Tesouro n.º 1 · Volume I

HÁBITO DO PECADO ABITUDINE DEL PECCATO

5 seções · 25 parágrafos · pp. 17–23 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. COMO SE CAI NO HÁBITO DO PECADO

Jesus, tendo ido à casa de Marta e Maria, encontrou Lázaro, irmão delas, sepultado havia quatro dias (Jo 11,17). Por cinco graus Lázaro desce ao túmulo para se corromper:
1º pela languidez: Erat languens…;
2º pela doença: Infirmabatur…;
3º pelo sono: Dormit…;
4º pela morte: Mortuus est…;
5º pela dissolução no estado de cadáver: Iam foetet…; e assim também, por esses graus, se arruína a pessoa no hábito do pecado.

Lázaro, que jaz há quatro dias no túmulo, oferece a imagem do pecador que se encontra no hábito de pecar mortalmente. O primeiro dia é para ele aquele em que cai pelo consentimento de sua vontade… O segundo, quando consuma de fato o pecado… O terceiro, quando recai e contrai o costume de recair… O quarto, quando se endurece e faz de seu pecado e de suas recaídas uma segunda natureza, segundo estas palavras de Santo Agostinho: «A paixão tem origem na vontade perversa; o servir à paixão torna-se hábito; não resistir ao hábito conduz à necessidade» (lib. 8, Confess. c.5). O mesmo santo Doutor diz ainda: Assim como por três graus, isto é, a sugestão, a deleitação e o consentimento, se chega ao pecado, assim também se encontram no pecado três diferentes estágios: ele está no coração, na ação e no hábito. Estas são três mortes: a primeira ocorre, por assim dizer, dentro do recinto da casa, e se dá quando se abre no coração uma passagem para a paixão. A segunda acontece como que fora de casa, e se dá quando se consente na ação. A terceira tem lugar quando, pela força dos maus hábitos que esmagam como um rochedo, a alma é quase lançada e encerrada num sepulcro. Jesus Cristo ressuscitou essas três espécies de mortos; mas observai a diversidade dos modos que, segundo sua própria palavra, emprega para chamá-los à vida. Ao primeiro morto diz: «Levanta-te, menina» (Mc 5,41). Ao segundo acrescenta: «Levanta-te, eu te ordeno» (Lc 7,14). Para ressuscitar o terceiro, perturbou-se, chorou, gemeu duas vezes interiormente, dirigiu-se ao sepulcro e ali clamou em alta voz: «Lázaro, vem para fora» (Jo 11,43). Assim, no lib. 1, De Serm. Domini in Monte, c. XXIII; e depois novamente no Tratt. XLIV sobre São João: «Há primeiramente o estímulo da deleitação no coração…, depois o consentimento…, em seguida a ação…, finalmente o hábito» — Est 1° titillatio delectationis in corde; 2° consensus; 3° factum; 4° consuetudo.

«Todos eles estavam ligados pela mesma cadeia de trevas», diz o livro da Sabedoria (17,17). — Ora, a cadeia dos delitos vai-se formando com o hábito; porque a sugestão do Demônio gera a deleitação no pensamento; a deleitação provoca o consentimento; o consentimento conduz ao fato; um fato impele a outro, e eis constituído o hábito. Este leva a vontade a comprazer-se nele, e daí vêm depois o abandono de Deus, o endurecimento e a reprovação. Os atos habituais são elos que se entrelaçam uns nos outros; como diz muito bem a Glosa sobre estas palavras de Jó (31,1): «Fiz um pacto com meus olhos», o pensamento segue o olhar; a deleitação nasce do pensamento; o consentimento nasce da deleitação; a ação segue o consentimento; o hábito provém da ação; a necessidade nasce do hábito; a desesperação é fruto da necessidade; a condenação, da desesperação.

«A paixão», escreve São Gregório nos Moralia, «inflama-se como o fogo, e quem tarda em apagá-lo logo se vê arder como palha».

