Atomismo
Teoria segundo a qual a matéria está formada por átomos. Dá-se esse nome à doutrina sustentada por Demócrito, Epicuro, Leucipo e Lucrécio de que o todo é composto de átomos, que se movem no vácuo. São isoladamente imperceptíveis pelos órgãos dos sentidos, e só podem ser conhecidos pela razão, o atomismo adinâmico.
Também empregada na teoria do atomismo corpuscular da matéria de Boyle e de Dalton, o atomismo dinâmico.
Usada por extensão em expressões como:
1) atomismo matemático ou pitagórico, doutrina que afirma a composição da matéria por pontos inextensos, considerados como centros de força (pontos de Boscovich);
2) atomismo metafísico, o monadismo de Leibniz. (vide Mônada):
3) atomismo psicológico, doutrina que afirma reduzirem-se todos os fenômenos psíquicos, em última análise, a combinações de elementos simples.
Brunschwicg é de opinião que devemos empregar a expressão atomística (subst.) para a física dos átomos, no sentido da teoria corpuscular da matéria, que já perdeu o sentido original de elemento indivisível e absoluto da concepção grega, e atomismo para o sentido metafísico dos átomos, no sentido do atomismo grego.
Historicamente no século XVII apareceram diversas tendências precursoras da atual teoria física dos átomos: Claude Bérigard se opôs à física aristotélica e a substituiu pelo atomismo qualitativo, Jean Magnis renovou a doutrina democrítica culminada por Gassendi. A tendência da filosofia é para um atomismo dos temas, que são desassociados, examinados em suas constituições qualitativamente mínimas para melhor coordenação com uma concepção geral do universo.
Atomismo adinâmico e dinâmico — Uma das concepções que tentam explicar o princípio de todas as coisas é o atomismo. Podemos considerá-lo como adinâmico (puro) e como dinâmico. O primeiro é o atomismo clássico de Moscos, Leucipo, Demócrito, Epicuro e Lucrécio. O segundo é o de Bacon, Descartes, Newton, Dalton, e das concepções modernas. Para o primeiro, a matéria universal é composta de corpúsculos, de uma ou de várias espécies, insecáveis, isto é, impartíveis, átomos. Esses não têm uma origem em outro ser. São existentes de per si, de per si subsistentes, e sempre existiram. A diversidade, a heterogeneidade dos corpos surgiria das diversas figuras que formariam estes corpúsculos em suas múltiplas combinações. Para o atomismo dinâmico, como por exemplo o exposto por Proust e Dumas, a matéria prima de onde se originariam todos os átomos é o hidrogênio, e segundo as diversas condensações do átomo de hidrogênio surgiriam os outros. Por esta teoria, a vida intelectiva e a sensitiva reduzir-se-iam à mecânica. O universo seria explicável mecanicamente. A espécie seria resultado das combinações mecânicas dos corpúsculos. Estes, por terem corporeidade, seriam extensos, resistentes, impenetráveis, com massa e peso. Todos os fenômenos seriam explicados pelas vibrações e ondulações dos conjuntos atômicos.
