Afeto
Com afeto designamos cada mudança de potencial na sensibilidade que é provocada por um motivo exterior. É ligada sempre a uma tendência, sem entretanto confundir-se com ela. (Mudança de disposição não significa evidentemente uma modificação na estrutura natural da sensibilidade, mas uma determinação intrínseca, análoga ao que na região cognoscitiva, se nomeia com o termo escolástico intencional). Pela definição dada os afetos pertencem aos sentimentos, formando entre eles uma categoria própria ao lado das tendências afetivas.
A confusão reinante na terminologia desse termo e daqueles que lhe são relacionados, torna-os particularmente visível no fato de que afeto (fr. affection) aplica-se ao mesmo tempo num sentido mais restrito e exclusivo aos fatos hedônicos, de prazer e dor, que figuram como subgrupos dos afetos no sentido mais amplo, e sendo de uma natureza menos complexa apoiam-se, como tais, às emoções propriamente ditas, que formam o segundo subgrupo dos afetos, ao lado de prazer e dor, mas que, por sua parte, em outra terminologia, incluem esses últimos. As emoções propriamente ditas são a cólera, o medo, a esperança, etc., e parece evidente que só o maior grau de complexidade as distingue dos afetos hedônicos. A posição dos afetos perante as tendências, que em nossa definição damos como condição necessária, essencial para a existência de um afeto é exposta por Maine de Biran: "O afeto é o que resta de uma sensação completa, quando dela se separa a individualidade pessoal ou o ego e, com ele, toda forma de tempo ou de espaço, ou quando a idéia de sensação se acha reduzida à simples sensação sem idéia de qualquer espécie". As tendências podem ser ou inclinações ou paixões. As primeiras caracterizam-se pela relativa insignificância dos fatores fisiológicos que coincidem com um caráter mais constante, ao passo que as paixões são mais sensuais, mais veementes e impulsivas.
As paixões diferem das emoções não só pela inclusão nas primeiras de uma tendência ativa, como também e exatamente por isso de uma ainda maior complexidade, sendo a paixão, definida por Gay, como "um prazer ou dor, oriundo da previsão de um futuro prazer ou dor".
As inclinações se chamam eletivas quando têm por objeto não uma classe de seres mas um indivíduo, tornando-se esse termo, derivado do francês (inclination élective) em nosso idioma um sinônimo de afeição. (do ing. affection, igual ao fr. affection, coincide com o nosso afeto e tem, no uso popular (inglês) ou com rigor (francês) também o sentido secundário de nossa afeição). Os termos introduzidos estão distribuídos em: Sentimentos I – afetos: 1) afetos hedônicos: prazer e dor; 2) emoções; II – tendências afetivas: 1) inclinações: a) inclinações gerais; b) inclinações eletivas (afeições); 2) paixões.
Para Santo Agostinho: "As comoções mentais (motus animi), que os gregos chamam pathê, e Cícero perturbationes, são chamados por alguns affectus ou por outros affectiones, o que eqüivale ao passiones". Essa identificação entre passio e affectus (de passio vem paixão), testemunhada por Agostinho e adotada por Tomás de Aquino, ainda se encontra em Descartes. Este limita o sentido de affectio de maneira subjetiva e arbitrária, quando diz que é caracterizada pelo fato de se estimar o objeto da affectio, menos do que a si mesmo, ao passo que na amizade a estima é igual, e na devoção ela é superior. Affectus conservou até ao séc. XVIII um sentido muito amplo, que inclui todas as modificações das quais um ser é suscetível até as intelectuais. Em Spinoza affectus toma o sentido de sentimento puramente racional, e este uso foi adotado por autores ingleses (moralistas), posteriores a ele. Passio (ing.: passion) ainda em Descartes, idêntico com affectus opõe-se progressivamente à palavra inglesa affection.
