Filosofia
(do gr. philos, amante, e sophia, saber). Diz-se que Pitágoras, perguntado sobre o que era, numa época em que muitos se chamavam de sophoi (pl. de sophos, sábio), respondeu: "Sou um amante do saber (philosophos), um amante do conhecimento, o que revelava uma humildade sublime." Deste modo, cunhou-se a palavra philosophia. Há um saber comum e um saber especulativo, procurado, buscado. O primeiro, o vulgar, chamavam os gregos de doxa, que significa opinião, e o segundo de epistéme, que é o saber especulativo, conforme a divisão proposta por Platão.
Desta forma, a filosofia não era apenas o saber, nem um amor à sabedoria, mas um saber procurado, buscado, guiado, que tinha um método para ser alcançado, que era reflexivo. A filosofia assim perdia em extensão, já que não abrangia todo o saber, mas ganhava em conteúdo, pois delimitava-se, precisava-se mais, tornava-se um saber teórico, reflexivo, especulativo, um saber culto, que quer conhecer o que a realidade é.
A filosofia, como saber racional, saber reflexivo, saber adquirido, é o conceito de Platão e de Aristóteles, mas este lhe acrescentou maior volume de conhecimentos. Para ele era todo esse saber e incluía, também, o que hoje chamamos ciência. Assim, era a totalidade do conhecimento humano, do saber racional. Na Idade Média continua predominando este sentido, mas a ideia central de Deus polariza a filosofia. Desta forma é ela a totalidade dos conhecimentos adquiridos pela luz natural ou pela revelação divina. Os conhecimentos acerca de Deus e do divino separaram-se dos outros e formam a teologia, que encerrava a soma dos conhecimentos sobre o divino; e a filosofia, os conhecimentos humanos acerca das coisas da natureza. No século XVII afastam-se dela as chamadas ciências particulares com objetos e métodos próprios, que a pouco e pouco vão adquirindo uma especialização cada vez maior, para constituírem-se em novas disciplinas independentes.
Mas a filosofia permanece, no entanto, no corpo da ciência e forma uma síntese específica desta. Por exemplo, na matemática há uma filosofia da matemática, que estuda as ideias de número, de extensão, de tempo e de espaço matemáticos, como há uma filosofia da físico-química, que tem por objeto as ideias de força, substância, energia, extensão, extensidade e intensidade.
O homem, quando começou a filosofar, fê-lo ainda sem saber claramente o que era a filosofia. Só a posterior análise permitiria que compreendesse melhor a diferença entre os juízos que formulava em face dos fatos. Só quando distinguiu um juízo de gosto, meramente subjetivo, de um juízo de valor, e este de um de existência e de um ético, poderia penetrar na significação mais ampla do que é "valor", como também estar apto a fazer uma melhor análise de seu espírito, do funcionamento do mesmo em suas polarizações intelectuais e afetivas. Alcançado este ponto, a análise do conceito e de seus conteúdos, do conhecimento como resultado de um processo de cooperação entre o sujeito e o objeto, levá-lo-á a captar o que é a frônese e seus conteúdos, os fronemas, como um "conhecer" afetivo, em que a relação sujeito x objeto é diferente da primeira.
Na filosofia ocidental, que é especificamente especulativa, marcantemente autotélica (de autos, gr., si mesmo, e telos, fim, isto é, que tem o fim em si mesma), a especulação é desinteressada, não tem um fim fora de si, não é realizada como meio para obter isto ou aquilo. Quando uma criança com argila faz bonecos, ela brinca (e o brinquedo é autotélico). Quando o oleiro com a argila faz vasos e os destina à venda, com finalidade econômica, sua atividade é heterotélica (de heteros, gr., outro, que tem o fim em outro). Sua ação é interessada.
Divide-se a filosofia em filosofia teorética ou especulativa e filosofia prática, que é dominada pelos valores, pelo axioantropológico, que traz a influência das apreciações humanas, valorizações e desvalorizações, que modificam a realidade. A primeira tende para o estudo objetivo, independente das influências axiológicas e dedica-se ao exame do real e do lógico. O real é examinado duplicemente: o real que ultrapassa os nossos meios de experiência sensível, os transfísicos, os metafísicos, e temos a metafísica fundamental, a crítica, na busca da verdade, a aporética, no exame das dificuldades teóricas, a metafísica especulativa ou ontologia, a henótica, a teologia natural, a axiologia, ciência dos valores e a timologia a ela subordinada, a meontologia, de nossa criação, e a teodicéia. No exame da natureza, temos a cosmologia anorgânica, a cosmologia biológica, zoológica, a antropológica, a noologia, a esquematologia, que pertence à psicologia especulativa ou metafísica. O estudo teórico e especulativo dos entes de razão ou lógicos, nos leva às seguintes disciplinas: lógica geral, dialética, totius logicae, lógica especial, como a da matemática, das ciências naturais, das ciências espirituais ou culturais, da simbólica.
A filosofia prática, de influência axioantropológica, é a que se dedica à ação humana, como a filosofia da religião, a ética, na qual se incluem a ética Geral, a ética especial, e também a ética individual e a social (sociologia). No exame das realizações humanas, da parte factiva do homem, nas suas atividades externas, temos a filosofia da cultura, e como disciplinas especiais, a filosofia das línguas, das artes (estética), da técnica, da economia, da moral, do direito, da educação, etc.