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Espaço

Espaço

(do lat. spatium). É a capacidade de receber os corpos sem qualquer limite. Não é o espaço concebido como um corpo, mas distinto de todo corpo, pois os recebe. Este tem sido o seu conceito mais comum.

Para os escolásticos, como para Aristóteles, o espaço absoluto é um ente de razão (ens rationis), cuja única objetividade, enquanto tal, está no intelecto, e não extra‑mentis, como um grande e infinito vazio, como o concebem alguns filósofos. É impossível conceber‑se a idéia de espaço com precisão objetiva, separando‑o totalmente de tempo (vide).

Para os racionalistas‑realistas, como Descartes, Spinoza e Newton, o espaço é a extensão e é concreto, pois é da essência dos corpos. Pode conceber‑se que um corpo perca o sabor, o odor, a cor, mas impossível perder a extensão. O espaço intercalar entre os corpos é também real‑real para os realistas. Apenas lhe falta o movimento. Não há, para Descartes, o vazio. O espaço é um ser que enche tudo. Parece‑lhe infinito, mas é possível que Deus o tenha limitado, pois Deus pode tudo até o que não compreendemos. Prefere chamá‑lo de indefinido, e não infinito.

Quanto ao tempo, Descartes deixou de dar‑lhe o mesmo valor existencial que deu ao espaço. Duvidou que fosse o tempo um ser como aquele.

Newton procurou dar ao tempo e ao espaço um ser, mas subsistente em Deus, substância das substâncias. “Deus dura sempre, e está presente em toda a parte, e existindo sempre, e em toda a parte, ele constitui o espaço e o tempo.”

O espaço e o tempo, infinitizados pelo racionalismo, na sua concepção sempre quantitativa do infinito, para fugir às aporias que surgem de uma quantidade e de um tempo infinitos, emprestou tais atributos a Deus, julgando que, desta forma, resolveria claramente o problema. A quantidade infinita nunca se afasta das suas famosas aporias, é um número inumerável, a metade é igual ao todo, porque a metade do infinito só pode ser infinita, etc. Além disso, se o espaço é a extensão, e a extensão é propriedade; ou melhor, essência dos corpos, como explicar o movimento, que a ciência pode medir e afirmar?

Os idealistas reduzem o espaço e o tempo a meras representações do nosso espírito, como o fez Leibniz. O tempo é o local das sucessões possíveis, enquanto o espaço é o local das coexistências possíveis. A extensão e a duração separadas das coisas são conceitos abstratos, e nada lhes corresponderiam, seriam apenas nada, se tal separação se pudesse atualizar na realidade física. Chegados aqui, os idealistas, compreendendo que o espaço e o tempo são meios destinados a receber as coisas possíveis, tenham a realidade que tiver tais possíveis, e como são meras representações do espírito, eles nada mais são que meras idéias.

Santo Agostinho também não duvidava da realidade do espaço, mas afirmava a idealidade do tempo.

Kant deu ao tempo e ao espaço um caráter idealista, como formas puras da sensibilidade, como esquemas acomodados.

Para os realistas modernos, a extensão ou o espaço concreto, e a duração ou o tempo concreto, não são propriamente uma substância, são tanto o tempo como o espaço entia quibus do ente, categorias da relação dos entes. O espaço é a relação de distância entre os corpos; e o tempo a relação da sucessão entre os fenômenos. Sem corpos, não há espaço, nem tampouco tempo. O realismo confunde‑se em parte com o idealismo leibnitziano, pelo menos na aceitação da ordo coexistentiarum e da ordo successivarum, pois toda ordem é resultado de uma relação.

Na negação do movimento, conhecemos os famosos argumentos de Zeno de Eléia. Partindo da tese de que o espaço é indefinidamente divisível, apresenta o argumento chamado de Aquiles e a tartaruga. Aquiles nunca alcançará a tartaruga se lhe der uma vantagem, pois no momento em que alcance o ponto de partida daquela, já terá ela avançado mais um certo espaço. Alcançado este, ela estaria à frente, e como todo espaço é divisível, nunca chegaria a alcançá‑la. Partindo de que o espaço é composto de pontos indivisíveis, ele formula o argumento da flecha que nunca alcançaria a meta, o alvo, pois em cada instante estaria num ponto da sua trajetória e, consequentemente, estaria imóvel. Os seus argumentos tornaram‑se famosos. Partem da aceitação de que o espaço é composto de pontos, divisíveis ou não, o que, propriamente, não é da concepção do espaço, que é dado como homogêneo, como um todo, portanto sem qualquer fundamento para a colocação de Zeno de Eléia, dispensando, desde logo, toda e qualquer argumentação em contrário.

