Intuição
(do lat. intuitio que vem de intus e ire, ir dentro, penetrar no âmago de uma coisa).
O termo foi empregado na filosofia sempre no sentido da penetração na singularidade do objeto por parte do sujeito, na captação imediata dos aspectos fenomênicos que o objeto exibe.
Intuição sensível: teve o sentido da captação singular e imediata do sensível. É o meio de captação imediata do fenomênico do mundo exterior por um ser vivo. Apresenta quatro fases:
1) Intuição primária (intuição reflexa).
2) Intuição secundária, já sensível por meio dos sentidos, a qual se dá quando da formação da medula-espinhal e, consequentemente, no desenvolvimento da vida.
3) Intuição terciária, quando da formação do sistema cérebro-espinhal. Sensibilidade analítico-sintética, com formação de esquemas dos esquemas, pois os esquemas analíticos seriam assimilados a esquemas maiores que os conteriam. Essa ação sintetizadora já implica um esquema de esquema, com suas assimilações, que seriam fundamentais para a compreensão da inteligência.
4) Intuição quaternária, intelectual, com distinção do semelhante e do diferente, própria dos seres mais desenvolvidos e que, no homem, torna-se capaz de estruturar-se no processo operatório da razão como órgão classificador, etc. A intuição intelectual é, pois, a captação imediata das semelhanças e das diferenças que corresponde à quarta fase da intuição.
Intuição eidética: há os que admitem que além do fenômeno, ela capta também o formal; ou seja, que há também, como o propõe Husserl, uma intuição eidética, uma intuição da generalidade. A eidética já exige o operatório intelectual, da razão e é o produto de uma operação por meios, embora nos pareça instantânea, no grau de conhecimento em que está o homem civilizado. Não é, porém, uma captação imediata, mas mediata. Exige já a elaboração inteligente, embora a consciência capte imediatamente o resultado.
Intuição apofântica (do gr. apô, o que está oculto e phaos, luz): a intuição que ilumina, que aclara, que torna compreensível, subitamente, o que não nos parecia claro. É o desvelamento súbito de uma possibilidade, a descoberta de um poder e se revela em todos, mas com maior frequência nos de grande talento e nos gênios. Não se pode negar o papel que cabe à intuição apofântica na filosofia. Os irracionalistas são positivos em suas afirmações em favor das intuições apofânticas e criadoras, e também o são quando estabelecem restrições ao papel da razão, como ela é concebida na filosofia moderna pelos racionalistas.
Crítica
E fazemos essa distinção com o intuito de evitar confusões, pois a rationalitas, em sentido lato, é o entendimento, o conjunto da faculdade cognoscitiva intelectual, em oposição à sensibilidade, o que naturalmente inclui a intuição apofântica que não é de origem sensível, mas intelectual. Em sentido restrito, impõe-se distinguir entendimento (Verstand) de razão (Vernunft), ou como o faziam os escolásticos, entre o intellectus (inteligência) que capta imediatamente a essência e a intelecção ou penetração intelectiva, que se confunde com a intuição intelectual e, finalmente, a ratio, que é a faculdade do pensar discursivo, classificador e coordenador dos conceitos, o que propriamente caracteriza mais intensamente o homem.
A capacidade abstrativa do nosso intelecto (que é o entendimento) realiza o pensamento que abstrai, compara e decompõe, é analítica, enquanto a razão tem uma função sintetizadora, pois conexiona, dá unidade ao conhecimento vário e disperso do homem, em conjuntos estruturais rigorosos. A razão de per si não cria, seu papel sintetizador e eminentemente abstrato, afasta-a constantemente da concreção, sem que coloque-se contra a vida, como algo que se desse fora e contra a vida. A razão, por si só, não é suficiente sem a longa elaboração do entendimento e das fases mais fundamentais da intelectualidade humana. Fundada na intuição intelectual generalizadora, é ela sintetizadora e, por isso, falta-lhe o mais profundo papel poiético, criador.
Eis porque é vicioso o pensamento racionalista, que deseja partir do conhecimento racional tomado aprioristicamente. No entanto a razão atuando a posteriori, depois de dado o conhecimento analítico, funcionando em seu papel ordenador, classificador e sintetizador, realiza uma obra grandiosa. É esse o pensamento do empirismo-racionalista, que vem desde Aristóteles através da escolástica. É fácil compreender porque todas as tentativas de matematização da filosofia, que foram fundadas no mais cru racionalismo, tinham naturalmente de malograr por cair em construções inanes, vazias, porque a razão, atuando apenas em sua função abstratora, tende fatalmente ao esvaziamento das heterogeneidades, a ponto de atingir o ápice do abstratismo. É assim que a atuação meramente racional leva a tornar em nada todos os conceitos, quando racionalizados ao extremo.