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Relação

Relação

(do lat. relatum, part. pass. de refero, de re e fero, “trazer”). A relação consiste apenas em haver-se o que é ante outro. O ser da relação é um ser debilíssimo e funda-se, no mínimo, em dois que tenham ordem um ao outro. O que a caracteriza é o grau de realidade dos termos relacionados. Duas coisas semelhantes são semelhantes em algo; é esse em algo, que dá positividade concreta à relação. Ora, o que se baseia no fundamento é ontologicamente posterior ao fundamento, ou seja o fundamento é ontologicamente posterior ao fundamentante. A relação é um ens mínimum e o que lhe dá consistência é o fundamento, que são os termos, cujo grau de realidade empresta um grau de realidade à relação. Tomar esse ens mínimum abstratamente é o que gera tantos erros na filosofia.

Já no tempo de Sócrates os megáricos negavam a relação. Diziam que nenhuma coisa poderia ser qualidade de outra: não podemos dizer que cavalo corre, porque a idéia de cavalo é uma idéia e a de correr é outra. Não viam nenhuma legitimação possível da síntese operada pelo homem no juízo. Haviam, assim, sujeitos sem comunicação com os seus atributos e sem comunicação uns com os outros. Se assim é, não há mudança, não há movimento no universo, há apenas termos e as relações são apenas aparências. Platão combateu-os afirmando que há possibilidade do juízo, porque o espírito humano pode ligar, contrariamente ao que pensavam os megáricos, termos diferentes. O espírito humano está em relação com outras coisas além deles, e pode estabelecer relações que correspondem à relação que existe entre as coisas. Tal é a dupla condição da verdade. O espírito humano está em relação com outras coisas, e aqui Platão coloca o que é fundamento e princípio da fenomenologia de Husserl: uma idéia é sempre idéia de alguma coisa. E, em segundo lugar, o juízo é um enunciado de relações; um juízo verdadeiro é um enunciado de relações que são reais. O universo de Platão é um universo de relações. Para que uma idéia seja a idéia que ela é, supõe que é outra do que as outras idéias, isto é, que a própria identidade é uma relação, é a afirmação que uma coisa é outra que as outras e a mesma que ela mesma. Posteriormente Hegel postulará que pensar no ser é pensar no não-ser, e que a idéia de unidade exige a de multiplicidade. A teoria que nega absolutamente as relações termina na negação do ser e da verdade, o que também se dá numa teoria que apenas afirme que tudo é relação. Se pensamos, dizia Platão, pensamos alguma coisa diferente do nosso espírito. Verdade é o fato de as relações que temos em nossos pensamentos convirem às relações que estão nas coisas; e erro, o desacordo entre as representações e as coisas. Em toda afirmação, continuava, está implicada uma idéia de negação, pois afirmar uma coisa, é também dizer que ela é diferente das outras. Toda idéia se define por sua diferença às outras.

A relação significa apenas referência a outro (re-latum). Para os escolásticos a relação transcendental é apenas relação no nome, porque enquanto à sua essência, se identifica com os seres aos quais é atribuída. O ser do relativo é um referir-se a outro. a sua natureza consiste em certa referência de uma coisa a outra. O prós ti, o para alguma coisa, o ad-áliquid dos escolásticos, a relação é o ser cujo ser consiste no para, ante algo. Prós ti é o relativo para ele. Nos Comentários à Física de Aristóteles, Tomás de Aquino sintetiza a definição do peripatético nestas palavras: a relação consiste unicamente na referência a outro (re-fero, trazer para..., no part. pas. re-latum, de onde relatio, relativo, relação, o que corresponde ao prós ti). É uma definição muito ampla, mas que inclui todas espécies de relação. Duns Scot definiu Relatio est essentialiter habitudo ad aliud, a relação é essencialmente a habitudo a alguma coisa, o haver-se ante alguma coisa, o habere ad, o referri ad, o ad-áliquid, o respectus, o esse ad. Esse ad é da sua essência.

Nas categorias aristotélicas a relação é um acidente. Para Tomás de Aquino a relação não é uma realidade objetiva em si; ela representa apenas o ad-áliquid. Em outras palavras: a relação é um ser assistencial. Sua sistência consistiria apenas nesse ad-áliquid, nesse prós ti, não tendo uma subsistência, um suppositum, uma entidade de per se (perseitas, perseidade). Contudo, não se julgue que Tomás de Aquino, desse modo, ponha a perder a relação, pois a admite real, quando seus fundamentos são reais. Se a relação de per se não tem subsistência, subsiste, no entanto, em outros, os quais lhe dão realidade. A relação predicamental seria uma relação ad-áliquid para algo, enquanto a transcendental seria ab aliquo de algo, vinda de algo.

Na Metafísica diz Aristóteles: “A relação é, de todas as categorias, aquela que tem a menor realidade determinada ou substância; ela é até posterior à qualidade e à quantidade... É, portanto, absurdo ou antes impossível fazer do que não é uma substância, um elemento de coisas que são uma substância e de fazer dela uma coisa anterior à substância, pois todas as outras categorias, além da substância são posteriores a esta”. A relação deve sustentar-se numa base sólida para ser real, como o expôs Tomás de Aquino. Relatio autem semper fundatur super aliquid absolutum (a relação, contudo, sempre se funda sobre algo absoluto). A substância é o substrato das relações reais: Substantia est fundamentum omnium entium (a substância é o fundamento de todos os entes). Mas admite Tomás de Aquino que outras categorias possam servir de fundamento para a relação. Assim a relação de semelhança funda-se na qualidade. Quanto à igualdade, que é a concordância na quantidade, é nesta que se funda a relação.

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