Tesouro n.º 181 · Volume III

RESSURREIÇÃO RISURREZIONE

2 seções · 14 parágrafos · pp. 2116–2122 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. JESUS CRISTO, NOSSO CHEFE, RESSUSCITOU; POR QUE RESSUSCITOU NO TERCEIRO DIA

O Evangelho fala da ressurreição de Jesus Cristo com tanta clareza e registra tão minuciosamente todas as circunstâncias que a precederam, acompanharam e seguiram, que pôr em dúvida esse fato equivaleria a negar as coisas mais palpáveis e certas. Negar a ressurreição do Salvador equivale a retirar todo fundamento da história e a fazer do estabelecimento da religião cristã, que repousa inteiramente sobre ela, um enigma. Narra São Mateus que, na própria tarde da morte de Jesus Cristo, os príncipes dos sacerdotes pediram a Pilatos que mandasse soldados guardar o lugar onde havia sido sepultado o corpo do crucificado, para que não acontecesse que seus discípulos, favorecidos pelas trevas, o roubassem e depois dessem fundamento à crença de que se cumprira aquela promessa feita por ele ainda em vida: Depois de três dias ressuscitarei. — Não somente obtiveram do governador romano um destacamento de soldados, mas, depois de fecharem cuidadosamente com uma grande pedra a entrada do sepulcro, puseram-lhe os selos. Mas contra os desígnios de Deus não prevalece conselho algum. Ao amanhecer do domingo, um tremor espantoso fez estremecer o monte; o Anjo de Deus, com o rosto semelhante ao relâmpago e as vestes como a neve, desceu do céu, rolou a pedra que servia de tampa ao sepulcro e sentou-se sobre ela. Àquela vista, as guardas, tomadas de pavor, caíram desmaiadas por terra. Às mulheres, porém, que pouco depois chegaram ao sepulcro, o Anjo que o guardava disse que não temessem por aquilo que viam, porque Jesus, a quem procuravam, já não estava naquele lugar, mas havia ressuscitado, conforme predissera; e ordenou-lhes que fossem imediatamente levar a alegre notícia aos Apóstolos, avisando-os de que se dirigissem à Galileia, onde o veriam. Entretanto, as sentinelas, recuperadas do assombro, foram relatar aos príncipes dos sacerdotes o que acontecera. Estes, então, reunindo-se para deliberar, ofereceram uma soma de dinheiro aos soldados, para que dissessem que os discípulos do Nazareno tinham vindo durante a noite e o haviam roubado enquanto eles dormiam (Mt 28,13). Assim, a ressurreição de Jesus Cristo não pôde ser negada nem mesmo por aqueles que tinham maior interesse em negá-la, senão recorrendo a um amontoado de contradições e de mentiras estúpidas!

Com efeito, se as guardas dormiam, diz São Remígio, como puderam ver os discípulos levá-lo? (De Resurr.). «Ó insensatos! diz Santo Agostinho, apresentam como prova do que afirmam testemunhas que dormiam! Verdadeiramente se vê que dormíeis de fato, vós que, depois de tanto deliberar, não soubestes encontrar outra resposta melhor (1)». É acaso possível que aqueles discípulos que, aos primeiros rumores levantados contra seu mestre, haviam debandado e se escondido, ousassem roubar-lhe o corpo guardado por soldados armados, mesmo supondo que estes dormissem? Que audácia, para não dizer loucura, seria necessária para aventurar-se a romper os selos, remover uma grande pedra em meio a um destacamento de guardas, confiando apenas na esperança de que, com aquele ruído, eles não despertariam! E depois, como é provável que tantos soldados, ameaçados de morte caso deixassem roubar o morto confiado à sua guarda, tivessem adormecido todos ao mesmo tempo? … Certamente o furto não poderia realizar-se tão silenciosamente que não tivesse surgido tumulto entre os discípulos e as sentinelas. Além disso, a ressurreição de Jesus Cristo tem como prova invencível as muitas, variadas e inteiramente reais aparições do Salvador, não a duas, três ou quatro pessoas, mas a centenas; sua ascensão, acontecida na presença de uma multidão, sela toda demonstração desse fato. Todos os fiéis, todo o Cristianismo e a grande solenidade da Páscoa, que desde então continuou a ser celebrada todos os anos, atestam de modo incontestável e visível aos olhos do universo a ressurreição do Crucificado.

