Forma
(do gr. eidos, idea, morphê, ousia, to ti en einai, to ti esti)
Refere-se ao pelo qual uma coisa é o que ela é, não o de que uma coisa é. A resposta à pergunta quid, o que é a coisa, a qüididade da coisa, é a forma. Ao perguntarmos que objeto é este que temos às mãos, responderemos é um livro, que assinala o pelo qual (quo) este objeto é o que ele é. A pergunta mais importante é saber-se em que consiste a forma. Foram dadas várias respostas:
1) A pitagórica é que ela é um arithmós, um logos (razão, lei, princípio), que é a lei de proporcionalidade intrínseca das coisas. Uma coisa possui em sua intrinsecidade uma estrutura interior, que é a disposição das suas partes em proporção (proportio = relação) com as outras, a sua forma. Pensamento encontrado nos primeiros diálogos platônicos como em Eutífron, onde surgem os termos idea e eidos num sentido específico. Já eram usados pelos pitagóricos na sua matemática, no sentido de padrão geométrico ou figura.
2) Segundo Aristóteles Platão dava às formas (eide) a mesma espécie de função que os pitagóricos emprestavam aos números, tendo ele, no fim de sua vida, identificado aquelas com os números. Entretanto é preciso não esquecer que número (arithmós) para Pitágoras, não era apenas o da matemática comum, abstração da quantidade. Quando Sócrates pergunta pelo "que a virtude é", procura o seu logos, a sua razão, o seu eidos, a sua forma. Ele quer a estrutura ontológica do conceito, não as coisas que manifestam dele participar, não quer as coisas virtuosas, mas a virtude; não quer as coisas belas, mas a beleza, como em Hípias. E expõe, em suas linhas mestras, os primórdios de sua teoria das Formas no Alcibíades, em Cármides, em Laques, enfim em todos os diálogos que precedem a Parmênides. Como salienta Ross, o primeiro grupo de Formas, nas quais Sócrates professa uma crença firme, consiste em formas, como a da semelhança, unidade, pluralidade. Um segundo grupo é formado das Formas-valores, como justiça, beleza, bondade, etc.
3) Para Aristóteles, a forma opõe-se à matéria, a qual é por esta informada; é por ela que aquela se torna isto ou aquilo especificamente. Eis um vaso de barro, cuja matéria é barro, mas é um pouco de barro informado por algo, pelo qual (quo) se torna vaso, a sua forma.
4) Esse conceito passou para escolástica, onde recebeu algumas modificações. Para autores modernos forma acabou confundindo-se com figura. Emprega-se também para indicar as seleções das partes componentes da ordem de uma unidade, tomada especificamente.
No sentido de estrutura psíquica, vide Gestalt.
Crítica da idéia da forma em Platão e Aristóteles
A forma é o princípio do ser e princípio do agir (principium essendi et agendi). Ela não age propriamente, mas é o princípio ativo, porque a ação se realiza segundo a forma e é proporcionada a ela. É a forma que causa a qüididade de uma coisa, pois essa coisa é o que é pela forma (quo). A forma é a razão da coisa (ratio), princípio de sua natureza. É o fim da matéria da qual se distingue a ratione (por razão), pois não é separada da matéria, da qual se distingue, matéria secundum rem (segundo a coisa). Na geração, o terminus ad quem (o termo para o qual tende) é a forma, pois o que é gerado o é ao adquiri-la. Antecede a matéria como razão, mas desta não é, para Aristóteles, fisicamente separada. A forma está contida em potência na matéria. A figura é a quantidade determinada pela qualidade, enquanto a forma é a razão intrínseca dos entes. Seres de figuras diferentes podem ter a mesma forma, como as figuras triangulares diferentes que tem a mesma forma da triangularidade. Diz-se que uma coisa é desta espécie porque tem a forma desta espécie. Portanto a forma é pelo qual esta matéria é isto e não aquilo. Considerada a matéria, enquanto tal, ela seria indeterminada quanto à forma adquirida, e tornou-se a matéria de, pela funcionalidade da forma. Poderíamos dizer que um monte de barro, enquanto barro, não é ainda