-poderoso em suas exigências foi o estimulador da indústria moderna. Se observarmos também a psicologia do militar, se considerarmos as abstenções e cruezas bestiais dos campos de batalha, os excessos praticados após os combates, a exacerbação do erótico, o gasto descontrolado, o luxo, tudo isso provoca uma ampliação da produção. Num campo de batalha não se fazem restrições ao consumo.

No decorrer da Idade Média, os senhores feudais e os chefes militares procuraram, por todos os meios, aumentar o seu poder à custa dos outros. Tal prática levou os imperadores a centralizar o poder num poder superior, decorrendo daí a formação das côrtes. Estas, pela necessidade da magnificência e para impressionar foram levadas ao uso de um luxo desmedido. Os que se deixaram arrastar pelo luxo, acabaram por gastar mais do que podiam, terminando por comprometerem seus bens junto aos grandes banqueiros e mercadores, de quem obtinham empréstimos, acabando por se empobrecerem. A consequência foi a decadência da classe dominante e o domínio econômico de uma nova classe detentora do capital que, no século XVIII, já senhora do campo econômico, tornou-se finalmente do campo político. A aristocracia, levada pelos gastos era obrigada a relacionar-se, por meio do casamento, com os mercadores e industriais. Com a vitória econômica e política da burguesia, a classe aristocrática se tornou subserviente.

Patrick Geddes dividiu as fases da técnica em três: a eotécnica, a paleotécnica e a neotécnica.

1) A eotécnica – Na realidade ele estudou as duas últimas, tendo deixado de lado a fase que Mumford chamou de eotécnica (eos, em gr. aurora, enquanto paleos, antigo). Essas três fases são sucessivas, mas uma superpõe-se à outra. Hoje, nos países mais civilizados, a neotécnica está instalada, mas ainda perduram elementos da eotécnica e da paleotécnica. "Cada fase tem seus meios específicos de utilizar e gerar energias e suas formas especiais de produção. Finalmente, cada fase cria tipos particulares de trabalhadores, especializa-os de acordo com modalidades determinadas, estimula certas aptidões e atenua outras, e desenvolve certos aspectos da herança social" (Mumford). A eotécnica, quanto à energia e os materiais característicos, é um complexo de água e madeira; a paleotécnica, um complexo de carvão e de ferro; e a neotécnica, um complexo de eletricidade e a biotécnica a época da energia atômica e outras energias a serem descobertas e controladas. A eotécnica no Ocidente conhece seu momento mais alto no período compreendido entre o ano 1000 até 1750, que é o da eotécnica superior, e o anterior é o da eotécnica inferior. Segundo Mumford do ponto de vista sociológico, o Renascimento não foi a aurora de um novo dia, mas sim seu crepúsculo. No terreno sociológico, o sentido orgânico dos gregos e dos romanos, fora substituído pela direção espiritual-mística do cristianismo. Com o Renascimento, há um desejo de retorno ao orgânico, mas é impossível, porque a vida e o mundo estavam irremediavelmente modificados pela visão cristã. Deu-se o inevitável: retiraram do orgânico helênico apenas seu aspecto quantitativo, o mecânico, que encerra o movimento, o dinamismo, já não vital. Nas artes mecânicas deu-se um grande desenvolvimento. O homem diminuiu no sentir, mas aumentou no poder.

No século XIV, o moinho de água era empregado nas fábricas dos grandes centros industriais. Foi aproveitado para bombear água nas minas e triturar minerais. Graças a ele foi possível fazer foles mais poderosos, alcançar temperaturas mais elevadas, empregar fornos maiores, aumentando a produção de ferro. Em 1438 criou-se a primeira turbina de vento que teve grande desenvolvimento com os holandeses. Nesta época dá-se o desenvolvimento industrial dos Países Baixos, centro de produção de energia, como seria a Inglaterra no regime do carvão e do ferro. O moinho, depois de construído, dá energia sem nenhum custo de produção, o que não se verifica com a máquina a vapor que, no início, é custosa. Eles contribuíam para enriquecer a terra e facilitavam a implantação de uma agricultura estável, enquanto as indústrias de mineração deixavam atrás de si ruínas e vilas despovoadas, terras cansadas e matas derrubadas, devido ao emprego da madeira para a construção das galerias. Ela foi a matéria prima da economia eotécnica. As máquinas, empregadas na indústria eram de madeira, como o torno. Mas a necessidade de armaduras, canhões e balas de canhão, de metais para a guerra, favoreceu o desenvolvimento da arte da mineração.

