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Eu

Eu

(do lat. ego)

Há uma distinção entre a própria realidade e o conhecimento da realidade. Por que se dá tal fato? Porque a reflexão desdobra a realidade em duas partes, e opõe uma à outra, às quais chama de sujeito e objeto. Ao sujeito, ser cognoscente, ser que conhece, se atribui uma existência autônoma. É o Eu, oposto ao não-Eu, que, neste caso, é o objeto. Essa oposição é primária. Mas uma simples reflexão nos mostra, desde logo, o errôneo dessa oposição, dessa desconectação do processo universal, dessa maneira abstrata de tratar esse dualismo, tornando‑o um dualismo antagônico. Ora, só se concebem o sujeito e o objeto numa relação recíproca. Seu antagonismo é puramente antinômico, correlativo, pois um não pode existir sem o outro. Se tirarmos um termo dessa dualidade, o outro desaparece. Um sujeito isolado, sem objeto, não existe. No conhecimento, um não se pode compreender sem o outro, pois não há um conhecimento sem objeto, nem um conhecimento sem o sujeito cognoscente. A negação do objeto dá‑se na posição solipsista, de Berkeley, que nega em termos a existência real do objeto para afirmar apenas a do sujeito. Mas esta ainda concebe que seus pensamentos seriam ainda objetos de seu pensar. Na psicologia estuda‑se o desenvolvimento do Eu. A criança, ao nascer, desconhece o mundo exterior. Mas a pouco e pouco dá forma ao ambiente pelas percepções e, concomitantemente, vai tomando consciência de si mesma. Temos, então, a cisão entre ela e o mundo exterior. Eu + não-Eu. Mas o Eu não vive independentemente do não-Eu. Há uma compenetração que se forma através das múltiplas trocas entre o organismo humano e o meio ambiente. A filosofia conhece aqui uma problemática que podemos sintetizar com as seguintes perguntas: Há compenetração? Até onde ela se processa? Há influxo recíproco? Podem realmente influir‑se? Problemática que tem levado a grandes debates na filosofia, penetrando em vários terrenos, como o da psicologia, o da sociologia, o da ontologia, o da dialética, etc. Tem o Eu uma existência autônoma? Opõe‑se o Eu ao não-Eu? Tem fundamento o chamado dualismo antagônico? Essa expressão tem um valor muito relativo, pois nunca sabemos onde termina o Eu e começa o não-Eu. Vê‑se, na psicologia, que a separação entre o Eu e o não-Eu é uma separação lenta, que chega até a desdobrar o próprio Eu em seu objeto, como quando conhece a si mesmo.

A reciprocidade que se verifica na interatuação de um sobre o outro modela a imagem do não-Eu formada pelo Eu. Quanto à separabilidade total do Eu e do não-Eu é uma problemática das mais debatidas na filosofia e que se sobressai na obra dos ascetas e dos místicos, na metafísica, no conhecimento da essência do Ser, etc.

No conhecimento não há objeto sem sujeito. O ser objeto implica o sujeito. Portanto, podemos colocar‑nos em uma dessas duas posições: 1) existência do sujeito e do objeto; 2) existência do sujeito apenas. Neste último o sujeito é tudo. É a posição do solipsismo atribuído a Berkeley (do lat. solus e ipsis, só e si mesmo: afirmação apenas de si mesmo). O conhecimento, a apreensão do não-Eu pelo Eu, provoca cinco respostas, que procuram resolver o problema do conhecimento.

1)

A resposta empírica: o Eu é uma tábula rasa, sobre a qual a matéria percebida, o objeto, grava o que se chama conteúdo da experiência. A consciência é passiva, e o não-Eu atua sobre ela. O conhecimento é o produto da experiência. No sentido usado pelos empiristas, conhecer consiste geralmente no fato e no resultado de sentir, de sofrer ou receber alguma coisa, que se incorpora ao conjunto das experiências anteriores. É esta a posição de Bacon, de Locke, de Hume. Para eles o saber depende da experiência.


2)

A resposta dos racionalistas aprioristas: o sujeito cria o mundo exterior; não depende da experiência. Assim a criação de figuras geométricas que não existem no mundo exterior; os seres irreais. Essa resposta admite duas posições: a) uma posição extrema, a do solipsismo, em que o Eu é o criador absoluto do mundo exterior; b) uma posição moderada. Esta afirma que o decisivo no conhecimento é o Eu; isto é, certas leis comuns a todos os homens, desde o início, inatas no Eu, isto é, não nascidas, mas já estabelecidas, pertencentes ab initio (desde o princípio) ao Eu. São, por exemplo, os conceitos necessários como o de substância (pois alguma coisa deve haver de persistente na mutação) e o de causalidade (tudo tem uma causa), etc. A posição dos moderados é defendida por Descartes, Spinoza, etc. Da primeira temos Leibniz que declara que o sujeito cria o mundo exterior.


3)

A resposta criticista: as fontes do conhecimento são, para os empiristas, a experiência e o objeto; para os racionalistas‑aprioristas, a razão. No primeiro caso, o sujeito apreende o objeto; no segundo, o sujeito apreende o sujeito e cria o objeto, é a posição dos extremados solipsistas, etc., ou o sujeito apreende o sujeito e o objeto, que é a dos moderados. Kant, em face dessas distinção, procura conciliar as duas soluções pela crítica: Temos o sensível e a razão; o objeto e o sujeito. Não há contradição entre ambos; mas sim uma síntese. A experiência e a razão são equivalentes. O conhecimento começa com a experiência, mas modela‑a. Temos um livro à nossa frente. O vemos, tocamos, etc. Não é tudo; não esgotamos com isso o conhecimento do livro, senão o sujeito seria apenas um aparelho fotográfico. Refletimos sobre o livro, pensamos sobre ele; reunimos as percepções, mentamos um conceito que chamamos de livro, que não é formado apenas das percepções; é algo modelado. Nesse trabalho entram as categorias e elas modelam o conhecimento, pois todo conhecimento racional é também categorial (e conceptual). Essas categorias são conceitos necessários, que são dados antes, a priori, à percepção do objeto. Assim, ante o livro, refletindo sobre ele, dizemos que é grande, que é grosso (quantidade), que é interessante, que é uma totalidade, que é verde, que é uma obra de valor. Desta forma, para Kant, o conhecimento é empírico e racional, isto é, o objeto é modelado pelo sujeito na sua representação, mas também interfere no sujeito, aumenta‑lhe as experiências.


4)

A resposta dos místicos. É o conhecimento por visão interior, em que a vivência é tomada com afetividade. Os místicos afirmam o conhecimento místico, esse penetrar no Absoluto, através da intuição imediata, direta, no que está além do fenomênico.


5)

A resposta empirista‑racionalista de Aristóteles e dos escolásticos. Para estes o Eu se afirma pela experiência, no sentido dos empiristas em geral, e o conhecimento se processa pela captação dos phantasmai, dos fantasmas, imagens das coisas. Mas o intelecto humano trabalha sobre esse material bruto e, por abstração, alcança a conceitos de primeiro, de segundo e de terceiros graus, construindo, assim o conhecimento sob seus diversos aspectos.

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