Pondo de lado as diversas concepções sobre o tempo, que a psicologia pode estudar, como o tempo subjetivo, o que nos interessa é o tempo objetivo, o tempo das coisas, o tempo cronológico, o tempo astral, o tempo cósmico, cujos nomes são vários, mas todos querem refletir‑se à sucessão dos acontecimentos. Mas esse tempo objetivo não é percebido em si mesmo, mas no movimento que permite medi‑lo. O tempo flui, escoa‑se, sem que o captemos como tal. E nem poderíamos captá‑lo, salvo se fosse subsistente, quando na verdade não passa de um ens entis, que se revela na variância das relações dos modos de ser, das relações entre si e das modais. Por isso é o tempo relativo à posição de quem o mede, como é relativo ao próprio movimento que o revela, modal que é símbolo do tempo. Mas o movimento como símbolo não é o tempo, embora lhe seja análogo, como todo símbolo.

Se vemos por uma luneta as grandes galáxias, sabemos que sua luz leva milhares de anos para vir até nós. Se uma estrela, que hoje contemplamos, oferece‑nos a luz de alguns séculos atrás, esta tem agora quinhentos anos. Neste momento nos contemporaneizamos com séculos atrás, e reverte‑se o tempo daquela estrela para nós, pois aquela luz era de quando Colombo atravessou o Atlântico à procura das Índias. Mas, na verdade, a imagem da luz é do nosso tempo, agora, não do tempo da estrela, que se tornou relativo a nós em 500 anos de atraso. Porque neste instante considerado como duração, naquela estrela, está sendo emitido um jato de luz que os homens, que nos sucederem, recebê‑la‑ão daqui a quinhentos anos. Portanto, neste momento, coexistimos não só com aquela estrela, mas com todo o ato universal, e neste momento, mas só neste momento, e só compreendendo assim, vencemos a limitação do tempo das coisas no seu relacionamento, para considerar um tempo, além do tempo, que seria uma temporalidade pura que sentimos evidente para nós.

Eis‑nos em face de um obstáculo a considerar: o tempo apenas como relativo ao espectador. Mas poderíamos considerá‑lo também dialeticamente, como temporalidade pura e como relatividade. Mas esse tempo, que se simultaneiza no tempo, é o espaço que há no tempo. Eis mais uma prova da inseparabilidade dialética do complexo tempo‑espacial. O tempo é simultâneo no espaço, o espaço é sucessivo no tempo. Pois é simultâneo conosco, neste momento, o espaço daquela estrela e o do nosso planeta; e essa simultaneidade do espaço, permite‑nos homogeneizar o tempo numa temporalidade pura.

Então concluamos: o espaço puro é a homogeneização da extensão; o espaço concreto é a heterogeneização da extensão na heterogeneidade do tempo; o tempo puro (como temporalidade) é a homogeneização do tempo, ou espacialização do tempo; o tempo concreto, objetivo, é a temporalização do espaço e a heterogeneidade do tempo.

Para a ciência o espaço é relativo. “Ninguém nunca viu um lugar a não ser num certo tempo; nem um tempo a não ser num certo lugar. O espaço em si e o tempo em si devem descer do reino das sombras; somente sua combinação conserva uma existência independente” (Minkowsky).

A aceitação de um tempo e de um espaço relativos leva a aceitar dialeticamente o absoluto. O relativo implica um absoluto, pois há relação entre o ser e suas distinções. Para Eddington: “É um erro geral acreditar que a teoria da relatividade de Einstein afirme que todas as coisas são relativas. Na realidade, ele diz: Há, no mundo, coisas absolutas; mas é preciso que as procuremos com cuidado. As coisas que primeiramente se apresentam ao nosso entendimento são, na maior parte, relativas.”

Dialeticamente: tempo e espaço são inseparáveis do existir finito, pois nele se identificam realmente. O universo é uma unidade e a ordem do numeroso implica a simultaneidade dialética e antinômica de um diferente e de um semelhante, de uma multiplicidade numa unidade homogênea‑heterogênea, monopluralista.

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