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Valor

Valor

Em todos os atos, ante os fatos, o homem define, analisa, estima, aceita ou repudia o que se dá. Adjetiva‑o, elevando‑o, engrandecendo‑o, ou diminuindo‑o, envilecendo‑o. Esses epítetos são distintos dos adjetivos que expressam qualidades. Não tiram nem põem nenhum atributo. Se dizemos que isto é útil ou inútil, belo ou feio, bom ou mau, nada acrescentamos, nem tiramos dos atributos que tem, porque isso continua sendo o que é. São valorizações. Quando dizemos que um livro é útil, benéfico, belo ou prejudicial ou feio, não estamos referindo‑nos a aspectos que podemos intuir pela intuição sensível. Ao chamá‑lo de belo ou de feio, nada tiramos nem nada pomos no livro. No entanto, se o chamamos de vermelho, é que ele se nos apresenta dessa cor. Ao chamá‑lo de belo ou feio, não acrescentamos nem tiramos nenhum dos atributos que ele tem. Realizamos uma valoração. A história humana é uma valoração da atividade do homem. Ela relata a criação, a descoberta de valorações, como também a transmutação, a oposição e a concordância delas. Toda a reação humana apreciativa ante um fato ou um acontecimento é uma valoração, é uma apreciação de valores. A axiologia é a disciplina que estuda os valores. Estes são objetos específicos, e o seu estudo pertence à ontologia. Mas podemos caracterizar alguns aspectos. Os valores não se ligam ao ser dos objetos, mas ao seu valer, à sua dignidade. Ao afirmarmos que um objeto vale ou não vale, não acrescentamos nem tiramos nenhum dos seus atributos. Questiona‑se: são os valores algo em si mesmos ou valem para nós, ou estão nas coisas?

a)

Há uma distinção na lógica moderna quanto aos juízos: juízos de existência; juízos de valor. Nos primeiros diz‑se de uma coisa o que a coisa é. Enunciam‑se as propriedades, atributos, predicados dessa coisa, que permanecem no seu próprio ser.


b)

Os juízos de valor enunciam algo que não se junta nem se tira à existência, nem à essência da coisa. Vê‑se, assim, que os valores não são coisas nem elementos destas. Pela teoria relativista (a nominalista) é o agrado ou desagrado que nos produzam as coisas, que nos revelam os valores. Pode uma coisa nos agradar e ser má ao mesmo tempo. Por outro lado, podemos discutir sobre os valores. Não o podemos, porém, sobre o agrado e o desagrado, por serem subjetivos. Assim, a beleza de um quadro pode agradar ou não; mas podemos discutir sobre ela. Ora, se podemos discutir é que há alguma objetividade nos valores, e não são apenas uma relação.


Os inventores de valores, no sentido nietzscheano, os descobridores de valores, revelam aqueles que até então ninguém havia percebido. Mas depois dessa descoberta, outros vão senti‑los. Alguns axiólogos dizem que os "valores não são; os valores valem". Lotze afirma que uma coisa é valer e outra é ser. Os valores não tem a categoria do ser, mas a do valer. A coisa que vale não é mais ou menos que a que não vale; a coisa que vale é algo que tem valor. O ter valor é o que constitui o valor. Ter valor não é ter um ente; ou seja, uma realidade entitativa a mais. Assim, a cor exige espaço. O que tem cor ocupa espaço. Mas podemos separar mentalmente a cor do espaço. Mas valor e a coisa, que tem valor, não podemos separar ônticamente. Desta forma, vemos que ele não é um ente, mas algo que implica a coisa e implica o sujeito. Esta é a opinião de Scheler.

São os valores absolutos ou relativos? Valem hoje e amanhã não valem? Neste ponto trava‑se uma grande polêmica na filosofia. Há nos valores um aspecto variante e um invariante. A prudência, como invariante, é uma virtude que faz evitar a tempo as inconveniências ou perigos. Mas o senhor feudal era prudente quando se armava; o burguês, hoje, é prudente quando se cerca de bons documentos, etc. Este é o aspecto variante. Todo valor tem um contravalor. Bom e mau, corajoso e covarde, forte e débil, belo e feio. É a polaridade dos valores.

Eles revelam uma hierarquia, pois uns valem mais que outros. Neste caso, o valor tem um valor. Um valor que tem valor pode ter mais que outro da mesma ordem. Assim um bem pode ser mais que outro bem. Consequentemente, em síntese, eles revelam:

  1. polaridade;
  2. hierarquia;
  3. escalaridade.

Há valores que estão, hierarquicamente, num grau mais alto; e outros, num mais baixo. Para Scheler:

  • Valores religiosos: santo e profano.
  • Valores éticos: justo e injusto.
  • Valores estéticos: belo e horrível.
  • Valores lógicos: verdade e falsidade.
  • Valores vitais: forte e débil.
  • Valores úteis: adequado e inadequado – conveniente e inconveniente.

Esta hierarquia, no entanto, não é aceita por todos. Há quem não considere os valores religiosos como os mais altos. Um artista poderia considerar os estéticos; um utilitarista, os utilitários; um lógico, os lógicos. Nietzsche combateu a escala de valores de nossa época mercantilista, na qual predominam os valores utilitários, sem no entanto considerar os religiosos os mais altos, e sim, os vitais e os éticos. Quando fala em transmutação dos valores ele quer derrocar a escala predominante e instaurar uma nova. Todas as eras da humanidade conheceram suas escalas de valores, e ora predominam uns, ora outros. É natural que, na axiologia, haja tanta divergência sobre a classificação dos valores. Individualmente há também escalas de valores, porque a ordem pode ser mudada. Para um homem religioso pode ser: valores religiosos, éticos, utilitários, vitais, lógicos e estéticos.

Valor na Economia Política

O conceito de valor é complexo e também confuso na economia. Em geral corresponde à importância econômica de um bem ou de um serviço. Um bem é uma coisa útil conforme a sua importância econômica. Ele deve ser examinado intensiva e extensivamente, qualitativa e quantitativamente, objetiva e subjetivamente. Tomado objetivamente tem o nome de valor de troca, e este é representado pela mercadoria dada em compensação, representada pela moeda e, neste caso, fala‑se em preço. Trocamos um terno por dois sacos de arroz. Dizemos pois que um terno é igual a dois sacos de arroz. Concluímos então que um terno vale, como valor de troca, dois sacos de arroz. Mas digamos que em moeda o terno vale X. Então está visto que cada saco de arroz vale a metade de X, que é o seu preço. Dizemos, então, que o preço de um saco de arroz é de meio X. A escala de preços registrados sobre todos os mercados permite‑nos, da mesma forma, representar o conjunto das relações de valor existentes entre uma quantidade dada de uma mercadoria ou de um serviço e uma quantidade dada de qualquer outra mercadoria ou serviço, que se tornam objeto de uma troca. Subjetivamente, temos o valor de uso. A noção de valor não é necessariamente associada à de troca. Podemos considerar, fora de toda troca, a importância econômica relativa de certos bens ou serviços que estão à nossa disposição, ou que desejamos ter à nossa disposição. A diferença entre o valor de uso e o valor de troca, já está exposta em Aristóteles. Inúmeras polêmicas se travam na economia sobre os verdadeiros sentidos desses dois valores, como: se são contrários, se um pode reduzir‑se ao outro, etc. O valor de uso é essencial a toda mercadoria, portanto a todo valor de troca, mas há bens, com valor de uso, que não são mercadorias, porque não se trocam como, por exemplo, a água dos rios. O valor de uso é condicionado pelas propriedades do bem, na sua capacidade de satisfazer as necessidades humanas.

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