Ser
Depois da análise desenvolvida no pensamento medieval sobre o ser, verificamos que, em estudos mais atuais o ser passa a esvaziar-se, chegando alguns a negar-lhe qualquer conteúdo. Alguns propõem substituí-la pelo sendo, part. presente do verbo ser. Substituem, assim, o infinito, ou melhor o indefinido ser, pelo part. presente (no lat. ens, entis, no gr. on, onto). E apresentam diversas razões em favor de sua opinião, já refutadas na obra dos medievalistas. Vamos alinhar os argumentos, para depois respondê-los:
- Que o ser é algo que não vemos, não tocamos, não sentimos, como vemos a cor e tocamos um objeto. Estes são um sendo, mas e o ser?
- Que o termo ser é uma palavra vazia. Não indica nada de efetivo, de captável, de real, "eterno fumo de uma realidade que se volatiliza" (Nietzsche);
- Que o termo ser é um substantivo verbal, que pertence à família verbal do eu sou, tu és, nós somos, etc., e nada mais.
Análise: Para os gregos ser significa presença, estabilidade, prosistência, o que tem sistência pro, para a frente, physis, e também permanência, o que mana através de, per. Conclui Heidegger, ao examinar o pensamento grego que, para existir (existência) significa não-ser, porque existir é o sair de uma estabilidade surgida de si mesma, a partir de si mesma. O grande defeito que há, em geral, no pensamento moderno sobre o significado de ser está em confundi-lo com o meramente lógico. Ora, o ser considerado apenas logicamente, é esvaziado de compreensão, por ter a máxima extensão, pois abrange tudo. Contudo se o termo logicamente é o de menor compreensão, pois ser é apenas ser, é ontologicamente o de máxima compreensão, porque tudo quanto há, é de certo modo, e ser é atribuído a tudo quanto há, ativa ou passivamente. Existir não é um afastar-se do ser, é um modo de ser no pleno exercício de seu ser, é o ente fora de suas causas. Conceber-se o conceito de ser apenas como estabilidade, como o que permanece sempre, e daí concluir que o que existe (o existente) é o que sai dessa estabilidade e, portanto, é não-ser, eis uma maneira primária de raciocinar. Ser é também estabilidade, é fluir, é sendo, porque tudo isso não pode receber a atribuição de nada. Pretender-se uma definição para o termo ser é inverter a ordem da lógica. Esse conceito é por nós captado de modo mais páthico que racional; revela-se sem que o possamos prender dentro de esquemas, porque é ele o fundamento dos esquemas e não estes daquele. Se ser fosse apenas um conceito construído por nós, seria fácil reduzi-lo a um esquema. Mas precisamente porque não é apenas um conceito, é que ele se nos escapa. Quando Suarez diz que ser é a aptidão para existir não o define, não delimita, mas apenas dá uma pathência do seu conteúdo, porque o que é, de certo modo pode existir, isto é, pode ser fora de suas causas, poderia dar-se no pleno exercício de seu ser ou modo de ser, pois só não o pode o impossível, o absurdo, o que absolutamente não é. Seria erro julgar que Suarez queria, com essa expressão, definir o ser. Era suficiente filósofo para saber que não poderia reduzir o ser a outra coisa, porque outra coisa que não o ser, seria o nada, e este não poderia ser gênero daquele, porque o ser não é uma espécie de nada. Consequentemente jamais pretenderia dizer que o ser consiste em... isso ou aquilo, se isso e aquilo é ser, a definição continuaria ainda sem estar formulada, e se não é ser, é nada, e o nada poderia definir o ser. E ademais definir é delimitar, e o conceito de ser não tem limitações, pois o que o limitaria? Se é o ser, limitaria a si mesmo; se é o nada, este então teria aptidão para limitar, e não seria nada, mas ser. O ser é o que dura, o que afirma, o que perdura, o que fundamenta tudo quanto é sendo para os modernos. É o fundamento de todo ente. Definir é reduzir a outros conceitos. Aristóteles estudou, e de modo definitivo, o que se entende por definição. Os conceitos transcendentais e os transcendentes são indefiníveis. Se ser fosse definível, o ser reduzir-se-ia a outro, e reduzir-se-ia a ser, o que seria tautológico. Em suma, ser é a perfeição pela qual algo é ente. Ser não é apenas o que é perceptível pelos sentidos (como o pretendiam os positivistas), o sensorialmente cognoscível, o que já merecera severas críticas de Platão, ao que se possa tocar, sentir, prender nas mãos. Ser transcende a todos os âmbitos dos conceitos, prescinde de todas as determinações, sem que se confunda com o que Hegel julgava que ele era. De amplíssima extensão, abrange tudo o que é existente e o possível. Se o alguma coisa que há não é ser, é nada e, nesse caso, esse alguma coisa não há, não acontece, não sucede, não perdura, não se dá. Dizer-se que alguma coisa que há é um sendo, um étant, um seind, um ens, é dizer que é algum modo de ser, e não mero nada. Não há lugar aqui para nenhuma outra posição. E se o que há é algo que flui, é então algo que flui, uma presença que flui, e não o nada que flui, porque o nada não poderia fluir, não poderia passar de um modo para outro, porque é a ausência de qualquer modo antes, durante e depois. O que flui, dura no seu fluir, perdura, é uma presença do fluir, uma presença fluindo, é alguma coisa, é, e não nada. É ser, em suma. É inútil, pois, tentar substituir o conceito de ser por outro, ou negar-lhe o direito de apresentar-se como o mais rico de conteúdo, o mais rico de compreensão, o mais perfeito, porque inclui todos os modos de ser, pois esses são modos de ser, e não do nada. Ademais onticamente o ser é o fundamento de tudo quanto há. Assim se deve distinguir:
ser como entidade lógica: máxima extensão, mínima compreensão;
ser ontologicamente considerado: máxima extensão e máxima compreensão, porque tudo que é, é ser;
ser como entidade ôntica: mínima extensão e mínima compreensão (porque é apenas essencial e existentemente ser). O primeiro é atribuído a todos os entes. O segundo é afirmado de todas as perfeições, e o terceiro é a perfeição suprema de ser, é o que é apenas ser, que é o serem sua primordialidade.
