princípio de razão suficiente
Princípio formulado por Leibniz para indicar que cada coisa ou verdade tem sua razão ou causa explicativa suficiente, pela qual é o que é e não outra coisa. Vide Princípios fundamentais da demonstração.
Crítica
(do lat. ratio, expressão usada pelos contabilistas e que se referia ao livro correspondente do mesmo nome. Corresponde ao termo gr. logos). Como nesse livro eram lançados englobadamente os efeitos contábeis segundo a sua especificidade, serviu ele aos filósofos para indicar a faculdade intelectiva discursiva do homem. A filosofia, em seus primórdios, retirou da terminologia popular os vocábulos, com os quais construiu o seu universo de discurso. Hoje vamos buscá-los no latim e no grego, e não na linguagem popular, e essa é a razão porque perdemos a noção da origem de tais termos, que nos parecem especialmente construídos para apontar as nossas intencionalidades intelectuais.
Contudo esse termo não tomou apenas esse sentido, mas também o de causa que motiva algum ato. Assim, diz-se que a razão de ser de alguma coisa é o que causa a sua existência. Também se emprega para significar a quididade, às vezes a natureza, a espécie e até a forma das coisas. Na verdade, tomado in lato sensu, o termo tem o significado de o por meio do qual o ente é o que é. E indica também a ordem da essência de alguma coisa (sentido mais amplo), a ordem da existência, a ordem da sua inteligibilidade ou da sua verdade.
A intencionalidade dos filósofos ao empregarem a expressão razão suficiente era referir-se ao que é requerido para uma coisa ser o que é na ordem em que é, e chamou-se de razão insuficiente quando não atingia tal requerimento. Também se tomaram a razão suficiente e a razão insuficiente em sentido absoluto e em sentido relativo. No primeiro caso, diz-se quando atende plenamente ao ser; no segundo, quando apenas o atende parcialmente. Como as causas de uma coisa são ou intrínsecas ou extrínsecas dividiu-se a razão suficiente em intrínseca ou extrínseca. Assim a causa formal e a material davam uma razão intrínseca do ser, e a eficiente, a final, a exemplar, uma razão extrínseca.
Como o nada nada pode e, consequentemente, não faz nada, porque fazer implica poder, nem se transmuta em nada porque é nada, o que há, o que é, o que existe, deve ter uma causa suficiente para ser o que é, e não ser o que não é. Daí o enunciado clássico do princípio de razão suficiente: Nada pode ser sem a sua razão suficiente. E chamou-se de princípio, devido à sua necessidade e absolutuidade, pois como algo poderia ser se não tivesse nenhuma razão para ser? Na essência incluem-se não só as notas essenciais como as propriedades e até alguns acidentes. Daí o enunciado clássico: Qualquer que tenha uma essência determinada, tem de ter uma razão suficiente desta essência determinada.
Temos aqui o emprego do princípio de razão suficiente quanto à ordem da essência. Também o que existe tem uma razão suficiente da sua existência. É a aplicação à ordem da existência. O que é conhecido tem uma razão suficiente pela qual pode ser conhecido. É a aplicação à ordem da inteligibilidade. Também se expressa do seguinte modo: todo juízo verdadeiro tem uma razão suficiente da sua verdade. Num enunciado amplo, pode dizer-se: O que quer que seja, que existe ou que pode ser entendido, tem de ter, intrínseca ou extrinsecamente (em sua emergência ou em sua predisponência), parcial ou totalmente, uma razão suficiente de sua essência, de sua existência ou de sua inteligibilidade.
Contudo muitos filósofos não sabem o que ele seja e constróem uma caricatura, apresentando argumentos inapropriados para combatê-lo. Afirmá-lo no todo ou em parte, ou negá-lo no todo ou em parte, foi a atitude tomada por muitos filósofos através dos tempos. Propriamente os gregos não o enunciaram, mas implicitamente já estava contido no pensamento que vem desde Pitágoras, passa por Sócrates, Platão e Aristóteles. Foi Leibniz quem o formulou como fundamental da metafísica, junto com o princípio de não-contradição. Kant e os idealistas consideraram, de início, como um princípio meramente subjetivo, negando-lhe a necessidade objetiva. Os positivistas e os empiristas não negam totalmente o princípio de razão suficiente, mas julgam-no válido apenas no campo dos fenômenos, pois no campo metafísico afirmam ser impossível estabelecer a sua validez. Contudo a tese positiva e concreta é a afirmação da validez desse princípio, tanto em referência aos entes necessários como aos contingentes, e tanto na ordem da essência como no da existência e no da inteligibilidade.
Esse princípio se enuncia de modo universal, porque é impossível o ser sem uma razão de ser, o que revela sua universalidade e necessidade. É universalíssimo porque se refere a toda espécie de ser e convém a toda espécie de ser, e convém necessariamente porque sem ele, nenhum ser teria razão de ser. É evidente na ordem da essência, porque tudo quanto é tem uma essência; na ordem da existência, porque é impossível existir o que não tenha razão para tal, e o que existe é porque tem uma razão para existir. Uma coisa só é inteligível enquanto tem uma razão de sua inteligibilidade, pois o nada é ininteligível. Se o ser não tem notas cognoscíveis, como conhecê-lo? Por outro lado, um juízo é verdadeiro na proporção da sua adequação. Portanto para que um juízo seja verdadeiro é mister que tenha uma razão para tal. Sem qualquer razão de cognoscibilidade, nada poderemos conhecer. É desse modo um erro tomá-lo apenas parcialmente, erro que cometeram muitos filósofos, reduzindo-o apenas a um princípio lógico. São precisamente aqueles que julgam que a lógica é apenas uma expressão da maneira de funcionar a nossa mente, sem qualquer possibilidade de ter um fundamento positivo e concreto na realidade, da qual o homem também pertence. Não sabem distinguir que a idealidade é o nexo das coisas ideais, e que a realidade é o nexo das coisas reais, e que também há uma idealidade da realidade e uma realidade da idealidade.