Harmonia
(do gr. harmonia, ajustamento)
Implica essencialmente uma determinada correspondência de partes opostas, cujo relacionamento dá surgimento a algo especificamente oculto, a totalidade harmonizada. Essa totalidade, esse algo novo é, especificamente, o que subordina as partes opostas a uma normal, que é dada por ele. Deste modo nota-se a presença dos opostos que, para cooperarem na formação de algo especificamente novo é mister que em algo se analoguem.
Empregado, comumente, no sentido de combinação feliz, que obtém bom êxito.
Na estética, sensação produzida pela combinação simultânea de diversos elementos sensíveis.
Na música, a ciência do emprego dos acordes.
Harmonia para Pitágoras — Pitágoras foi o primeiro a usar o termo cosmos para indicar o universo ordenado. Do verbo kosmein, significa organizar, e se opõe a Khaos, o que ainda não foi ordenado, a possibilidade objetiva. A harmonia é "a unidade do múltiplo e a acordância do discordante", o que é manifesto em toda parte. Assim, o universo é harmônico, porque nele vemos o discordante acordar-se em uma normal que predomina. Não é o universo um feixe de perfeições absolutas secundum quid, mas de discordâncias que se acordam; é a multiplicidade pré-harmônica que se harmoniza. Os que combatem a concepção pitagórica fundam-se em falsos juízos, porque tomam como ponto de partida o que não é genuinamente pitagórico: consideram, como tal, que o universo é apenas a soma de coisas perfeitas. Ora, tal não é o ponto de partida, pois as coisas finitas são todas deficientes, e a deficiência implica o limitado e o ilimitado, pois onde há deficiência há limite e também o que o ultrapassa, o in-limite, o não-limite. Nenhuma coisa é perfeitamente limitada em sua espécie; mas há sempre algo que se des-limita, o que escapa ao limite. Por essa razão, a harmonização é uma combinação da multiplicidade, uma acordância do discordante, o que realiza uma nova unidade, especificamente superior. Pitágoras não afirmou a perfeição absoluta do universo, mas sim, a harmonização dinâmica e não estática, a perfectibilização vial do Cosmos; ou seja, que a perfectibilização é um estágio que perdura no fluir, mas que, por sua vez, flui num suceder mais lento, mas que revela uma acordância entre discordantes, uma simetria que implica sempre opostos analogados, porque a harmonização implica ao qual se harmonizam os pares (pois o par é a multiplicidade: e os muitos podem ser considerados como analogados aos pares de contrários). Assim muitos analogados a um logos e em face de muitos outros, mais ou menos numericamente analogados a outro logos, podem analogar-se entre si, como dois grupos contrários, a um logos que lhes dá a normal, à qual obedecem, e é o que realiza a harmonia. Onde há harmonia, há pois, contrários (oposição). Nos contrários, há um logos de cada um que se distingue, senão seriam idênticos e não há harmonia entre idênticos; há identificação. Vide Década. Ele exige ainda que os contrários tenham além de um logos contrário, ou pelo menos distinto, que os elementos componentes de um dos pares de contrários, analoguem-se entre si, ou que tenham, em certo aspecto, um logos que os identifique, formalmente, sob esse aspecto, por exemplo alguns homens que se analogam como soldados de um grupo, como combatentes de um grupo e, como tais, se identificam, apesar das diferenças, das heterogeneidades que os distinguem entre si. Mas funcionalmente se fusionam num logos, que aponta a funcionalidade do grupo. No grupo contrário há a mesma funcionalidade e uma analogia correspondente. O combate entre os grupos os analoga num logos, que é o embate entre forças adversas, em que uma busca prevalecer e dominar a outra. Há, assim, no combate, uma harmonia. Nele há uma acordância de discordantes. As partes atacam e defendem e, apesar da variância das posições e das atitudes, ambas se analogam, no mesmo logos da batalha, como batalhadores, como combatentes, com fins idênticos e idênticas funções, tomadas apenas formalmente. Assim, onde há a discordância, há harmonia sob certo aspecto e como no Cosmos as coisas, por mais discordantes, se analogam a um logos, são os contrários analogados e obedientes a uma normal (a normal, a norma). Há sempre sob um aspecto, harmonia e, sob outro, desarmonia. Examinados os aspectos desarmônicos nele encontramos, por sua vez, outros aspectos harmônicos. Desse modo o universo (Cosmos) revela-nos uma alternância, mas também a presença da harmonia-desarmonia, ou melhor, da acordância-discordância, pois como haver acordância sem discordância, harmonia sem opostos? O conceito dialético de harmonia, para o pitagorismo, implica portanto uma dinâmica, e não uma estática