Voltar ao Dicionário

Argumento Ontológico Da Existência De Deus

Argumento ontológico

Enunciado por Santo Anselmo no Proslogion, o qual provocou inúmeras controvérsias. Podemos assim resumi-lo: 1) O ser humano percebe que há uma hierarquia de perfeições nos seres, não só específica como genericamente considerados. Ademais, todas as perfeições devem ter um representante que as possua intrinsecamente, num grau mais elevado que os outros. 2) Consequentemente o ser humano pode conceber um ser que tenha a maior perfeição, sem que um outro o ultrapasse, pois do contrário este seria o de maior perfeição. 3) Pode-se, portanto, conceber um ser, acima do qual nada de maior se possa imaginar ou conceber. Até aqui todos os refutadores estão de acordo. 4) Resta provar que este ser, maior que todos, que é por nós concebido como o maior de todos, existe necessariamente. Em primeiro lugar, não podemos concebê-lo como não existente, pois não seria o maior. Segundo Santo Anselmo: “Das coisas que existem, com certeza pode-se concebê-las como podendo não existir”. Embora nenhuma das coisas que existem podem ser acreditadas como não existentes, pois na verdade elas existem, podemos no entanto pensá-las como não existentes. Mas o ser, que está acima de tudo, não podemos pensá-lo como não existente, porque negaríamos a hierarquia das perfeições e todo o fundamento da participação.

Como salientou Locke, até o ateísta, quando consequente, aceita a existência de um ser que não teve princípio nem fim. Chamem-no matéria, energia ou qualquer dos muitos nomes com que se costuma denominá-lo, mas todos, sem exceção, reconhecem que ele não tem princípio nem fim, pois do contrário viria do nada. E prossegue Santo Anselmo: “Podemos pela imaginação destruir muitas coisas que sabemos existir, e supormos a existências de muitas outras que sabemos que não existem...” E mais adiante diz: “o que não podemos é pensar que existe e não existe ao mesmo tempo”. E sintetizando as suas palavras, este é o seu pensamento: o que existe, no ato de existir, não podemos pensar como não existente, mas podemos pensá-lo como possivelmente não existente, embora exista. Ele expõe Santo Anselmo: que nenhuma de suas palavras afirmaram que, pelo simples fato de estar uma ideia na inteligência, ela esteja na realidade. Todo ser contingente pode ser pensado como não existente, mas tudo o que pudemos pensar como não existente não é aquilo “acima do qual nada se pode pensar de maior”. Se este ser não existe, e se podemos pensar nele, ele ainda não seria ele, porque não existia. Nem podemos pensar que ele possa vir a existir, porque nesse caso também não é ele. A existência de um ser maior que qualquer outro é inevitavelmente necessária, e esse ser não poderia deixar de existir porque, do contrário, se negaria a hierarquia das perfeições e, consequentemente, a participação das perfeições.

Todo filósofo que levar avante e com segurança o seu pensamento, mesmo ateísta, terá de concordar que todas as perfeições, surgidas no processo do devir, estavam contidas, em máximo grau, naquele ser que não tem princípio nem fim pois, do contrário, teria de admitir que tais perfeições surgiram do nada. Consequentemente não podemos deixar de reconhecer que se o pensamento anselmeano foi exposto em termos platônicos, próprios da sua época e da concepção filosófica do bispo de Bec, não deixavam suas palavras de se referirem a uma longa especulação do pensamento humano sobre o ser, o que não nos permite dizer que o seu argumento seja meramente a simultâneo ou meramente ontológico. A premissa maior pode ser enunciada com estas suas palavras: “Podemos conceber algo que nada de maior podemos cogitar”. Ela é o resultado de uma longa especulação do pensamento humano, e tanto o é, que se pode admitir que haja quem não possa tal coisa cogitar. Mas bastaria que um só homem fosse capaz de tal, para que ela fosse verdadeira. Nenhum dos objetores nega a sua verdade. Também nenhum deles poderia deixar de reconhecer que ela não surgiria espontaneamente ao pensamento humano, se não fosse precedida por uma longa especulação. Se Santo Anselmo expôs em termos platônicos o seu argumento, ele, no entanto, pode ser justificado. Duns Scot, posteriormente, seguindo por outros caminhos e acrescentando novos argumentos, renovou esta prova, tornando-a lógica e filosoficamente irrefutável. Vide Deus.

Voltar ao Dicionário