Foi o vento, a água e a madeira que se combinaram para uma produção técnica importante: a construção de barcos. A arte da navegação desenvolveu-se, graças aos grandes lucros que oferecia, e não só serviam aqueles para o comércio oceânico como também para os transportes regionais e locais. Com o vidro surgiu a descoberta das lentes e do telescópio, permitindo a Galileu as suas observações astronômicas. Jansen inventou o microscópio composto e, provavelmente, também o telescópio, que permitiram estender o macrocosmos e o microcosmos, isto é, o mundo do imensamente grande e o do imensamente pequeno. Desta forma, a concepção do espaço modificou-se radicalmente. A química obteve um grande progresso por ser o vidro um corpo de propriedades únicas, não só transparente e por não ser afetado pelas composições químicas. Além de neutro às experiências, permitia que o observador as acompanhasse com os olhos. Ademais, por ser passível de sofrer temperaturas relativamente altas e ser um grande isolador permitiu, além da criação da retorta, do tubo de ensaio, do barômetro, do termômetro, das lentes; na neotécnica permitiu a formação das lâmpadas de luz elétrica, dos tubos de raio X, etc. Além disso permitiu que através da luz por ele coada se percebesse melhor o pó que estava no ar. A necessidade de mantê-lo limpo para que por ele se coasse a luz, veio trazer um sentido de higiene muito mais apurado e, então, "a janela limpa, o assoalho lavado, os utensílios brilhantes foram a característica do lar eotécnico". Um outro invento veio permitir uma transformação nas condições do mundo eotécnico: a imprensa. Foi ela que desenvolveu uma série de indústrias, como a do papel, trazendo o desenvolvimento da cultura e da educação e, consequentemente, de novas necessidades humanas.

2) A paleotécnica – A Revolução Industrial, em meados do século XVIII, transformou o modo de pensar, os meios de produzir e as maneiras de viver. Em face de uma quantificação crescente da vida os êxitos eram, desde então, medidos apenas pelo quantitativo. De 1760 em diante os inventos se sucedem. A nova fase técnica tem lugar na Inglaterra onde o regime eotécnico havia deixado poucas raízes, por isso foi fácil aceitá-la nova fase. O interesse humano, em vez de dirigir-se aos valores da vida, transferiu-se para os valores pecuniários. Surgiram novas cidades industriais e a exploração do carvão, como combustível para as máquinas a vapor, era a grande fonte de negócios. Quatorze a dezesseis horas de trabalho era comum, e os operários alimentavam-se muito mal. Os salários, que nunca haviam sido suficientes para manter um nível de vida normal, haviam ainda baixado mais com o advento da nova indústria. Eram tão baixos, que não obrigavam os burgueses a melhorar sua indústria, porque admitiam lucros espantosos. Colaborava o Estado com essa situação das coisas, e o empobrecimento dos trabalhadores agrícolas, que vinham aumentar o exército dos que necessitavam de trabalho, contribuía também para que os salários fossem cada vez menores. De um lado, a vida de misérias do proletariado, que procuraria uma evasão prazenteira ao desprazer da vida na fábrica ou na mina. E o amor sexual era um recurso para esquecer. Com ele vieram os filhos que, com o tempo, serviam para ajudar os pais desempregados, porque as crianças, desde os mais tenros anos de idade, iam para as fábricas trabalhar. E trabalhar numa fábrica ou numa mina significava a miséria. Esta fase não teve paralelo na história da civilização. "Não se trata de uma recaída na barbárie, devido à decadência da civilização, mas a um sobreerguimento da barbárie, apoiada pelas mesmas forças e interesses que, originalmente, haviam sido aplicados à conquista do meio e à perfeição da cultura humana" (Mumford). A paleotécnica teve seu momento mais alto na Inglaterra e o espírito dela ainda perdura em alguns lugares. É o domínio do mecânico quantitativo.

O carvão já era conhecido antes de Cristo, mas em 1709, graças a invenção de altos fornos, o capital financeiro põe-se a explorar os campos carboníferos, em vista dos altos lucros. Com a máquina a vapor e o carvão, podia a indústria pesada ter um grande desenvolvimento e, para diminuir as despesas de transporte, concentrou-se perto das jazidas carboníferas, a cidade típica da paleotécnica, "a cidade-carvão, a cidade suja". O espírito quantitativo tinha que ser exacerbado e justificado pelas próprias experiências. Primeiro: a concentração da indústria, crescimento consequente das fábricas. E como a máquina a vapor exigia uma tensão constante, surgiu a conveniência de se criar máquinas cada vez maiores. Esse processo aumentativo, quantitativo portanto, aparecia aos olhos de todos como um progresso e daí para considerar-se o progresso apenas sob o ângulo quantitativo era um passo. Temos, então, as máquinas a vapor, as fábricas gigantes, os altos fornos. Com a invenção das estradas de ferro e do transporte mais barato, populações agrícolas empobrecidas passaram a se transferir para as cidades industriais, aumentando assim o mercado do trabalho. Os grandes fornos permitem aço e ferro mais barato aos exércitos, canhões mais equipados, e um novo sistema de estradas de ferro torna possível transportar maior número de contingente bélico para os campos de batalha.