Além disso, já muitos séculos antes, o Senhor havia predito, pela boca dos Profetas, esta sua ressurreição; de fato, o Salmista certamente aludia a Jesus Cristo quando dizia: «Não permitais, Senhor, que o vosso santo veja a corrupção do sepulcro» (Sl 15, 10); e em outro lugar: «Eu me deitei e adormeci em profundo sono, do qual ressuscitei, porque o Senhor é o meu apoio» (Sl 3, 6). «Naquele dia, profetizava Isaías, o rebento de Jessé será erguido como um estandarte à vista de todos os povos: todas as nações acorrerão a ele, e glorioso será o seu sepulcro» (Is 11, 10).

Quem tornou tão glorioso o túmulo de Jesus Cristo? Certamente, sua gloriosa ressurreição.

O próprio Jesus Cristo uniu sua voz à de seus profetas e, durante o tempo de sua vida mortal, predisse abertamente, em várias ocasiões, sua ressurreição, depois de três dias, do sepulcro. Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do cetáceo, lemos que disse aos escribas e aos fariseus; assim o Filho do homem estará três dias e três noites no seio da terra (Mt 11, 40). Depois, anunciando aos Apóstolos os acontecimentos de sua paixão e morte e tudo quanto haveria de sofrer da parte dos magistrados, dos príncipes, dos sacerdotes e dos escribas, até que o matassem, terminou acrescentando que ressuscitaria no terceiro dia (Mt 16, 21). E ainda outra vez lhes disse: «O Filho do homem deve ser entregue nas mãos dos homens, os quais o matarão, e ele ressuscitará no terceiro dia» — (Ib. 17, 21, 22). Finalmente, no Apocalipse, diz de si mesmo: «Estive morto, e eis que vivo pelos séculos; e tenho as chaves da morte e do inferno» (I, 18). Também Oseias havia visto e profetizado a ressurreição do Messias no terceiro dia de sua morte (6, 3).

Todos os Apóstolos anunciam publicamente e proclamam em alta voz, tanto entre os judeus seus contemporâneos como entre os gentios, a ressurreição do Crucificado. São Paulo, por exemplo, escrevia aos Coríntios: Cristo morreu, segundo as Escrituras, pelos nossos pecados; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Foi visto primeiro por Cefas, depois pelos onze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos reunidos, dos quais muitos ainda vivem; depois fez-se ver a Tiago, em seguida aos doze Apóstolos e, por último, também a mim, que venho depois de todos, como um abortivo; sendo eu o último dos Apóstolos (1Cor 15, 3-9). Mas não somente todos os Apóstolos viram Jesus depois de sua ressurreição, durante quarenta dias; não somente divulgaram o fato aos quatro ventos; não somente o afirmaram, mas selaram todos o seu testemunho com o próprio sangue… A Igreja inteira sempre creu e considerou como dogma de fé a ressurreição de Jesus Cristo.

Quanto ao fato de ter ressuscitado ao terceiro dia, Deus não o dispôs assim sem motivo; antes de tudo, porque Jonas permaneceu três dias no ventre da baleia. Em segundo lugar, porque assim o havia predito Jesus com estas palavras: «Destruí este templo, e em três dias eu o reedificarei; e ele falava do templo de seu corpo» (Jo 2, 19-21). Em terceiro lugar, para nos ensinar que a cruz e a morte dos fiéis não durarão muito, quando comparadas com a eternidade bem-aventurada.

2. NÓS TAMBÉM RESSUSCITAREMOS

Ouvi como Davi anuncia a ressurreição geral: «O Senhor guarda todos os seus ossos; nem um só deles será consumido» (Sl 33, 21). Que os mortos ressuscitam, diz Jesus Cristo, Moisés o declara abertamente naquilo que refere como dito a ele pelo Senhor na sarça ardente: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos (Lc 20, 37-38).

A respeito deste dogma, ninguém se exprimiu melhor nem com maior precisão do que São Paulo. Depois de observar, escrevendo aos Coríntios, que Cristo ressuscitou dentre os mortos, primícias dos que dormem (1Cor 15, 20), assim prossegue: Se combati contra as feras em Éfeso, de que me serve isso, se os mortos não ressuscitam? Mas dirá alguém: como ressuscitarão os mortos, ou em que corpo ressuscitarão? Insensato, aquilo que semeias não é vivificado se antes não morrer. E o que semeias não é o corpo que há de ser, mas um simples grão de trigo, por exemplo, ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá o corpo que quer e dá a cada semente o seu próprio corpo. Assim é a ressurreição dos mortos: o que é semeado na corrupção ressuscitará na incorruptibilidade; o que é semeado na ignomínia ressuscitará na glória; o que é semeado na fraqueza ressuscitará na força; o que é semeado é um corpo animal, o que ressuscitará será um corpo espiritual (Ib. 42-45). Ouvi, mistério! Todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados. Num instante, num abrir e fechar de olhos, ao último toque da trombeta, porque a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptos, e nós seremos transformados. Pois é necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista de imortalidade. E quando este corpo mortal se tiver revestido de imortalidade, então se cumprirá a palavra que diz: A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (Ib. 51-54).

