Matéria
(do lat. materies, madeira; do gr. hylê; etimologicamente a matéria prima, o de que alguma coisa é feita.)
Para Aristóteles e os escolásticos é o princípio passivo, portanto, sempre privação; é o ser em potência. Segundo a sua substância é a potência do ser substancial e em si mesmo (como matéria prima) é incorruptível. É a matéria o princípio passivo da moção, de per si imperfeita. É o que subjaz em cada coisa natural (substantia prima). Matéria e forma são partes da espécie. Na geração a matéria antecede à forma, porque está antes; em privação da forma que nela é induzida, pois a matéria quando tem uma forma está privada de outras. Na ontologia a diferença entre matéria e forma é que a primeira é o de que uma coisa é feita, e a segunda o que pelo qual a coisa é ela e não outra.
Mas este conceito ontológico de matéria implica o conceito ôntico de tudo quanto é objeto da intuição sensível ou, em outras palavras, a matéria dos corpos, dos corpos vivos (matéria viva) e dos corpos brutos (matéria bruta).
Em que consiste a matéria dos corpos brutos? Os filósofos salientam as seguintes características: a) essa matéria é inerte (in ars, sem arte, sem capacidade de realizar, daí inerte), consequentemente: b) não manifesta espontaneidade de qualquer espécie, é por isso: c) passiva, e sobre a ação das forças que se exercem sobre ela, e a sua ação é consequente com a ação sofrida.
Para alguns a matéria não é totalmente passiva e inerte, pois tem o papel de limitar o ato. A visão pura e simples das pedras brutas, dos corpos minerais, levou muitos a admitirem ser inativa a matéria bruta, mas a radioatividade e outras manifestações físico-químicas, sem necessitar da interferência de forças estranhas, nos mostram o papel ativo que ela exerce. Além disso, a inseparabilidade da forma e da matéria, como expõe Aristóteles na sua concepção hilemórfica, evita as visões unilaterais e abstratas, e permite uma compreensão sintética e dialética.
No estado atual da ciência, o tema da matéria, que é de interesse naturalmente filosófico, passa a ser predominantemente de interesse físico e, é preferível colocá-lo primeiramente dentro dos quadros da ciência, para depois tornar a examiná-la com as contribuições que as teorias modernas oferecem no campo cosmológico e ontológico.
A visão filosófica e científica sobre a matéria no Ocidente seguiu a linha do atomismo cartesiano, mas dele se afasta em nossos dias. A matéria é composta de partículas mínimas, cujas combinações e formas nos explicariam toda a heterogeneidade do existir. Esses átomos quantitativos e materiais seriam a última porção de matéria, insecáveis (incortáveis). Essa é a visão mecanicista, que a reduz ao significado de componentes de uma máquina, excluindo dela toda e qualquer noção de força, que passou a ser considerada como um resíduo das noções antropomórficas e ocultas.
O atomismo filosófico não deve ser confundido com o atomismo científico. O átomo, para o filósofo, é aquela porção insecável, indivisível. Mas para o cientista é uma complexidade, é um "quantum" divisível, um verdadeiro sistema planetário, composto de um núcleo central, complexíssimo, cercado por elétrons que volvem à sua volta em órbitas variadas.
No atomismo filosófico, que no Ocidente se costuma remontar a Demócrito (mas que há setecentos anos antes dele já fora exposto na Síria, no Egito, e na Índia, com pormenores que em muito se assemelham às concepções científicas atuais), os átomos são insecáveis, homogêneos, ordenados pelo acaso. O clinamen (a inclinação) de Lucrécio, por exemplo, explicaria a heterogeneidade, pois os átomos por uma inclinação subitamente surgida, chocar-se-iam uns com os outros, e teria surgido a heterogeneidade dos corpos. Entre as contradições lógicas a que leva esta atomística, basta citar o de ser o átomo algo simples, homogêneo, e ao mesmo tempo extenso e simultaneamente indivisível. Além disso, não pode explicar como e por que eles se reúnem para se dar a formação de corpos coesos, simétricos, bem como o misterioso clinamen, a inclinação. O atomismo científico evita tais dificuldades, porque não procura atingir ao elemento último e indivisível das coisas: o átomo dos filósofos.