Para se ter uma idéia dessa época e a que ponto levou a degeneração do trabalhador e ofendeu a dignidade humana, basta este trecho de Ure: "É mister realizar a distribuição dos diferentes membros do aparelho conjunto cooperativo para acionar cada um dos órgãos com delicadeza e velocidade apropriadas, e acima de tudo, ensinar aos seres humanos a renunciar aos seus desordenados hábitos de trabalho e amoldá-los à regularidade invariável do complexo automático" que acentuam a grande dificuldade que ele notava. E prosseguia: "assim se deve proceder devido à imperfeição da natureza humana, pois sucede que quanto mais hábil é um trabalhador, tantas maiores probabilidades tem de chegar a ser obstinado e intratável e, consequentemente, menos adequado para o sistema mecânico dentro do qual... que, em última análise, causar grandes prejuízos". O requisito para a fábrica paleotécnica é a falta de habilidade, a disciplina cega, e a supressão de qualquer ocupação optativa. O operário era reduzido a uma peça do maquinismo; não podia trabalhar a não ser preso a uma máquina. Assim a miséria, a ignorância e o temor eram os fundamentos da disciplina industrial, permitindo a formação da produção em série, o que impedia ao operário a satisfação que tinha o artesão independente, que podia deter-se no trabalho quando assim o quisesse. As greves que se verificaram neste período, trouxeram melhorias na produção e também nunca foram repelidas com tanta energia pela polícia a serviço do capitalismo paleotécnico. As cidades mostravam os bairros pobres. Proliferava a adulteração dos alimentos, apoiada até nos parlamentos pelos representantes do povo. A paleotécnica tinha uma concepção apenas quantitativa do progresso. A justificação da exploração humana fundava-se no postulado da supervivência do mais apto; do domínio do mais forte e a luta de classes assumiu proporções espantosas. Em Rochedale (Inglaterra) por ocasião de uma greve, surgiu a idéia (já velha), mas com novas formas, a da cooperação. Ao estudarmos a economia, veremos quanto o espírito paleotécnico influiu porque é nele que o econômico se apresenta mais agudamente aos olhos de todos. Daí a atualização do econômico procedida pelos liberalistas e marxistas. As interpretações de Marx, imbuídas desse espírito, representavam, ante as co-variantes dessa época, um estudo crítico coordenado do capitalismo paleotécnico. Mas surge, depois, uma transformação radical, profunda e muito maior do que poderia parecer, como o advento de uma verdadeira revolução na técnica que, aos poucos, irá transformando o panorama do mundo.

3) A neotécnica – Época que está sendo substituída pela biotécnica, prevista por Kroptkine, em que se dará a incorporação do orgânico ao mecânico, fase concreta, começo de uma nova aurora para a humanidade, depois de destruído o espírito e as formas de vida e de exploração paleotécnicas. Ela vem das concepções geniais de Bacon, Leonardo da Vinci, Galileu, Lord Verulam, Glanvill, Porta e outros. Entretanto ainda predominam entre nós as concepções bárbaras da paleotécnica, sobretudo no terreno da luta de classe e das lutas nacionais. Uma pergunta surge: quando se iniciou a neotécnica? Ela não teve propriamente um início determinado, mas uma série de inventos foram permitindo o seu surgimento que também se modificasse a mentalidade humana, pela atualização do que havia ficado inibido durante o predomínio quase total da paleotécnica. Pequenas unidades de produção podem ser utilizadas por grandes unidades de administração, comunicações mais rápidas, supervisão mais técnica. A eletricidade não exige, como a máquina a vapor, que à sua volta se concentre a produção. Mas o que caracteriza sobretudo a neotécnica é a luta contra o desperdício. O aproveitamento dos bens é integral. Enquanto na paleotécnica se envenenam os rios, o ar, a neotécnica limpa, higieniza, porque aproveita tudo. O orgânico retorna para incorporar-se ao mecânico, e inicia-se a preparação de uma nova fase do futuro, a biotécnica. No entanto, a predominância do espírito paleotécnico na política e na economia não permite que ingressemos nessa fase. Grandes fábricas, sob as normas da paleotécnica, ainda são construídas. O manchesterismo continua fazendo seus estragos e as lutas de classe não permitem que os homens atualizem, senão os seus ódios e seus ressentimentos.

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