Nada
São classificadas como tais as idéias de erro, de desordem, de mal, de nada, etc. Para Platão, o erro é negativo e consiste em levar ao absoluto um aspecto do real. Se digo que para mim tal coisa parece ser deste ou daquele modo, não estou errado, mas quando, em absoluto, ela é de tal ou qual modo, nesse caso, pode haver erro. Portanto ele é uma verdade parcial (como também o entende Spinoza). Só há propriamente o erro quando, ao que é verdadeiro de um ponto de vista, lhe é atribuído o caráter de verdade absoluta. Contrariando esse ponto de vista, William James dizia que se o erro é uma verdade parcial, então tudo é verdade parcial. Para Bergson há desordem ou aparência de desordem quando, ao buscar uma das duas espécies de ordem, descobrimos outra, como já o afirmavam os filósofos escolásticos. Por ex.: um quarto será dito em desordem quando ao procurarmos uma ordem finalista descobrimos, simplesmente, uma ordem mecânica ou, ao procurarmos a ordem mecânica, encontramos a ordem finalista. Se queremos limpar o quarto, os móveis serão ordenados numa ordem diferente daquela quando nele queremos viver. Em tais casos a desordem somente é a presença da ordem não desejada, ou não procurada, ou não esperada. Propriamente nunca há desordem em sentido absoluto, mas apenas em sentido relativo.
O nada não é algo propriamente tal que se dê ademais do ser, mas unicamente sua falta, sua deficiência. O que se conceitua como nada é uma negação do ser. Distingue-se:
Nada relativo: ausência de certa realidade num ser real (ex.: nesta sala não há nada...; sobre este livro não há nada...). Essa idéia de nada é positiva. Apresenta-se de várias espécies: a) pura negação quando consiste na simples ausência de uma coisa que não é normal possuir; b) privação que consiste na ausência de uma coisa que é natural ter. A cegueira, numa pedra, é uma simples ausência; no homem ou no animal, uma privação.
Nada absoluto: ausência total de toda realidade. Assim: "Deus criou o mundo do nada", este termo é tomado na primeira acepção. O mundo era ainda nada como realidade, não porém nada como possibilidade de ser. A sua noção é obtida pela negação do ser. Não podemos concebê-lo sem o ser, pois para concebê-lo impõe-se o ser de quem concebe. Mas podemos conceber o ser sem o nada? O ser é concebido por si mesmo. Já o mesmo não se dá com o nada. Se digo que este livro é insensível, é porque sei o que é como é um ser sensível. Daí considerar-se o mal como um nada do bem, que só é conhecido pelo bem do qual é ele uma ausência ou uma privação. A imperfeição é a ausência de um bem ou de algo melhor; a falta, a privação de um bem que se deveria normalmente possuir; a desordem seria a falta de ordem, concebida pela ordem que deveria estar em seu lugar; a imperfeição, pela perfeição, pois julgo da imperfeição de uma circunferência que posso conceber. Dessa forma o nada é obtido pela representação de um ser real ao qual negamos realidade. A idéia do nada é uma pseudo-idéia. Pensar nele é pensar em alguma coisa, cuja essência consiste em não existir. O nada é impossível; a passagem dele ao ser é um pseudo problema. É o ser que não precisa de explicação, e não o nada, dizia Bergson, reafirmando uma velha tese da filosofia. Realmente esta idéia implica sempre a idéia de alguma coisa à qual se nega existência. É uma idéia negativa. Mas como idéia é verdadeira. É verdadeira toda idéia negativa, e a do nada não é contraditória em si. O que é contraditório é admitir a existência do nada, um nada existindo, como ser real, espécie de "reserva misteriosa" de onde o criador tirou o real. Ele não é positivo; é a negação de toda realidade positiva. Lembremo-nos da frase de Bossuet ao negá-lo: "Que haja apenas um momento em que nada exista, e eternamente nada será". Não se vê que, suprimindo pelo pensamento tudo o que existe, observamos logo que suprimimos em sua fonte toda possibilidade de existência?
Resumindo há três posições possíveis sobre o nada: 1) que absolutamente não é; 2) que é, mas é outra coisa diferente que o nada; 3) que é apenas nada. A primeira é a tese de Parmênides. Só o ser é; unicamente o ser. A afirmação do ser do nada é uma ilusão. Os átomos são o ser cortados em pequenas partes, porque há o nada. Portanto é; mas diferente do nada absoluto: a tese de Platão. A diversidade só pode explicar-se pelo nada não-absoluto. Ele é a alteridade. Para Spinoza toda determinação é negação. Platão diz que para determinar uma idéia é preciso que ela não seja outra idéia... O não ser é; o nada é porque toda coisa é o que ela é, precisamente, porque não é tal, ou tal outra coisa. Para Aristóteles, naturalmente, não há nada absoluto, mas relativo. As coisas podem ser em ato ou em potência. A idéia do ser puro implica a do nada, diz Hegel, pois ao pensar naquele vemo-lo logo em face deste. A idéia do ser puro leva-nos a ele, mas a do devir leva-nos ao domínio do real e do concreto. Também não há o nada absoluto. Para Heidegger a negação só é possível porque há um nada anterior. Não é a negação que torna o nada possível, mas este que torna a negação possível. Como o ser não pode ser atribuído a ele, Heidegger criou o termo nichten (nadificar, anihilar). O nada não é, ele nadifica a si mesmo e as outras coisas. É uma atividade de destruição, cuja realidade afirma. O nada absoluto é indefinível como o próprio ser. No entanto é verdade que, em seus últimos trabalhos, ele não considera o nada um absoluto negativo, mas quer vislumbrar nele um véu do ser através do qual talvez Deus se anuncie de maneira incompleta para nós. De qualquer forma Heidegger termina por conceder-lhe uma atividade e, consequentemente, atribuir-lhe um ato, uma eficacidade e, finalmente, um ser. Desde que se lhe dê uma eficacidade, não o excluímos mais do ser, transitando portanto, de nada para um conteúdo de ser. Surge ainda em filósofos modernos uma especulação sobre ele, decorrente da problemática que apresentam as negatividades, sobretudo na atualidade quando o impulso acósmico atua ante os problemas sociais, favorecendo o surto que se observa desde os dias do século passado das atitudes niilistas. A presença desse problema, com suas características, é bem um símbolo de nossa época, e a postulação do nada é o melhor símbolo do acósmico.
Vide Não-ser.