Heidegger examina as quatro cisões que surgem do exame sobre o ser: ser e devir, ser e aparência, ser e pensar, ser e dever e conclui:
"Ser nos apareceu, desde início, como uma palavra vazia, ou de significação evanescente. Que é assim tal nos apareceu como um fato incontestável entre outros. Mas finalmente revelou-se que, aparentemente, não colocava a questão, e podia ser interrogado mais, era a coisa mais digna de pergunta. Ser e a compreensão do ser não são dados de fato. O ser é o acontecimento fundamental, e é somente a partir desse acontecimento fundamental, e é somente a partir desse fundamento, que se encontra conferido 'ao ser-aí, proventual no seio do sendo em totalidade posto a descoberto'. E prossegue: 'As indicações dadas sobre o emprego corrente, e contudo bastante variado, do ‘é’, nos convenceram do seguinte: é totalmente errôneo falar da indeterminação e do vazio do ser. É o ‘é’ que determina a significação e o conteúdo do infinito ‘ser’; e não a inversa. Contudo podemos também compreender porque é assim. O ‘é’ é considerado como cópula, como pequena palavra de relação (Kant) no seio da proposição. Esta contém o ‘é’. Mas como a proposição, o logos adquiriu, enquanto categoria, a jurisdição sobre o ser, é ela que, a partir do seu ‘é’, determina o ser.'"
Ora, dizer que ser é o indeterminado, mas que se determina plenamente, é afirmar haver aí manifesta contradição; é confundir as diversas acepções que o conceito de determinação pode tomar. Ser, enquanto gramaticalmente verbo, enquanto conceito lógico, é indeterminado, é a máxima indeterminação. Não porém enquanto conceito ontológico, que é a máxima determinação, pois o ser é determinado por si mesmo e não por outro, quando tomado ontologicamente. A constante confusão que há entre o lógico e o ontológico é que leva a outras confusões como essa, e finalmente, à afirmativa de haver contradição, onde realmente não há. O ser não contradiz a si mesmo, quando afirmado, como plenamente ser. A determinação, aqui, não é dada por outro, mas apenas é a do seu próprio perfil. O ser é ser, determinadamente ser. Quando aplicado à heterogeneidade das coisas que são, dos sendos que são, é ele indeterminado, porque aqui é um atributo lógico, enquanto antes é um conteúdo ontológico. "A palavra ‘ser’ é, portanto, indeterminada em sua significação, e contudo a compreendemos de uma maneira determinada. ‘Ser’ revela-se como um plenamente - indeterminado - eminentemente - determinado. Segundo a lógica ordinária há aqui uma contradição manifesta. Ora, alguma coisa que se contradiz não pode ser. Não há o círculo quadrado. E contudo há essa contradição; o ser concebido como o plenamente indeterminado, que é determinado" (Heidegger). Na verdade o ser logicamente considerado é a máxima indeterminação, mas ontologicamente é a máxima determinação real. Só há contradição se fosse na mesma esfera. E aí está tomado em esferas diferentes. Ser, como entidade lógica, é o summus genus, o gênero supremo ao qual se reduzem apenas logicamente todas as coisas. Mas ser ontologicamente não é o gênero supremo, mas é a razão que dá o ser a tudo que é, a razão que dá a afirmação a tudo que é. E o ser, ônticamente considerado, não é nem determinado nem indeterminado, porque ultrapassa a todos os pares de contrários que a mente humana cria. É a afirmação plena de si mesmo, a eterna presença de si mesmo. Quanto ao argumento primário dos que querem o ser nas suas mãos para pesá-lo, para certamente determinar a sua dureza, a sua resistência, etc., ou que desejam transformá-lo num objeto óptico ou auditivo, é tão ingênuo, que nem se pode levar em consideração. Quanto, porém, aos que afirmam que não conhecemos o ser direta ou imediatamente, devemos lembrar que todo conhecimento se processa através de uma assimilação, e depende pois de esquemas acomodados, que assimilam o conteúdo objetivo. Ora, o homem é um ser híbrido e deficiente, e não poderia captar, direta ou imediatamente, o ser em toda a sua pureza, porque todo o seu conhecimento, pela hibridez de seus esquemas, é consequentemente híbrido. Mas se não pode conhecer o ser totaliter, o que o poria em estado de beatitude completa, pode no entanto conhecê-lo como totum, em todas as suas experiências, porque na heterogeneidade destas ele esplende sempre, porque há sempre uma experiência de ser na heterogeneidade dos fatos, que se torna a matéria bruta da sua especulação filosófica, que é reduzida a esquemas intelectuais, constituídos posteriormente.