Felicidade
Verificamos que há possibilidades que atualizadas seriam melhor sendo do que não sendo. Há assim as que, atualizadas representam um bem maior, pois a marcha gradativa do homem para o seu bem, realizando suas possibilidades é melhor que não realizando-as. O homem é um captador de valores e sobre eles especula. A filosofia prática (da ação, do drama humano) move-se no campo axiológico (dos valores), porque estão sempre presentes em todos os juízos, pois neles há um preferir e um preterir. E onde há uma preferência, há a presença de um valor, pois o preferido vale mais (de valore, ser saudável, conveniente, forte) para o preferente do que o preterido.
Tendo o homem consciência de que há possibilidades, cuja atualização é melhor do que a não atualização, pode especular sobre os valores éticos, valores que tem de realizar para aumentar o seu próprio valor ou não tem de realizar para não diminui-lo. Tendo consciência de seu bem, e como o apetece por natureza, tem de (de habeo, debeo, dever) procurá-lo e esforçar-se por alcançá-lo. E como essa procura se dá dentro de uma ordem mais eficiente e capaz, a marcha para alcançar os valores éticos mais altos revela normas, que devem ser seguidas, obedientes a uma verdadeira economia da atividade ética, pois o homem como todo ser é guiado pela lei do bem: maior bem pelo menor esforço. As normas que surgem da iminência da própria marcha pela procura do bem são as normas éticas e a sua obediência garante um caminho mais seguro. Há vários caminhos para alcançar-se alguma coisa. Mas há os que são mais favoráveis e os menos favoráveis. Como a felicidade é o fim principal que dirige o homem, os melhores caminhos são os que de modo algum a viciam, nem lhe criam empecilhos. E esses só podem ser a prática do bem, porque só ele pode gerar o bem. Assim há normas éticas que indicam o caminho (método) mais consentâneo para a conquista da felicidade humana.
Como se deve distingui-la do bem-estar, muitas vezes confundidas, devemos considerar este apenas como a satisfação das necessidades meramente corpóreas do homem. Tendendo à felicidade para a satisfação de todas as tendências e aspirações humanas ao bem, perpetuamente, com isenção de todos os males, o bem-estar inclui-se, de certo modo, em seu âmbito. E como não são conciliáveis todas as classes de bens, o anseio que leva à felicidade, como satisfação de todas as aspirações e apetites, não podemos consegui-lo dentro dos nossos limites naturais. Não podemos conquistar a plenitude da felicidade, dadas as nossas atuais condições, pois somos imperfeitos e deficientes, como ainda são os bens muitas vezes, entre si, incompatíveis, bem como há males que são deles inseparáveis. Pode o homem alcançar, assim, um bem-estar, um conforto em sua vida material, e não a felicidade como plenitude.
De certo modo, o bem-estar contém-se no âmbito da felicidade, mas ambos se distinguem suficientemente. As normas éticas indicam o caminho e, por isso, regulam também a conquista do bem-estar, pois este seria eticamente repugnante se contra elas atentasse. O bem-estar é, portanto, uma relativa satisfação das nossas aspirações e a sua conquista favorece o progresso técnico e material do homem, enquanto o prosseguir no caminho indicado pelas normas éticas, para a conquista da felicidade, favorece o progresso moral e a alcançar a quietude do espírito, a paz da consciência, sobre a qual se fundamenta a verdadeira felicidade. Felicidade e bem-estar são distintos e a confusão entre ambos tem trazido graves consequências para a humanidade.