Aos Filipenses dizia: «Quanto a nós, verdadeiros cristãos, a nossa vida está nos céus, de onde esperamos que venha o Salvador e Senhor nosso Jesus Cristo, o qual transformará este nosso corpo vil, configurando-o ao seu corpo glorioso, pelo poder daquela força com que sujeita todas as coisas» (Fl 3, 20-21). Ainda mais claramente diz aos Tessalonicenses: «Não quero, meus irmãos, que ignoreis o que diz respeito aos que dormem, para que não vos entristeçais (pela morte dos vossos) como os outros que não têm esperança (além da vida presente). Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo Deus reunirá com ele os que adormeceram em Jesus Cristo. Com efeito, pela palavra do Senhor vos digo que nós, os que formos reservados para a vinda do Senhor, não precederemos os que adormeceram. Pois o próprio Senhor, ao comando e à voz do Arcanjo, e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu, e os que morreram em Jesus ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que tivermos sobrevivido, seremos arrebatados com eles sobre as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos perpetuamente com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras» (1Ts 4, 13-17).

Vê-se por isso como, para São Paulo, a morte não é senão um sono; nisso ele não faz mais do que repetir as palavras do divino Mestre, o qual, falando da morte de Lázaro — e ele estava realmente morto, pois havia quatro dias que jazia fechado no sepulcro —, não lhe dá outro nome senão o de sono, do qual ia despertá-lo (Jo 11, 11). Assim se exprimiu também quando ressuscitou a filha de Jairo; e o Evangelista, falando daqueles muitos que, por ocasião da morte de Jesus, se levantaram dos sepulcros e voltaram à vida, diz: «Os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que ali dormiam ressuscitaram» (Mt 27, 52). Dessa crença veio o costume, entre nossos pais, de chamar os cemitérios pelo nome de dormitórios, e os gregos chamam a morte dos cristãos de dormição. Ressuscitaremos à semelhança de Jesus Cristo e por estes dois motivos: 1° porque Jesus Cristo foi homem semelhante a nós e morreu como nós morremos; 2° porque Jesus Cristo é nossa cabeça e colocou em nós, seus membros, as virtudes da ressurreição.

A fé na ressurreição nos é atestada pelos Patriarcas, pelos Profetas e pelos mais ilustres personagens da antiguidade. «Vossos ossos reviverão como a erva ao tépido sopro da primavera», escreve Isaías (c. 66). «Eu os arrancarei das mãos da morte, diz o Senhor pela boca de Oseias; ó morte, eu serei a tua morte!» (Os 13, 14). «Aqueles que dormem no pó da terra despertarão, lemos em Daniel, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio, para que o vejam sempre diante de si» (Dn 12, 2). «Oh! eu sei — exclamava Jó — que o meu Redentor vive e que, no último dia, me levantarei da terra. Revestirei novamente a minha carne e, nesta minha carne, verei o meu Senhor. Sim, eu mesmo o verei e o contemplarei com estes mesmos olhos; serei eu, e não outro: esta esperança trago guardada em meu coração» (Jó 19, 25-27). Não se poderia dizer coisa nem mais verdadeira, nem mais precisa, nem mais clara.

Esta esperança da ressurreição foi também o que sustentou a coragem dos jovens Macabeus, martirizados pelo rei Antíoco; com efeito, um deles, estando às portas da morte, disse: «Certamente, ó homem perverso, tu nos fazes morrer para a vida presente, mas o Rei do mundo nos ressuscitará». — Outro, enquanto já expirava, disse: «Do céu recebi este corpo; agora, pelas leis do Senhor, eu o sacrifico, porque espero que ele mo restituirá». — Um terceiro, antes de dar o último suspiro, disse: «Boa e doce coisa é, para aqueles que esperam ser ressuscitados pelo Senhor, morrer; mas não para ti, que não ressuscitarás para a vida» (2Mc 7, 14).

Jesus Cristo nos ressuscitará, porque ele não criou a morte; antes, matou-a com sua morte… Os nossos corpos ressuscitarão, 1° porque Deus o quer e o disse…; 2° porque o nosso corpo é uma porção de nós mesmos…; 3° para que os nossos corpos ou participem da recompensa de nossas almas, se concorreram para o mérito; ou partilhem do castigo com a alma, se foram cúmplices de suas iniquidades…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.