Para Descartes, a essência da matéria é a extensão, como a essência do espírito é o pensamento. A extensão é inerte e homogênea; o pensamento ativo e heterogeneizante. A multiplicidade do mundo, a heterogeneidade existente, deve-se ao fato de Deus ter dado a diferentes partes do espaço, diferentes movimentos da matéria, da extensão, "fazendo que desde o primeiro instante que foram criadas, umas começam a mover-se de um lado; outras, de outro; umas mais depressa, outras mais lentamente (ou até imóveis) e que elas continuam pouco depois o seu movimento, seguindo as leis ordinárias da natureza. A soma desses movimentos permanece constante, como aquele que os criou". Pedia Descartes que lhe dessem a extensão e o movimento, e ele faria o mundo. Sua física reduzia-se assim à mecânica.
Há pontos controversos como: o da aceitação da extensão infinita, caindo nos perigos do infinito quantitativo atual, e o de dar a extensão como essência da matéria. No entanto a aceitação da heterogeneidade do movimento implica a heterogeneidade das coisas, o que é um salto importante na concepção da física atual.
A essência da matéria está na existência de forças irredutíveis à massa e ao movimento, afirmam os que defendem a posição de dynamai, eu posso, e de dynamis, em grego, potência, força. No clássico hilozoísmo grego encontramos manifestações dinamistas, pois a vida era propriedade comum de todos os corpos, e deles inseparável. Para Leibniz, a matéria não pode ser explicada apenas pela sua estrutura geométrica, mas por uma ação metafísica que lhe dá existência: a força. "E até nesta força passiva de resistência, que envolve a impenetrabilidade, e alguma coisa de mais, que eu faço consistir a própria noção da matéria prima ou da massa, que é sempre a mesma no corpo e proporcionada à sua grandeza". É a mônada o elemento último das coisas. Chama-se monadológica a concepção de Leibniz. Essas mônadas são verdadeiros átomos, simples, sem partes, sem extensão e indivisíveis. São essencialmente ativas, porém não atuam fora de si mesmas, nem sofrem atuações das outras mônadas. A concordância no funcionamento das mônadas, que dão surgimento a toda a heterogeneidade universal, provém de uma harmonia preestabelecida por Deus, que as faz colocarem-se em certas situações simultaneamente com as outras, o que dá surgimento então ao complexo mundo da existência. É a harmonia preestabelecida que dá a consistência a todos os corpos.
Atualmente o dinamismo aparece na concepção energetista de Ostwald. A noção de energia substitui a de força. Lalande define o energetismo como o "sistema de mecânica, que elimina a noção de força e a substitui pela de energia". "A energia cinética, ou força viva, que depende da velocidade, a energética acrescenta a energia potencial que depende da posição. É a soma dessas duas espécies de energia que é constante". Desta forma, para Ostwald, não é a matéria a substância do mundo físico, mas sim a energia. Einstein considera a matéria de essência eletromagnética e as modificações que sofre são provenientes da relatividade.
Surge a pergunta: ou é a matéria eterna ou foi criada? Se aceitarmos a eternidade temos de reconhecer que a matéria não recebe seu ser de qualquer outro, mas é ela então o ser. Neste caso o ser é o atributo do existir e estamos em pleno monismo materialista. Assim seria ela eterna, incriada e indestrutível, portanto sempre a mesma, homogênea. Ou foi criada e portanto implica um criador: Deus. Em favor desta posição alega-se que a matéria revela, em sua mutabilidade, a sua contingência, portanto a implicância de um ser necessário que a regule. Se ela é múltipla e contingente precisa de um ser necessário, pois não existe de per si, não tem aseidade (de a se, e sim abaleidade (de ab alio, de outro)). Consequentemente foi criada.