Problemática
É uma questão controvertida se há, na vida afetiva, uma forma elementar de afeto, uma "afeição" da alma em sentido geral que fundamente e preceda a todos os outros afetos mais especificamente determinados. Encontramos em Descartes uma interpretação da "admiração" como primeiro de todos os afetos (prima omnium passionum). Fica porém uma questão aberta: se a admiração, na acepção de Descartes, é só a forma mais primitiva dos afetos que, em estados posteriores, cede lugar a outros afetos secundários, ou se a própria admiração é suscetível de determinações ulteriores, que a transformem em afetos ou emoções mais complexas. Parece apontar na direção da segunda hipótese a observação de Descartes de que a admiração nos vem antes de percebermos se o objeto que admiramos nos convém ou não. Muitos afirmam principalmente falando da memória afetiva que, perante certas representações, sentimos uma afeição emocional (na literatura muitas vezes chamada de emoção, mas sem o sabor de intensidade e veemência), que não contém nada de prazer ou de dor, que seria o estado afetivo mais geral ou mais elementar. Bergson dá uma interpretação genética da vida afetiva, que parte da sua teoria peculiar da ação mútua, que exercem o nosso corpo e as coisas exteriores, que faz do nosso corpo (melhor, da nossa corporeidade como veículo do espírito) um centro de reflexão que possibilita a percepção mas, também, um órgão de absorção das influências ativas que lhe vêm de fora, absorção que se processa não sem luta, e que é a fonte de todo afeto. As conseqüências imediatas dessa teoria monista têm antecedentes no neoplatonismo, como nos clássicos, porém não só são incompatíveis com outras teorias psicológicas, como também são especialmente combatidas e rejeitadas, em princípio, como de origem metafísica pelos que defendem um outro método no tratamento de assuntos psicológicos, como os representantes da escola fenomenológica. Husserl distingue claramente entre sentimentos que se dirigem a algum objeto e os meros estados afetivos sensíveis, introduzindo assim um corte na vida afetiva, concebida como um todo. Uma nova contribuição ao problema traz Scheler, quando insiste em que também a região emocional da alma humana não carece de intencionalidade (vide Intencionalidade), que aliás só se atribuía ao intelecto. Segundo ele, a camada mais elevada da intencionalidade emocional são os atos de amor e de ódio. Estes nada têm em comum com os afetos de cólera, furor, júbilo, etc., nos quais não se oferece qualquer conteúdo próprio e que são análogos aos estados sensuais do sentimento. Além de amor e ódio, Scheler atribui também àquelas tendências dirigidas contra objetivos que constituem valores (vide Valor) um caráter intencional, porém indireto. Consequentemente rejeita o preconceito filosófico de que a vida emocional não podia apreender qualquer conteúdo próprio e heterogêneo, o que quer dizer: ser intencional, e combate todos os seus representantes, isto é, a quase totalidade dos filósofos, e especialmente a Kant, em cuja acepção tudo o que não é razão é caótico, o sentimento, o instinto e até o amor, e só pode ser ordenado pela razão criadora. É notável, porém, que Scheler não recai no extremo oposto, pois insiste sempre na existência de uma camada emocional no homem, que fica absolutamente inacessível a qualquer intencionalidade; ou seja, principalmente a força intensa, mas obscura da vontade. Em face de toda esta problemática, visto ser impossível resolvê-la, convém compreendê-la em sua complexidade e, para isso, serve um exemplo dado por Scheler, com o qual voltamos ao mesmo tempo à nossa definição, onde afirma que "cada afeto está ligado a uma tendência, sem entretanto confundir-se com ela". Torna-se porém quase difícil manter esta afirmação, ao considerar que é, segundo ele, perfeitamente possível tender a um certo objetivo, com o qual se dá um afeto prazeroso, não para alcançar esse objetivo, mas unicamente para desfrutar o prazer que está ligado à execução daquele impulso. O impulso sexual e o prazer paralelo dão exemplos, não só no homem, como em certos vertebrados superiores, dessa quase confusão prática de afeto e tendência.