Raciocínio
Há grande diferença entre o pensar e o pensamento; o primeiro é um ato psicológico que cabe à psicologia estudar, enquanto o segundo, apreendido pelo primeiro, é propriamente o objeto da lógica. O ato de pensar processa-se no tempo, é variante como processo, enquanto o pensamento é intemporal, invariante. O raciocínio pode ser estudado sob dois aspectos: a) o psicológico e b) o lógico.
A definição de raciocínio dada por Aristóteles:
"Operação discursiva, pela qual se mostra que uma ou diversas proposições (premissas) implicam uma outra proposição (conclusão), ou pelo menos tornam esta verosimilhante."
Em outras palavras, o pensar quando consiste na apreensão de uma série ordenada de pensamentos entrosados entre si, de modo que o último decorre necessariamente do primeiro, temos o que se chama o raciocínio. Só há raciocínio quando inferimos um pensamento de outro pensamento. Podemos começar de um fato singular para chegar a uma conclusão geral, ou de uma conclusão geral para concluir que o singular está contido naquela. Podem ser diversos os raciocínios, mas em todos eles há sempre a derivação de um pensamento de outro, o qual contém aquele.
O conhecimento pode ser dado por atos de apreensão imediata, ou então provir de processos mais complexos, mediatos (por meio de...). No primeiro caso temos o conhecimento intuitivo, e no segundo o conhecimento discursivo. O primeiro é dado pela experiência direta, como ao verificarmos que esta mesa é maior que o livro. O saber discursivo ou saber racional é o que resulta de conhecimentos anteriores e podemos dar como exemplo "todo o homem é mortal". Só chegamos a este conhecimento depois de feita a verificação de uma série de fatos e de uma conclusão posterior.
Os processos discursivos são simples ou complexos: a) simples, quando de um conhecimento se infere diretamente outro; também se chama inferência imediata; b) complexos, quando a passagem de um a outro é feita através, pelo menos, de um membro intermediário, como os raciocínios dedutivos, os matemáticos, os indutivos e os por analogia.
Nos processos discursivos complexos (raciocínios mediatos, inferências mediatas), a passagem de um conhecimento a outro é feita através de, pelo menos, um membro intermediário. São conhecidos tradicionalmente por duas classes: indução e dedução. Geralmente se define a indução como a passagem do particular ao geral, enquanto a dedução é a passagem do geral para o particular.
No raciocínio há apreensões de pensamentos e de suas significações, e estes formam um todo, uma unidade. É o que se dá no raciocínio intuitivo. No raciocínio discursivo há a inferência de um pensamento de outro. Desta forma ele reduz-se ao primeiro, pois é apenas uma forma complexa daquele.
A dedução funda-se nos princípios lógicos (princípios de identidade, de não-contradição, do terceiro excluído e de razão suficiente) que são verdadeiros axiomas para a lógica formal, os quais regem todos os entes lógicos e os objetos ideais.
A dedução não se baseia em princípios lógicos, mas na opinião da regularidade do curso da natureza, em certa homogeneidade da sucessão dos fatos, regularidade hipotética para muitos, mas que é fundamental para a indução, que nela se fundamenta. As chamadas leis científicas, as induções da ciência partem da repetição dos fatos singulares e da regularidade da sua repetição. Assim a regularidade dos movimentos planetários não é captada pela razão, mas pela repetição dos fatos.
Se forem examinados os fatos da realidade física, a observação dos fatos singulares e dos particulares permitirá que, fundado num postulado da regularidade dos fatos cósmicos, fundamento da ciência, estabeleça-se a hipótese de que eles continuarão a suceder, assim, no futuro, o que leva à formulação dos universais induzidos. Não há intuição sensível do universal. A intuição sensível é só do singular, do individual. O universal é fundado nos fatos singulares.
Dessa forma a dedução se baseia numa indução prévia. Mas a formulação de um universal implica a aceitação da possibilidade de formular o universal. Então temos de admitir que, para formularmos duma indução um universal, impõe-se previamente a aceitação da possibilidade do universal. E como nos é dada essa possibilidade? Ela decorre da repetição dos fatos, cujo acontecer, no passado e no presente, faz-nos admitir a possibilidade de se reproduzirem no futuro. Como o futuro vem a evidenciar a atualização dessa possibilidade formulamos, sob a influência da parte racional do nosso espírito, que deseja a homogeneidade (que se funda no semelhante), que existe uma regularidade nos fatos cósmicos. Fundados nessa regularidade conseguimos dar o salto da indução ao universal, ponto de partida da dedução posterior. Por isso, ao alcançar do universal não é apenas uma decorrência da indução, pois esta é corroborada pela aceitação do princípio, hipotético ou não (o que não cabe por ora discutir), de uma regularidade universal, de certa legalidade universal, de que o cosmos é realmente ordenado por constantes que não variam (invariantes) e que permitem a formulação de princípios universais.