Finalidade do homem
Uma das mais exigentes perguntas que surgem constantemente ao pensamento humano é o da finalidade do homem. Como estabelecer essa finalidade, esse para que do homem, sem que primeiramente se estabeleça a sua origem? Se se parte da admissão da divindade, criadora de todas as coisas, cuja providência predispõe o surgimento do homem, a existência de um Deus criador e remunerador, logo nos indica os fins da vida humana, os quais são os determinados pela divindade criadora.
Essa é a resposta das religiões que, por sua vez, origina outras. E por que Deus criou o homem? As respostas nem sempre satisfazem aos que a propõem. Os que aceitam a existência de Deus, criador do homem, estabelecem que o fim deste é o próprio Deus. É dele que o homem parte e é para ele que deve retornar. Um ser infinito só pode ter a si mesmo como a razão de seu atuar. Deus é, assim, o fim último do homem. E argumentam: o Ser Supremo atua por sua própria natureza. Por ser infinito, é infinito o seu atuar, portanto não determinado nem delimitado por outro. A infinitude desse atuar não é uma delimitação da natureza, pois atua em toda a pujança infinita do seu poder. Limitação há nos seres que, por terem uma natureza finita, finito é o seu atuar. Estes atuam com a deficiência que lhes é própria, enquanto aquele atua com a proficiência que lhe é essencial. O Ser Supremo é o supremo bem. Dele provêm todas as coisas, que são suas criaturas, e a ele todas tendem. Consequentemente, também o homem. E, como este tem a consciência e o saber reflexivo, seu atuar livre deve procurar o maior bem possível, tendendo para o Ser Supremo. Para as posições religiosas, Deus oferece a felicidade do homem, porque só o Ser infinito poderia dar ao homem a plenitude da felicidade, porque só ele a tem.
Para os que não se colocam na posição religiosa, o fim do homem é dado por sua natureza. Realizar o racional em ascensão é o seu fim, pois é no homem que o cérebro alcançou o mais alto desenvolvimento, o que revela que a natureza, nele, tende para o reinado da inteligência, fato observável, não só na evolução animal até alcançar aquele, como no próprio desenvolvimento da vida da família humana.
Para outros, o fim que procura o homem é o prazer. Há o prazer sensível e o prazer intelectual. É inegável que o prazer exerce uma grande influência, mas é impossível explicar as ações humanas apenas pela busca do sensível, porque também há os intelectuais e espirituais. Psicologicamente considerado, ele surge da satisfação de uma tendência. Ora, as tendências humanas são várias e consequentemente vários são os tipos de prazer.
Para outros, a finalidade do homem é a perfeição, pois sendo ele um ser que atua, e pode distinguir entre o melhor e o pior, tende o homem a realizar o mais alto. É da natureza do homem tender para a perfeição. A ética humana é fundamentada nessa tendência. É na satisfação de todas as suas tendências que outros colocam o fim do homem. E a meta de todas elas é alcançar a paz, e apaziguar-se na felicidade. Mas a tendência tende ao objeto, e não ao prazer. Este surge da obtenção do objeto desejado. Há na felicidade um elemento objetivo, que é a meta desejada de alcançar ou de obter, e um elemento subjetivo, que é a consciência, o saber da posse.
Para outros, ainda, não cabe ao homem em vida encontrar a felicidade, e toda a sua finalidade está na contemplação do Ser infinito, de Deus. Só ele nos pode dar a felicidade absoluta, anelada espiritualmente pelo homem. E o caminho é o indicado pelas religiões.