A imprudência e a loucura dos insensatos consistem em não compreender, em não ver a necessidade de bem se conduzirem; desviam-se do caminho reto, perdem-se por veredas escuras e tortuosas, e os erros das paixões sedutoras, às quais são impelidos pelos sentidos degradados e pela concupiscência, arrastam-nos de uma para outra, até que, prosseguindo sempre de mal a pior, de erro em erro, encerram-se finalmente num labirinto de hábitos, e deste precipitam-se no Inferno, erro supremo e irreparável… Cuidai de vós! exclama Bossuet (Vol. 2, Profession religieuse), pois o homem velho que está em nós e contra o qual devemos lutar durante toda a vida não dá tréguas e trabalha continuamente para suplantar o homem novo: seu apetite indócil e impaciente, por mais que seja refreado pela disciplina, instiga-se, corre e precipita-se, como prisioneiro ansioso por liberdade, rumo a toda saída; tenta, por todos os sentidos, lançar-se sobre os objetos que lhe agradam. Modesto a princípio, finge contentar-se com pouco; não passa de um desejo imperfeito, de uma curiosidade, de uma ninharia; mas experimentai satisfazer esse primeiro desejo, e logo o vereis atrair muitos outros, até que toda a alma fique subjugada por ele. Assim como uma pedra lançada num lago toca as águas apenas num ponto e, contudo, uma vez recebido o movimento, este se comunica das partes mais próximas às mais distantes, de tal modo que, em poucos instantes, toda a massa fica agitada, assim também as paixões de nossa alma despertam-se pouco a pouco umas às outras por meio de um movimento que se encadeia…

2. FUNESTAS CONSEQUÊNCIAS DO MAU HÁBITO

Se não se resiste ao hábito, este se torna necessidade, disse Santo Agostinho (Confess., lib. 8, c. 5); e, a propósito de Lázaro, que jazia no sepulcro fechado por uma pedra (Jo 11,38), observa que aquela enorme pedra representa a força de um hábito perverso e endurecido, que esmaga a alma e não lhe permite nem ressurgir nem respirar (Serm. XLIV, De Verb. Dom. in Ioan.).

Se se permanece nesse hábito, acumulam-se culpas sobre culpas e acaba-se por ser excluído para sempre da clemência de Deus (Sl 68,28). O nome deles é apagado do livro dos vivos, e eles não se encontram entre os justos (Sl 68,29).

Quem se encontra nessa lastimável condição não se cansa de sua iniquidade, diz o Eclesiástico, e não ficará saciado enquanto não tiver emagrecido e consumido sua alma (Eclo 14,9).

Cair no pecado é fragilidade humana, escreve São Bernardo, perseverar nele é malícia diabólica (Serm. In Psalm.); e Sêneca dizia: “A primeira e mais grave pena para os pecadores está em haver pecado; e não há delito que permaneça impune, porque já é castigo cair de culpa em culpa” (In Prov.).

É próprio do pecado, observa Bossuet (Vol. 1, Péché d’habitude), imprimir na alma uma mancha que vai desfigurando nela toda beleza e apaga os traços da imagem do Criador que ele mesmo nela imprimiu. Mas um pecado repetido, além dessa mancha, produz ainda na alma uma tendência, uma forte inclinação para o mal, porque, insinuando-se no fundo da alma, embaraça todas as suas boas inclinações e, com o próprio peso, arrasta-a para os objetos terrenos. Para notar a desgraça do pecador habituado, a Escritura serve-se de três eficazes comparações: “Ele vestiu a maldição como uma veste; e ela se infiltrou como água em suas entranhas, e como óleo penetrou em seus ossos” (Sl 108, 17). Sim, a maldição cobre como uma veste o pecador habitual, porque o envolve por todos os lados e domina todas as suas palavras e ações; entra como a água em seu interior e corrompe ali os pensamentos; penetra como óleo em seus ossos, que são o coração, a alma, o espírito. A veste simboliza a tirania do hábito; a água, a impetuosidade; o óleo, uma mancha que se espalha por toda parte e dificílima de remover. Terrível doença é, pois, esta do hábito de pecar!

