Dialética
Arte de esclarecer; arte de descobrir a verdade através das idéias; arte da discussão; lógica concreta. Elevada em Platão, rebaixada por Aristóteles devido aos exageros dos sofistas, elevada na escolástica, e rebaixada no Renascimento, como arte de enganar ou de discutir apenas verbalmente, ergue-se novamente para cair ante a crítica de Kant, e conhecer, depois, seu ponto de apogeu com Hegel, estado de fluxo, o mais alto da história e que ainda permanece, apesar dos exageros e do mal emprego que a transformaram numa "arte de justificar os erros". Na verdade foi Platão quem construiu a dialética em sentido eminente. Em sentido pejorativo, podemos aceitar a paternidade que Aristóteles dá a Zeno de Eléia, embora merecesse uma justificação, pois Zeno, com seus famosos argumentos, apenas queria mostrar a fragibilidade dos que atacavam a doutrina de Parmênides e nada mais.
Assim a dialética é arte de esclarecer através das idéias. E esclarecer, porque a alétheia, a verdade dos gregos, que não deve ser confundida com o nosso conceito ocidental de verdade, nem com o aristotélico de adequação, significa a iluminação, o clareamento, o iluminar do que está nas trevas. Revelar a verdade era vê-la, era penetrar por entre as sombras, e ver plenamente, com os olhos do espírito, a beleza real das coisas. Esta era a verdade para os gregos. E como o espírito (nous) tem a razão (logos) era através desta (diá) que a luz poderia surgir, dissipando trevas, e revelar a alétheia que todas as coisas guardam em seu âmago. A dialética, portanto, trabalhando entre as trevas e luz, entre opiniões boas e más, sopesando valores, opiniões, não podia ter melhor concretização que na discussão, no discorrer, no correr daqui para ali, destas idéias para aquelas, portanto no diálogo, em que as partes, colocadas em posições diferentes, em pontos opostos, enfrentariam as opinões diversas para, através dela (diá), esclarecer. E da oposição, do por-se em face do outro (e posição em grego é thesis, e oposição antithesis), não seria difícil que surgisse muitas vezes um esclarecimento com-posto de ambas posições opostas (syn-thesis é composição). Por isso, é comum aos dialéticos, sempre que colocam em face de uma afirmação uma outra contrária, ou opiniões divergentes, contraditórias, dizer que tal proceder é dialético.
Consequentemente:
dialética é arte de esclarecer por meio de idéias;
todo método dialético é o de pôr e opor opiniões para observar os resultados do choque das idéias contrárias, contraditórias ou distintas;
pode a dialética, além de aplicada no campo das idéias, o ser também no campo da natureza, bem como constituir uma cosmovisão, no que consistiria em considerar o ser como devir (num constante vir-a-ser), o que revelaria uma razão interna de oposição de ordens, etc., sem deixar de compreender o ser como imutável, mas mutável nas suas manifestações;
é, propriamente, a lógica integrada de todas as suas partes: lógica formal, lógica predicamental, lógica demonstrativa, lógica maior e as contribuições posteriores, aplicadas concretamente.