Nada
Quantidade "zero" de um objeto suscetível de aumentar e de diminuir. Para designar esse estado de coisas, dizemos que o respectivo objeto "não é". Porém, há uma diferença marcada entre "não ser" uma coisa e ser "nada" dela. Assim o frio "não é" calor, contudo não é por isso "nada" de calor, porque o frio só representa um grau reduzido de movimento molecular que, pela mera intensificação desse mesmo movimento, passa a ser calor. Esse movimento reduzido (frio), pois "não é" calor, não é porém um "nada" de calor. Igualmente, como diz Pascal, uma casa "não é" uma cidade; contudo não é um "nada" de cidade, porque é uma das mil casas que constituem a cidade.
Além dessa acepção puramente quantitativa, o problema do nada é basilar e dos mais intrincados da filosofia.
Há, em primeiro lugar, o problema do nada no sentido cosmológico da existência de um vácuo, de espaço vazio, cuja possibilidade já fora rejeitada pela maioria das escolas gregas, o que foi reforçado pelas teorias modernas.
Do problema cosmológico do nada resulta um problema metafísico, no momento em que as coisas do mundo visível são reconhecidas como transitórias e não eternas, de maneira que antes de existirem eram nada. Ora, é uma atitude típica do pensamento grego conceber as coisas não existentes não como nada, mas como "encontrando-se no nada". Isso implica ainda que inconscientemente uma valoração positiva do nada, que aparece como um segundo mundo, menos substancial, o mundo da não-existência, mas que de qualquer maneira não deixa de ser algo.
Assim Platão ao lado do seu mundo real das idéias, admite um outro mundo do não-ser (mé on), como matriz da qual as coisas reais são criadas.
Em Aristóteles, o conceito do nada se prende ao conceito da potencialidade. Visto que tudo passa do estado potencial para o de uma forma de quase-subsistência, e as coisas potenciais são e não são ao mesmo tempo. Simultaneamente o fato de que certas coisas potenciais não cheguem à atualização, conduz à idéia de privação e imperfeição.
O problema do nada como imperfeição, como falta de uma coisa que devia ter lugar, ocupou particularmente os neoplatônicos que converteram o problema metafísico em um problema ético. O não-ser, como privação aderente ao ser do mundo físico, reduz as manifestações desse mundo a um grau inferior do ser, e é ao mesmo tempo a causa do mal.
No mesmo sentido a escolástica que equipara "ser" e "bem" (ens et bonum convertuntur) define o mal como um defeito, privação, falta do bem (defectus bonis). Nesse sentido ético o nada aparece como oposição absoluta e negação peremptória do ser e não aceita, como nas várias acepções metafísicas e cosmológicas, uma interpretação de qualquer maneira positiva, como a encontramos em pensadores medievais que até chegam a declarar que, desde que Deus criou o mundo do nada, o nada pertence à essência de Deus.
O ponto de vista aristotélico foi retomado e desenvolvido por Hegel, que considera o dever como a última e absoluta realidade, um fator negativo é tão necessário como o positivo. A proclamação hegeliana da identidade do ser e do não-ser tenta resolver o problema de maneira muito peculiar.
Outros pensadores, muito longe de tal identificação dos extremos mais opostos que se podem imaginar, trataram de esclarecer a idéia do "nada absoluto" em sua mais rigorosa acepção.
Enquanto alguns afirmam a possibilidade de tal idéia, outros a rejeitam por razões semelhantes àquelas que Bergson formula na observação seguinte:
"A idéia do nada absoluto, compreendida no sentido de uma abolição de tudo, é uma idéia que destrói a si mesma, uma pseudo-idéia, uma simples palavra. Se suprimir alguma coisa consiste em substitui-la por uma outra, se pensar a ausência de uma coisa só é possível pela representação mais ou menos explícita da presença de qualquer outra coisa, a idéia de uma abolição de tudo é tão absurda como a de um círculo quadrado. Há mais, e não menos, na idéia de um objeto concebido como ‘existente’ , porque a idéia do objeto ‘não existente’ é necessariamente a idéia do objeto existente, aumentada pela representação de uma exclusão desse objeto da realidade atual tomada em bloco".
Crítica
Não propôs Platão que houvesse alguma coisa fora do ser, porque nada há fora dele. O nada não é um ponto de partida para o ser, como não o é também no pensamento cristão, pois é uma ingenuidade pensar-se que a creatio ex nihilo indicasse uma gestação do ser do nada, pois o Criador é eterno e é Ser e antecede ontologicamente e por dignidade à criatura. Entre ser e não-ser há apenas uma relação de razão. Ao comentar a criação ex nihilo, Tomás de Aquino diz: "Deus facit ex nihilo... non quod nihilum cedat in substantiam rei, sed quia ab ipso tota substantia rei producitur nullo alio supposito" (Summa Theol., I, q. 41, a 3, c). Não há assim um supósito anterior, de onde o criador tirasse os entes criados (criaturas). Ao criá-los, deu-lhes o ser. É nossa imaginação que concebe, sem contudo poder entendê-lo, esse abismo de nada anterior à criação. Quando Platão postula que há previamente o ek mageion amorphon, que é informado, determinável pelo ato, que o determina, não o afirma anterior cronologicamente à criação, pois o conceito de determinante implica simultaneamente a determinação, já que o ato de determinar é de vetor inverso ao sofrer determinação pois, para determinar é preciso que algo seja determinado. O ser não pode proceder senão do ser, o que subtende a participação. No pensamento cristão, como o demonstrou Tomás de Aquino, a participação está implícita na criação, esta não pode ser compreendida sem aquela, e ao contrário. Compreende-se então que não era infenso a Platão o pensamento criacionista, não naturalmente com as características e a precisão que teria no pensamento filosófico cristão. A metáfora do demiurgo (do artesão) completa a estrutura ontológica da criação-participação, conceitos inseparáveis e vivos em todo o pensamento filosófico mais elevado. Se cabe a Tomás de Aquino o papel de reunir num só bloco esses dois conceitos, não se pode negar que foi inspirado no pensamento platônico, que conseguiu através do empirismo aristotélico, fundar as bases de uma concepção cristã, que é mais profundamente platônica do que inspirada no Estagirita.
A especulação em torno do nada leva-nos a classificá-lo de quatro modos:
Nada absoluto (que chamamos nihilum) que é a ausência total e absoluta do ser, a negação absoluta, que é absurda.
Nada absoluto parcial, a ausência absoluta de ser (vacuum), um oceano de nada, cercando uma ilha de ser. Pensamento também absurdo não de per si, mas segundo demonstração.
Nada de ser criacional antes do ser criacional, que é apenas o possível de ser feito, que cabe ao possível de fazer. A potência de vir-a-ser ante o poder de determinar. É o mé on de Platão, o Meon, como o chamamos, que é objeto da Meontologia, cujas bases estão expostas em nossa Filosofia Concreta.
Nada relativo: o não-ser isto ou aquilo, o nada da nossa experiência. Na obra citada realizamos as especulações que se podem fazer dentro da dialética concreta ao tema do nada.
Vide Idéias Negativas.