Deus nunca abandona ninguém, a não ser que seja abandonado primeiro, diz Santo Agostinho (in Psalm. V.77). Ora, os pecadores, e principalmente os habituais, continua o mesmo Doutor, são os primeiros a deixar a Deus, e depois Ele os abandona: Adão foi julgado segundo esta norma: ele abandonou, depois foi abandonado; e assim acontece com os demais pecadores. Em poucas palavras, Santo Agostinho explica como os pecados sejam justa punição uns dos outros e a que abismo se precipita com a repetição das culpas habituais: “O pecador abandonado por Deus cede e consente aos desejos perversos; e então é vencido, capturado, acorrentado e mantido como escravo” (Contra Iulian.).

O homem entrega-se ao hábito de pecar, e Deus o deixa entregue a ele: duas desgraças espantosas!

3. QUÃO DIFÍCIL É DEIXAR O HÁBITO DO PECADO

Para que o pecador habituado saia de seu estado, é preciso que Deus o desperte com voz grande e poderosa, como aquela com que Jesus Cristo chamou Lázaro do sepulcro (Jo 11, 43), porque os habituais são espiritualmente surdos. Mas Deus não está de modo algum obrigado a realizar tal milagre: além disso, o hábito opõe um obstáculo ao milagre da ressurreição espiritual.

De Lázaro está escrito que tinha as mãos e os pés atados e o rosto envolto num sudário (Jo 11, 44): e esta é a lastimável condição do pecador habituado… ora, como sair desta tumba?… Ouvi Sêneca que, discorrendo sobre a concupiscência, a qual arrasta para o hábito do mal aquele que a ela se entrega, diz: “Jamais conseguireis que ela se acalme, se lhe derdes liberdade para começar; é muito mais fácil mantê-la completamente afastada do que expulsá-la depois que entrou” (Epist. CXVII). “Mata o inimigo enquanto é fraco”, clama São Jerônimo (Epistola XXII ad Eustoch.); e não desprezes as pequenas coisas, acrescenta São Gregório, porque, seduzido insensivelmente, cometerás as mais graves (Moral.). Então se peca sem remorso e, chegado a este ponto de perversidade, já não há remédio. Tal é o horrível estado do habitual…

Quem acrescenta culpa a culpa tem o coração desviado, diz Deus por meio do Salmista; não conhece os meus caminhos, e por isso jurei em minha ira que não entrará no lugar do meu repouso (Sl 94, 10-11). Ah! “os perversos dificilmente se emendam”, exclama o Eclesiastes, “e imensa é a multidão dos insensatos” (Ecl 1, 15).

“Não por um ferro inimigo, mas por minha vontade de ferro eu estava acorrentado”, confessa Santo Agostinho; “minha vontade estava à mercê de meu inimigo, que dela fizera uma cadeia com a qual me mantinha estreitamente preso” (lib. 8, Confess. c. 5). “E com tantas cadeias o pecador se acorrenta quantas vezes recai na culpa”, acrescenta São Gregório (lib. 4, Mor., c. XVIII).

Por enormes e horrendos que sejam os pecados, escreve Santo Agostinho (Enchirid. c. LXXX), se acontece que se tornem hábito, são considerados leves e até já não tidos como verdadeiros pecados; a tal ponto que não somente não são ocultados, mas são ostentados.

Os habituais não se corrigem, diz a Escritura, porque são loucos. E como não o seriam? Pois, em 1° lugar, o pecado é o cúmulo da loucura, porque obscurece a razão e sufoca o desejo da virtude. O pecador antepõe a criatura ao Criador, o que equivale a preferir um centavo a tesouros imensos, um grãozinho de trigo a uma messe riquíssima, o lodo ao ouro, uma gota de água ao mar, um veneno mortífero à graça e à vida eterna. Ó Deus, que insensatez! 2° Repetindo os pecados, contrai-se o hábito, e este conduz à necessidade. Conheceis loucura mais funesta?… Persiste-se obstinadamente, faz-se alarde do mal… 4° Recusa-se toda emenda, desprezam-se as advertências e as pessoas que, impelidas pela caridade, repreendem. Foge-se dos remédios, quer-se permanecer na doença. Ah, aqui, mais que irrazão, mais que estupidez, é preciso dizer que há o cúmulo da loucura… A Escritura dá a esta loucura moral o nome de penúria do coração e chama os pecadores habituais de homens sem coração, isto é, privados do uso da vontade (Pr 11, 12).

