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Religião

Religião

(do lat., freqüentemente considerado, em sua origem etimológica, como proveniente de re-ligare) É tudo quanto religa o homem com a divindade. Se realmente há na religião, e sobretudo em suas práticas, um "ligar de novo" o homem ao seu criador, através dos meios que ela oferece, preferimos a origem do gr. do verbo alegeyn s, venerar. Alegô, ocupo-me de, inquieto-me por. Religião é de étimo duvidoso e as discussões sobre sua origem interessaram a diversos estudiosos. No entanto, tanto em re-ligare ou em relegere, "ler" de novo ou percorrer de novo um caminho, temos sempre a idéia de dois termos que se ligam: um termo de partida e um de chegada, em que princípio e fim são o mesmo. Se atendermos para o radical leg, de lec, de onde lego, logos, relego, captar, colher de novo, re-ler ( legere é colher), captar os sinais inscritos. Religio, em lat., é algo que ocupa, preocupa, o mesmo que alegô, no gr.

Em face do mundo, o ser humano primitivo encontrou-se ante forças adversas. Em face de tudo, de todos os enigmas e mistérios da existência, pôs-se a venerar, a prestar homenagens por palavras (logos) por atitudes, gestos às forças que ele magicamente procurava dominar ou desviar, ou apenas venerar. A religião é esse venerar do homem, por meio de práticas, aos poderes que ele considera superiores a si, e os quais o preocupam, pois ele os teme. É compreensível facilmente que esse conceito de religião é muito elementar e primário, mas adequa-se perfeitamente ao primarismo do homem nessa fase em que os poderes opositivos eram para ele motivo de terror. E terror e veneração aterrorizada foi a sua primeira manifestação religiosa. Mas os valores positivos também se revelam. E se há um poder do mal, há um poder do bem. Aterroriza-o o poder do mal, mas alegra-o o poder do bem., Entre o terror e a satisfação instala-se o temor, meio termo feito de esperanças e de dúvidas.

a)

ou uma religião do terror – E terror e veneração aterrorizada foi a sua primeira manifestação religiosa.


b)

ou uma religião do temor – Entre o terror e a satisfação instala-se o temor, meio termo feito de esperanças e de dúvidas.


c)

a religião do amor – sem que os elementos do terror e do temor deixem de permanecer nela. Há religião do amor quando os valores positivos que são atribuídos à divindade e passam a ser valores divinos são oferecidos ao homem contra os valores opositivos, que são atribuídos ao anti-deus, ao diabo, ao demônio.

A catarse, a descarga emotiva do ser humano, como na estética, leva o homem a manifestar a emoção que lhe causa o terror e o temor cósmicos, que dele se apossam ante a morte, ante o espaço e ante o tempo, que já se esboçam nele como impossibilidades, que ele não pode vencer nem dominar. A religião tem assim uma raiz nos fatores emergentes, que são os bionômicos e os psicológicos, nela contribuindo os fatores histórico-sociais, diretamente construídos sobre aqueles. O desenvolvimento da teologia, nos períodos especulativos, em que o homem emprega a inteligência e o saber epistêmico à análise das crenças religiosas, que têm uma raiz emergente muito mais poderosa do que julgam muitos, e que traz a marca de alta cultura, levam-no a compreender mais profundamente o sentimento religioso, não como uma simples manifestação do terror e do temor cósmicos, mas a compreender que o cósmico é um símbolo de algo mais profundo, de um referido oculto, que é o grande simbolizado, o princípio, a origem de tudo, o Ser Supremo.

O ser humano toda a vez que não pode resolver uma dificuldade por meios técnicos lança mão de meios mágicos. Na técnica que é o emprego sistemático de meios para a obtenção de fins, há sempre uma relação rigorosa de causa e efeito, enquanto na magia essa relação não é rigorosamente adequada, pois pode aceitar-se que pequenas causas realizam grandes efeitos ou não. Não há sociedade sem magia e sem técnica, No entanto, entre ambas pode variar, nunca chegando nenhuma delas a desaparecer totalmente. Na gênese da religião penetra tanto a técnica como a magia. Pois a magia é uma "técnica" sem rigorismo de adequação entre causa e efeito, enquanto a técnica é uma "magia" com esse rigorismo, pois esta pretende dar mais poder. A religião, no entanto, não pertence apenas ao campo histórico-social, pois nela penetram os fatores emergentes que incluem os bionômicos e os psicólogos. E nesses fatores e através deles a catarse, a emoção exteriorizada manifesta-se em arte, em pensamento, em querer. Por isso não há religião sem uma arte, sem um pensamento e sem um querer.

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