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Ser (Propriedades Do)

Propriedade

A propriedade é definida como o próprio de uma coisa (idion), que nem sempre é unívoco com o ente. O próprio é o que pertence a toda uma espécie, não como essência, pois pode encontrar-se em outras espécies. Ele é um predicável acidental, mas da espécie; não constituindo, portanto, sua essência. Desde Aristóteles considera-se a propriedade um predicado não essencial de uma coisa, porque se assim fosse não seria uma propriedade, algo que pertence a uma coisa, mas algo que é a própria coisa. Ela é algo que é do haver de uma coisa. Entretanto é algo que se adita à essência, algo intimamente conjugado com esta ou aquela, de modo que não se pode separar nem a propriedade da essência, nem a essência da propriedade. Esta flui de modo necessário da essência. Por isso a sua definição clássica era: predicado não essencial, contudo conveniente, necessariamente, a todo seu sujeito, só e sempre. É, em suma, o que se predica de muitos como algo que necessariamente flui da essência destes. Ele pertence a todos os entes de uma determinada espécie, somente a eles, e sempre, e temos a propriedade em seu sentido pleno. Contudo pode pertencer a todos, não somente, pois outras espécies podem também tê-lo, e sempre. Será um predicado de grau menor.

As combinações possíveis são: 1) todos - não unicamente - sempre; 2) todos - unicamente - não sempre; 3) a não todos - unicamente - sempre ou não sempre; e finalmente o modo pleno da propriedade: 4) a todos - unicamente - sempre.

O que é essencial à propriedade é o de ser predicada como algo que flui de modo necessário da essência. Assim, segundo o exemplo de Aristóteles, o ser bípede é um predicado de todos os homens, não unicamente, mas sempre. O ser geômetra não se predica de todos os homens, mas sim apenas do homem, nem sempre. Como exemplo de propriedade perfeita temos a unidade predicada ao ser, porque todo ser, porque é, é uma unidade, e todos os seres, porque são, são unidade, e só o ser pode ser unidade, porque o nada não pode formar uma, e aquele é sempre tal, porque é ser. Assim os conceitos transcendentais (chamados transcendentais, porque são aplicados a todos os entes), tais como unidade, verdade, bondade (valor), alguma coisa (áliquid), realidade (res) são propriedades de todos os entes, só e sempre.

Uma propriedade pode ser metafísica se não se distingue real-realmente da essência, mas apenas por razão; será física se real-realmente daquela se distinguir. Como exemplo da primeira temos os conceitos transcendentais; da segunda, as propriedades da química.

É atributo o que se predica de uma coisa, o que se atribui a uma coisa e, como tal, pode ser algo predicado acidental ou substancialmente (essencialmente). A propriedade é um atributo quando logicamente enunciada, porque é logicamente distinta.

Alguns existencialistas negam a unidade no ser (no homem, na realidade humana), por ser um composto de ser e de não-ser. Mas esquecem que um ser é o que é, e não é o que não é. A unidade refere-se ao que é, e o não-ser só pode ser privação de algo real, porque privação de nada é nada de privação. O não-ser do ser finito é apenas o seu limite específico, porque toda espécie indica apenas o que ela é. A unidade refere-se à parte positiva que, como tal, exclui o que não é ela. Consequentemente, o fato de um ser finito ter algo positivo e não ter algo positivo, não impede que seja ele uma unidade.

A unidade ontológica é a primeira propriedade do ente (como ser), um atributo transcendental. Os conceitos transcendentais são aqueles que se referem a atributos que convém a todos os seres, não apenas no que eles têm de comum, mas também no que têm de próprio. Desta forma, o conceito de ser pode ser aplicado a todos os entes. Mas também outros conceitos o podem, como o de entidade (entitas), o de unidade, o de verdade e de bondade (valor), e de "alguma coisa", e também o de relação.

A unidade é o caráter do que é um. Não se deve confundir o conceito de unicidade com o de um. Unicidade é o caráter do que é único, sem segundo idêntico a ele, enquanto o de ser um, refere-se ao caráter de quem tem unidade. A unidade é indivisa. Muitos julgam que é negativo o conceito de indiviso. Mas a unidade é positiva e o caráter de ser indivisa aponta a recusa que se lhe faz de não ser senão ela mesma, pois dividida a unidade, enquanto tal, deixá-lo-ia de ser. Consequentemente todo ente é um (ente ôntico), "Um, o que é indiviso em si e distinto de qualquer outro" (Tomás de Aquino).

Unidade é dada pela coerência (veritas ontológica), pela inteligibilidade do ente, enquanto ente.

a)

A unidade pode ser, em linhas gerais: simples, de simplicidade; e de composição. É unidade simples, de simplicidade, a que além de indivisa é ainda indivisível. O átomo dos filósofos é indiviso, pois é a-tomós, e também é indivisível porque é simples, não composto. Também assim um puro espírito é indiviso e indivisível.


b)

Os seres compostos, que como tais não são simples, formam uma unidade de composição, e formam um todo. Enquanto todo, é indiviso atualmente; não exclui, porém, a divisibilidade. As unidades forma-matéria, substância-acidente, são para muitos unidades de simplicidade, embora apresentem distinções metafisicamente consideradas; para outros, unidades de composição, mas muito mais coerentes do que as que compõem as unidades de composição física. Um átomo, na concepção atômica científica, é uma unidade de composição forte. Estas unidades, que são estruturas, como as de origem biológica, de ordem psicológica e sociológica, possuem graus de coerência, de coesão, maior ou menor.