apenas. Visto apenas estaticamente, leva às confusões costumeiras, mas considerado em sua dinâmica, torna-se compreensível o que afirma. A lei dos opostos é uma lei universal (lei do dois), que rege não só mundo físico (alternância, freqüência, oposição, contrariedade, antinomia, antagonismo, etc.), mas também o mundo antropológico (filosófico, ético, social, etc.). Toda a concepção pitagórica funda-se na cooperação dos contrários, que se dão no mundo criatural, a contribuição entre o limitado (peras) e o ilimitado (ápeiron), ou seja, na teoria das oposições. Mas essas oposições não implicam um dualismo principial absoluto, pois é o Um, como absoluta unidade e unicidade, que antecede a todas as coisas, mas sim, o dualismo criatural, pois o fazer implica o ser feito, o criar implica a atividade criadora e a criatura, o crians e o criaturus, o criante é o ser criado, pois no ato há o que determina e o que é determinado, já que ser finito implica para ser, um ato delimitante e algo que é delimitado. Daí Pitágoras citar o Outro. Mas esse outro (alter), cuja origem etimológica é obscura, implica o que não-é-antes de o que é, pois, ao fazer-se alguma coisa, é implicada a paridade e, consequentemente, o dois, pois como se poderia fazer algo sem que algo seja feito? O fazer implica o ser feito, o criar o ser criado, criatura. O Um Supremo não implica um outro além e fora de si para ser, mas a criatura o implica, pois ela não é um ser que tenha em si mesmo a sua última razão de ser. E, consequentemente, sendo ela dependente, produto de um operar, nela se dá a operação, que é a criação. O operado implica o operante, pois como o que é feito poderia ser feito sem o que o fez? A criatura implica sempre um outro. E o devir, para exemplificar, implica o outro, pois como poderia haver o fluir das coisas sem o outro, pois o fluir é ser sempre outro que o que antes era? Onde há dinamismo, onde há fluir, há sempre um outro, mas também o que perdura, pois se, no fluir, não houvesse o perdurante, mas apenas o outro, o ser que flui nunca seria de modo algum, e o fluir desvanecer-se-ia no nada, seria apenas nada. Para que algo flua, tornando-se outro, é necessário que algo em si permaneça. Tornar-se outro é, de certo modo, permanecer sendo o que é em parte, e em parte deixando de ser o que era para ser o que ainda não era de certo modo, mas que é agora, assim sucessivamente. O devir é, pois, dual e, consequentemente, implica a díada da permanência e da não-permanência, do limite e do ilimitado. O devir é, pois, um número (arithmós), porque há nele paridade e imparidade. Há, assim, uma parte imutável (relativamente), e uma parte mutável (relativamente), mas a primeira implica uma parte eterna, porque se a imutabilidade não fosse formada de uma eviternidade e de uma temporalidade, ela se desvaneceria no nada. E é fácil dialeticamente alcançar-se este ponto, pois, se a imutabilidade fosse apenas relativa, a imutabilidade secundum quid deste ser, especificamente hoc (em sua istidade, apenas isto), sendo essa ainda transeunte, então o que é desvanecer-se-ia em o nada. Mas o que deixa de ser isto (hoc) não deixa absolutamente de ser. Há um retorno a uma primitividade de ser, pois o que deixa de ser o que especificamente é, deixa de ser o que é, e não se torna num nada absoluto. Consequentemente deve haver, atrás de todas as coisas, algo eviterno, algo que dura eviternamente. O mesmo pode-se estabelecer na análise da mutabilidade, que também não pode ser absoluta, pois desvanecer-se-ia no nada. Como conseqüência, pode-se estabelecer a seguinte classificação: a imutabilidade criatural é imutável-mutável, e a mutabilidade é mutável-imutável. A presença dos contrários impõe-se sempre para uma visão clara das coisas. Por isso para o pitagorismo, o conhecimento implica sempre uma dualidade cooperadora; e não só o conhecimento, mas também todo existir cultural. O Um Supremo é, assim, a transcendência dos pares de contrários, e para alcançá-lo, temos de superar as oposições. Portanto, a superação da oposição só se pode obter, e só há transcendentalmente, no Um Supremo, e não nos seres finitos. Nestes há harmonia, a combinação dos contrários, a acordância do discordante, o número, porque onde há o múltiplo há o número (arithmós). Os seres finitos, quando deixam de ser o que são, retornam à primitividade do fundamento (hipokeimenon) criatural, que é o aither (éter) para Pitágoras, que assegura a coesão contínua do ser criatural em sua fonte, ilimitado-limitado, indivisível, permanente, indissolúvel. A natureza da alma, para ele, é eterna. Esse éter é também a alma-do-mundo, citado depois pelos platônicos-pitagorizantes e os neo-pitagóricos.