“Tendo chegado o ímpio ao fundo do abismo do mal, despreza tudo”, dizem os Provérbios (Pr 18, 3). Com razão, portanto, escrevia o poeta: Detém a paixão ao nascer, pois o remédio chegará tarde demais, se deixares que o mal tenha tempo de progredir; e a alma, diz São João Crisóstomo, uma vez corrompida e degradada pelo hábito do pecado, definha de doença incurável e já não recupera as forças, por mais remédios que Deus lhe ofereça (Homil. ad pop. Antioch.).

Não é tão fácil despir-se dos hábitos viciosos como foi vesti-los. A vontade, que pode, a seu bel-prazer, evitar ou abraçar o mal, enreda-se por si mesma, como o bicho-da-seda, em sua própria obra; e, se os laços em que se enredou parecem seda por serem agradáveis, são, contudo, ferro por sua dureza. Não, ela não é capaz de destruir à sua vontade a prisão que ela mesma fabricou, nem de romper os fios com que se envolveu. E não me digais, acrescenta Bossuet (Vol. 1, Circoncis.), que, sendo os vossos compromissos inteiramente voluntários, possais, com a mesma vontade que os contraiu, quando quer que seja, desfazê-los, porque justamente aqui está o nó da questão: que essa mesma vontade que se comprometeu seja obrigada a desobrigar-se; que ela, que forma ou quer formar os laços, se empenhe depois em desfazê-los; que ela mesma tenha de suportar ao mesmo tempo o embate e desferir o assalto. Ora, quem é tão cego que não veja claramente como ela combaterá e se cansará em vão, em esforços inúteis, se não vier sustentá-la uma força ou um socorro do exterior? Pois não se resiste por muito tempo com vigor e robustez, escreve Santo Ambrósio (In Psalm. 118), quando é preciso vencer a si mesmo. Demasiado penosa e extenuante é a luta que o homem deve sustentar contra si mesmo e suas paixões para que possa vencer sozinho.

Sei muito bem que alguns acusam o Demônio dos maus hábitos em que vivem; mas vede, clama Santo Agostinho (Confess.), que o Diabo exulta quando é acusado, e nada deseja mais do que lançardes sobre ele as vossas culpas, para que assim percais o fruto de uma humilde confissão.

O homem deve vencer dois obstáculos: a inclinação e o hábito; aquela torna o vício amável, este o faz necessário; e não está em nosso poder, observa Santo Agostinho (In Psalm. CVI), nem o princípio da inclinação, nem o fim do hábito: a inclinação nos acorrenta e nos precipita na prisão; o hábito nos ata a ela e fecha sobre nós a porta, para nos tirar toda possibilidade de saída. O pecado passado a hábito torna-se quase identificado com o homem: o pecador habituado tornou-se pecado; e daí provém a imensa dificuldade de vencer os maus costumes.

4. COMO SE CONHECE SE O PECADO É HABITUAL

Grave enfermidade é o hábito de pecar, e quem deseja ver se está por ele infectado deve observar: 1° Se comete o mal com prazer; porque todo prazer é conforme a alguma natureza: ora, é certo que o pecado não tem, por si mesmo, essa consonância com a nossa natureza; é preciso, portanto, que a repetição do pecado tenha formado em nós outra natureza, e essa segunda natureza é o hábito… 2° Se peca sem resistir, porque então a força da alma está enfraquecida e abatida…

5. COMO SE DEIXA O HÁBITO

Os meios para abandonar e vencer os maus hábitos, por mais arraigados que estejam, são os seguintes: 1° o temor de Deus; 2° a resistência…; 3° a oração…; 4° o pesar e a dor de se encontrar em estado tão infeliz…; 5° a fuga das ocasiões próximas do pecado habitual…; 6° um vivo horror ao pecado…; 7° a confissão frequente e humilde.

“Sois atormentados pelo hábito do pecado? clama Santo Agostinho; repeli-o com coragem; não o sacieis retirando-vos, mas esforçai-vos por abatê-lo, resistindo” (Lib. de Continent.). Finalmente, uma sincera e viva devoção à Virgem faz-nos sair de qualquer mau hábito.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.