O atomismo adinâmico ou atomismo puro é ontologicamente falso e predominantemente aporético, pois em vez de solucionar as dificuldades, aumenta-as, multiplica-as. Em primeiro lugar, parte da impenetrabilidade dos átomos, isto é, de sua solidão. Subitamente, sem uma razão suficiente, os átomos põem-se a formar combinações figurativas, depois de passarem um tempo sem princípio, mantendo-se em suas primitivas posições. Neste caso, teríamos de admitir que os átomos tinham a aptidão, desde todo o sempre, de se combinarem heterogeneamente com outros, o que os tornaria híbridos de atualidade e potencialidade. Não havendo uma causa eficiente que os movesse às suas combinações, seriam eles autônomos, espontâneos e semoventes. Neste caso, neles se distinguiria o ímpeto para o movimento e o móvel, os quais se dariam neles mesmos. Deixariam, portanto, de ser simples para serem compostos de ato e potência. Para os que admitem diversas espécies de átomos, ainda teríamos a composição de forma e matéria, pois seriam eles de uma matéria diferente da forma. E, neste caso, deixariam de ser insecáveis, ou seja, insusceptíveis de seccionamento. Se se admitir a identificação da forma em diversas materialidades, e sendo estas especificamente diferentes, seriam diversas. Mas sendo a forma a mesma, a matéria teria outra forma, para serem átomos de materialidade diversa. Ter-se-ia, afinal, de afirmar uma só matéria-prima com diversas formas, o que não salvaria o postulado da sua simplicidade absoluta. Ademais, esses corpúsculos são móveis e, consequentemente, aptos a moverem-se, a serem movidos por si e por outros, o que implica a hibridez de ato e potência. Seriam eles efeitos, pois todas as mutações conhecidas teriam uma causa. Poder-se-ia ainda argumentar que os átomos, sendo aptos a múltiplas combinações, e sendo estas combinações números, elas, enquanto tais, seriam imutáveis. Desta forma, os átomos em si imutáveis, o que é princípio sem prova, seriam mutáveis, não só em suas atualizações como ao constituírem combinações numéricas, enquanto tais, aritmologicamente considerados imutáveis. Teríamos assim uma ordem de realidade imutável, distinta de outra realidade mutável, o que, levado até às suas últimas conseqüências, num raciocínio ontologicamente bem encadeado, é a refutação completa da doutrina.
O atomismo não soluciona nenhum problema filosófico, apenas os desloca. Os átomos sendo simples e insecáveis não poderiam ser extensos, pois seriam divisíveis em potência. Ademais, os seus limites seriam dados pelo vazio absoluto, intercalado entre eles. Intercalando-se um nada, embora absoluto-parcial, a distância, o diástema entre os átomos seria: ou infinita, e as combinações seriam impossíveis, pois onde não há nada não poderia haver sequer combinações, ou então finita e, neste caso, o nada seria real, pois teria um atributo real. Ademais, os átomos para interatuarem-se precisam de um meio físico, já que eles são físicos. E neste caso o nada deixaria de ser tal para ser um ser, e os átomos estariam imersos num ser que os envolveria. E entre eles e esse ser haveria um limite. Mas tal limite só poderia ser formal e não absoluto; do contrário, intercalar-se-ia outra vez o nada-absoluto-parcial. O atomismo, deste modo, não consegue solucionar nenhum problema ontológico. Pretendendo afastar-se da metafísica é, na verdade, uma doutrina metafísica de grau inferior, pois não se funda nem na experiência (a qual não se daria neste caso), nem em razões ontológicas. O atomismo puro não explica a massa, nem a extensão, nem o movimento, nem a quantidade, nem a qualidade, nem a resistência, nem a impenetrabilidade, nem qualquer das propriedades físicas.
O atomismo dinâmico que pertence à ciência moderna, enquanto permanece no campo da físico-química, encontra fundamentos, mas ao desejar tornar-se metafísico, assume a mesma posição ingênua e primária do atomismo puro. A física atual admite micro-estruturas que são os átomos, cuja complexidade é objeto de estudo de diversas disciplinas. O átomo não é insecável, pois é desintegrável, e os elementos que o compõem podem integrar outras totalidades. O verdadeiro físico é aquele que se dedica ao estudo da teoria atômica dentro apenas do campo da ciência, restrito à esfera da física. Considerar os átomos como princípios de todas as coisas é uma afirmativa que escapa à ciência, e o cientista que, neste ponto, manifestar tal pensamento afasta-se dela para penetrar no campo da metafísica. Para a teoria eletrônica o elemento mais simples e primordial, fisicamente considerado, é o elétron, que é de carga negativa. A ele se opõe o elemento nuclear, que é o próton, de carga positiva. Os primeiros movem-se em torno do núcleo, não no vazio, pois intercala-se entre eles o éter, cujas qualidades não são determinadas pela física, que apenas afirma a sua fluidez. O éter é ainda hipotético para a ciência e tema de estudos, mas, de qualquer modo, entre os elétrons e o núcleo, não se intercalará o nada, e sim alguma coisa. Além dos elementos citados, a física considera muitos outros, segundo as diversas hipóteses. A solução atomista adinâmica não é uma solução, pois em vez de diminuir as aporias, aumenta-as, multiplica-as. A validez da concepção dinâmica cinge-se apenas à esfera físico-química e não à que a ultrapassa.