Inclinação
A psicologia de profundidade após os estudos de Ribot, Freud, Adler, Jung, Steckel, Reick e outros, revelou a constância de dois impulsos fundamentais do homem: a) impulso de morte, ou de destruição ; b) impulso de vida ou de integração , tendendo para a afirmação, para a conservação do ser. Podemos compreender esses dois impulsos como manifestações de duas ordens energéticas, de duas ordens dinâmicas, que se observam em toda a natureza e que, no ser vivo, tomam aspectos qualitativos diversos dos que se observam nos fatos físicos. Na filosofia emprega-se termos como tendência, inclinações, propensões, quase sempre como sinônimos. Para muitos a psicologia moderna não tem elementos capazes para formular as significações claras que distinguem os conteúdos desses termos, encontrando-se definições de inclinação como tendência, propensão; e tendência, como inclinação, propensão; e propensão como tendência, inclinação, isto é, definem uns pelos outros, podemos, no entanto, separar algumas significações para esses três termos. A inclinação é uma tendência, mas consciente; dirige-se para um fim como toda tendência. Mas esta tem um sentido mais potencial, pois é um tender para, é uma possibilidade de realizar-se. Ela é uma consciência dessa tendência e há nela uma forma ativa, de vontade. A propensão é um pender, uma tendência favorável, uma disposição favorável para alguma coisa, da qual se pode ter consciência, mas falta-lhe o aspecto ativo, a vontade. Quando alguém tem tendência para algo, pode ter também para o seu contrário. A inclinação é a propensão levada a um fim, ativa. Assim: tendência - propensão - inclinação. São esses os três graus de um tender para... É comum a confusão entre inclinação e instinto, entretanto a distinção é simples: no instinto, há a sugestão imediata de atos ou de sentimentos determinados, mesmo sem consciência de um fim ao qual eles se ligam, se prendem, enquanto a inclinação coloca um fim, de forma mais ou menos consciente, determinado, mas sem a representação dos meios a empregar para atingi-lo. Nossas inclinações são constituídas de tendências primitivas, que são o fundo de nossa natureza, mas também modificadas pelos hábitos adquiridos, pela educação. Todas essas tendências vão acompanhadas de prazer quando favorecidas, e de desprazer e até de dor quando contrariadas. A inclinação é a propensão levada a um fim, portanto é ativa. Classificam-se:
- a) pessoais ou egoístas – cujo objeto é o bem de quem as experimenta;
- b) altruístas ou sociais – que tem por objetos outros indivíduos;
- c) superiores, ideais ou desinteressadas – que tem por objeto realidades superiores (também chamadas de impessoais).
Entre as pessoais temos:
- 1) a fome;
- 2) a sede, cuja satisfação ou não, oferece prazer ou desprazer;
- 3) a sexual.
Estas inclinações, chamadas em geral apetites, sofrem influências psicológicas e atuam sobre o psiquismo. São elas mais ligadas profundamente ao somático, portanto se objetivam, como é característica do funcionamento da sensibilidade. Assim o amor, como apetite sexual, é objetivante. O objeto de sua satisfação é objetivado. No amor afeto já sublimado do sexual, o ser amado não é objeto mas, por ser pessoa, implica uma frônese, que ultrapassa ao campo meramente do imanente, o campo da ciência e exige um estudo que penetra no terreno da metafísica. As inclinações altruístas e sociais são, quanto ao objeto, inclinações familiares: o amor distinguido do puramente sexual, como o amor aos pais, aos filhos, etc., o qual segundo os objetivos que o qualificam toma o nome de amor filial, paternal, etc.; a amizade, que para Tomás de Aquino é um amor de benevolência mútua, fundada sobre uma certa comunicação, é um dos temas mais controversos da psicologia. Quem nunca teve um amigo, não acredita nele; quem já os teve, afirma a amizade. Sem reciprocidade não há amizade. Esta pode formar-se entre vários, mas a ideal é entre dois. A camaradagem é um início de amizades sólidas, mas apenas isso. Entre as inclinações sociais temos: o espírito de classe, de grupo, que une fortemente as pessoas e dá-lhes o sentido da solidariedade ( solidus, sólido, um bloco só), o sentimento patriótico, o humanitarismo.