Persuasão
Sociologicamente há três modos de sua aplicação: a força; a persuasão; a troca de vantagens. Quando modificamos a atitude e os sentimentos de outros, usando do constrangimento brutal, isto é, de força material, realizamos uma violência. Há o exemplo do roubo, do assassinato, e se incluem ainda os atos de defesa quando alguém é atacado, como na legítima defesa. Em geral, tais atos diretos são felizmente os menos praticados. Usam‑se outros meios indiretos, mais sutis, como a intimidação, na qual não se atualiza a violência, mas se demonstra, de modo patente, que se pode empregá‑la. Um indivíduo fraco cede facilmente às exigências do mais forte, sem necessidade de empregar a violência em ato. Mas ela está aí pelo menos em potencial. Pode ser considerada de dois modos: 1) ativa – quando no momento de empregá‑la; 2) potencial – quando oferece possibilidades indubitáveis de que pode ser empregada. Exibições de força, como nas paradas militares, organizações policiais, etc., podem intimidar. Em toda a história foram usadas das maneiras mais diversas. Contra tais violências ou suas ameaças, na ordem social, há o recurso do direito, mas este precisa estar amparado numa força para que se possa impor, pois ainda não se instaurou na vida humana a nítida compreensão do que é justiça. A força, manifestada como violência, utiliza também meios, como o dinheiro, com o qual se podem manejar poderes disponíveis. Quando a persuasão falha, recorre‑se à violência. Quando não se pode usá‑la ou quando implica ou admite possibilidades de reações maiores, prefere‑se a persuasão. A história do colonialismo atesta‑o. Os povos colonizadores usaram a persuasão, mas não titubearam em empregar a violência como um meio de impor sua ordem e superioridade sobre os dominados. O colonialismo tem inúmeras formas de manifestar‑se. Ora é ativo, impondo aos povos mais fracos o seu poder, ora é passivo impondo aos já libertos a impressão da sua subserviência cultural às metrópoles do colonialismo. O emprego da violência apresenta‑se, ora pelo emprego da força bruta, como por meios mais sutis, pois na própria persuasão está velada certa violência (potencial sem dúvida), razão porque nem sempre é fácil distinguir onde ela termina e onde começa a persuasão propriamente dita. Os defensores da violência justificam‑na em face de circunstâncias em que os meios de persuasão são incapazes de evitar males maiores, assim como todos os povos que vão à guerra. No entanto, ela é geradora de relações sociais negativas (e opositivas). A força empregada provoca uma força oposta de resistência. Tudo o que é imposto, sem o assentimento dos outros, não pode durar. O constrangimento pela força gera a obstinação do que a sofre. A persuasão, no entanto, tem um papel mais sólido na história humana, porque nela há um acordo, e provoca espontaneidade convergentes, que se manifestam numa ação combinada. Apresenta modalidades:
sedução, quando explora certos prestígios ligados aos instintos, encantamento da graça e da beleza, do amor;
por demonstração, quando usa argumentos contra as objeções;
por ensinamento, quando se oferecem explicações que abrem novas perspectivas.
Embora ofereça vantagens na vida social, a lentidão de seu processo e suas limitações fazem com que muitos defendam o uso da violência. Se, na verdade, o progresso da ciência e da técnica aumentam os meios de persuasão, tais benefícios são limitados. Os recursos da propaganda favorecem o trabalho de persuasão. Mas há veladamente, ao menos, um recurso à ameaça e à coação moral. É fundamental, também, nas relações humanas, a troca de vantagens ou de serviços. Esta consiste na execução de um ato em troca de outros. Neste caso estamos em face de relações sociais bilaterais. Essas trocas se processam de diversas maneiras, mas muitas delas levam implícitas a persuasão e até a violência potencial. Por exemplo, no caso de remuneração por serviços prestados, pode atuar (como na verdade atua), uma necessidade ou a ameaça de um prejuízo maior. Muitos que trabalham e empregam seus serviços fazem‑no sob o constrangimento de uma necessidade, e se aceitam uma determinada remuneração a tal são levados por se sentirem ameaçados de um mal maior, se negarem aceitá‑la. A atividade não remunerada só se realiza sob fundamentos afetivos ou de índole ideal, como religiosos, etc. Não é difícil ver, neste ponto, quanto influem a violência, a persuasão, a troca de vantagens sobre as idéias sociais. Pois, no processo das relações humanas, em que tais elementos estão presentes, surge a consciência de situações não julgadas justas nem convenientes. Todas as idéias políticas fundam‑se numa visão geral do caráter e do valor desses aspectos que são tão importantes. É de relevância nas relações humanas, os atos desinteressados, como os presentes, trocas de gentilezas, etc., que têm um papel muito grande no aumento da força social, tanto do indivíduo como dos grupos sociais.