um vaso, senão quando recebe a forma do vaso, graças à causa eficiente que o modela. E nesse momento o barro passou a ser um vaso, pela forma que recebeu. A forma não é propriamente um o que (quod), que se agregou ao barro. Apenas este, como matéria, foi modelado, recebendo uma proporcionalidade intrínseca, assumido assim pela forma de um vaso, sem que propriamente tivesse ele aumentado ou diminuído quanto à sua matéria, mas apenas recebeu delimitações, pelas quais deixou de ser apenas um mero monte de barro para ser um vaso-de-barro. Neste de-barro, temos o que Aristóteles chamava a causa material; na forma que recebe de vaso, a causa formal, e na ação do homem que o modelou, a causa eficiente. A forma, portanto, não tem uma substancialidade quando tomada isoladamente pelo nosso espírito que a abstraiu, segundo o ponto de vista aristotélico, como também segundo o tomista, da coisa, na qual ela estava informada. Consequentemente, a expressão de Tomás de Aquino de que é "através dela" que alguma coisa é, fica, nesta posição filosófica, perfeitamente esclarecida. Podemos examinar o pensamento platônico, permanecendo ainda neste exemplo que, no entanto, permite clarear os horizontes que delimitam as duas doutrinas. Antes de haver surgido feito pela mão humana, o primeiro vaso de barro, a forma vaso não era um mero nada, porque se o fosse nunca poderia ter-se tornado existente no barro. (Nunca é demais salientar que não se deve confundir a forma com a figura. No exemplo, sendo o vaso um ente da cultura, sua forma pode confundir-se com a figura, que é uma determinação qualitativa da quantidade. Mas um ser da natureza tem uma forma; por isso o exemplo é grosseiro, mas serve para esclarecer). Mas a forma, tomada em si, não tem materialidade; portanto não é captável pelos nossos sentidos, não é um fenômeno que surja aos mesmos. Neste ponto, todos estão plenamente de acordo. Mas o que caracteriza o pensamento platônico está nesta distinção, que é capital: a forma, se não é do mundo da aparência, é, pelo menos, do mundo da inteligência, pois pode ser captada intelectivamente, permitindo que pela abstração realizada pelo nosso intelecto possa ser tomada à parte. Neste ponto, ambos estariam de acordo. Surge, agora, o momento em que ambas doutrinas se separam: é que antes dessa informação da matéria, isto é, que antes do barro ter recebido a forma do vaso, esta forma, se não pertence ao mundo da aparência, não pode, por sua vez, ser reduzida a um puro nada, pois do contrário, essa certa quantidade de barro e a forma de vaso ou outra qualquer seriam idênticas, o que repugnaria ao nosso espírito. Considerando assim, ela não pode ser classificada como um puro nada, mas sim, como alguma coisa, portanto como uma entidade, diversa da matéria, uma entidade formal no sentido do eidos de Platão, isto é, como um ser de outra ordem, que não a da materialidade; em suma, um ser imaterial. Se o barro pode receber a forma de um vaso, então temos que reconhecer que o barro tinha a possibilidade passiva de recebê-la. E poderíamos dizer que o que constitui o barro, a matéria que está no barro, já continha em si, na sua emergência, a potência passiva de, por sua vez, receber a forma do barro. E como não poderíamos ir assim até o infinito, e encontraríamos o ser, temos de admitir que, no ser, há a aptidão para apresentar-se com todas as formas que já surgiram, que surgem, e que acaso venham a surgir. E essas não vem de modo algum do nada, porque já estão contidas na aptidão do ser. O que as temporaliza são os momentos em que elas informam a matéria, mas enquanto formas elas são coeternas com o ser, e subsistem nele. E como não tem elas a menor materialidade, não tem também ubiquação no espaço nem no tempo e, deste modo, não se pode pedir um lugar (pois esse conceito implica espaço), onde estejam as formas, mas sim, subsistem elas no mundo-verdade, que é o mundo divino do ser. Esse é o genuíno pensamento platônico.