Duns Scot expõe esta divisão da unidade: Unitas aggregationis (unidade de conjunto) é a que forma um grupo de objetos simplesmente reunidos. Unitas ordinis (unidade de ordem). Esta não é uma pura e simples justaposição, mas nela cada parte ocupa um lugar justificável, em virtude de um certo princípio. Unitas per accidens (unidade por acidente).

Não é propriamente uma relação de ordem, mas a unidade de um determinado e de uma forma que o determina. Se a forma é acidental, a unidade é per accidens. Se a forma é substancial, estamos então em face de uma unidade de per si (unitas per se). Unitas per se, uma unidade por si, com surgimento de uma forma. Finalmente a unidade mais alta é a Unitas simplicitatis, que implica uma perfeita identidade, pois o que está numa unidade de simplicidade, seja o que for, é a mesma coisa que seja o que for nela. A unidade não é um termo apenas unívoco, pois a que encontramos num livro, como um artefato humano, portanto do mundo da cultura, e a de um ser vivo são diferentes. Mas também não é equívoco, porque em ambos casos não se trata de coisas absolutamente diversas. Há síntese de semelhança e de diferença, portanto a unidade é análoga.

O ser é unidade. E os escolásticos diziam que ser e um se convertem (ens et unum convertuntur). Se o ser fosse divisível pelo nada, como o afirmam alguns, teríamos então diversos seres e acabaríamos no pluralismo, com todas as aporias que daí decorrem. Essas propriedades do ente não lhe acrescentam qualquer coisa de real, mas apontam o que é racionalmente captado nele. Esta afirmação implica um problema de ontologia, que é o da distinção.

Outra propriedade é a bondade (vem de bom, que tem bem). Há bondade absoluta e bondade relativa. A primeira funda-se na perfeição; a segunda, na sua relação. Todo ente tem bondade (relativa). Há ainda a bondade em si e a bondade para outro. A unidade é a coerência da tensão e revela uma em si, podendo apresentá-la segundo os planos (bondade relativa). Atualmente se substitui o termo bondade pelo de valor, que o contém. Na axiologia, o ser é valor, e valor é ser, apesar das inúmeras opiniões contrárias e diversas. Mas a idéia de valor é também análoga. Todo ser tende a realizar o seu bem, o seu valor. É ele, intrinsecamente, um valor que realiza valores. Daí os escolásticos dizerem ens et bonum convertuntur, ser e bem (valor) são convertíveis.

Como poderia o bom ser bom sem ser? Todo ser é um valor na proporção que é, e desejável segundo a sua perfeição. Valor e ser, que se identificam dialeticamente no ser, distinguem-se porém porque o valor intrínseco do ser será o próprio ser, enquanto valerá ante outro, extrinsecamente, segundo a desirabilidade que provoca ou satisfaz; mas tal desirabilidade já implica a anterioridade do valor que o provoca. Em suma: todo ser é valor. O conceito de valor pode converter-se no de ser e vice-versa.

Mas o Ser, como valor supremo, é um valor incondicionado, enquanto os entes são valores condicionados. Demostra-se: o ser é o sujeito de todos os predicados e o predicado de todos os sujeitos. É ser tudo quanto é sujeito de um predicado, é ser tudo quanto é predicado de um sujeito. Os entes (que todos são também ser), o são em si ou em outro. Mas pode ser considerado em si ou em outro, pois tudo tem, como subsistência final, o ser (todo existente tem a sua subsistência final no ser).

A condicionalidade do existir implica também a condicionalidade do valor (valor de variância). Todo existente é também um valor condicional, e apresenta tantos valores quantas possibilidades relacionais, condicionais, etc. Só o Ser Supremo é incondicionado como ser e como valor. Todo o ser revela um valor condicionado a outro, tanto em sua imanência, como valor das partes componentes de uma tensão para com a unidade tensional, como desta em face das estruturas à que pertença ou das estruturas com as quais se antagoniza. A variabilidade do valor condicionado segue paralela à condicionalidade do existir e as duas se convertem. Por haver condicionalidade do existir, há condicionalidade do valor; por haver condicionalidade dele, há condicionalidade do existir. Todo valor é assim, no campo existencial, variável como o existir é variável, sem que o ser o seja. O ser subsistente, e subsistência de tudo quanto existe, enquanto tal, é incondicionalmente valioso. E essa subsistência final é a superessencialidade do ser supremo, que é um valor incondicionado, por isso é transcendência de todo existir.

A verdade também se converte com o ente. É um conceito transcendental. Todo ser é verdade. As verdades não são unívocas, nem equívocas, mas análogas. Por isso os escolásticos afirmavam ens et verum convertuntur, ente e verdade são conversíveis. Todo ser é verdadeiro, e tudo o que é verdadeiro é ser. Se há uma falsidade lógica, não há ontológica nem ôntica (a verdade da coisa em si mesma). Entre o ser e a verdade há apenas uma distinção real-racional. A verdade se pode dizer do intelecto e das coisas. Por isso se podem distinguir: a verdade do intelecto, que é a da cognição; e a da coisa, a verdade ontológica ou transcendental, a verdade do ser.

Todo ente é verdadeiro. Todo ente pode ser considerado como ensidade (de em si). E enquanto tal (unidade) é adequado a si mesmo. Não se deve considerar a verdade como se fosse apenas verdade lógica. É, também, um atributo ontológico (por ser ente). Toda tensão, como ensidade, é verdade num determinado plano. Este pássaro, como pássaro, é verdade (ôntica e ontologicamente considerado). Um pássaro voando no fundo do mar (outro plano existencial), não é verdade.

A verdade lógica permite a verificação, a adequação com a coisa (adaequatio rei). Aqui temos o conceito de falso. A relatividade da verdade está na operação que verifica a adequação. A verdade lógica é, assim, sempre proporcionada aos nossos meios cognoscíveis.

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