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Psíquico-Fisiológico (Paralelismo)

Paralelismo

Segundo essa teoria, surgida desde Leibniz, e desenvolvida até nossos dias, os fatos psíquicos e os fisiológicos constituem duas séries paralelas. Segundo Leibniz não há nenhuma atuação da alma sobre o corpo nem vice-versa, embora haja uma correspondência do estado de um com o de outro. Seriam como dois relógios que marcam as mesmas horas, sem que um exerça ação sobre o outro, e ambos funcionem obedecendo à harmonia preestabelecida por Deus. Os paralelistas modernos aceitam a independência dos fatos psíquicos de os fisiológicos, mas não admitem a intervenção divina. Para muitos deles, como Claparède, o paralelismo é apenas uma hipótese provisória para facilitar as observações; para outros é uma afirmação, uma tese decisiva. Estes são os paralelismos doutrinais, como os de Taine, Hoeffding, Paulsen, etc.

Para os contemporâneos:

a)

há uma equivalência absoluta entre os processos cerebrais e os processos mentais. Claparède criticava os psicólogos por quererem resolver as relações entre a alma e o corpo, pois tais temas ultrapassam o campo da ciência e devem ser estudados pela filosofia. A irredutibilidade, afirmava ele, é evidente; a heterogeneidade é flagrante e a única relação que podemos captar é a da simultaneidade entre ambos, isto é, que os fenômenos de consciência dão-se no mesmo tempo que os cerebrais, ou seja, o processo físico-químico, o que revela uma concomitância, um paralelismo. A psicologia pode registrar esse paralelismo, não explicá-lo, pois tal enigma escapa ao campo propriamente científico e pertence ao da filosofia.


b)

a equivalência absoluta explica-se por uma identidade fundamental, uma correspondência estreita entre o psíquico e o fisiológico.


c)

não há nenhuma ação causal entre as duas séries.

A teoria paralelista fundamenta-se sobre dois argumentos:

1) Os fatos da experiência superam a idéia do paralelismo. Chora-se de prazer como de dor, pois: "é difícil saber se um indivíduo chora ou ri, quando não se vê o seu rosto, e quando nos dirigimos ao pneumógrafo para anotar as respirações do choro e do riso, obtêm-se traços em que as convulsões das expirações se inscrevem da mesma maneira com os mesmos períodos curtos..." (Dumas). Sabe-se, também, que há modificações fisiológicas às quais não correspondem fenômenos psíquicos.

2) Como argumento racional. Como compreender a ação do espírito sobre o corpo quando são ambos fundamentalmente heterogêneos, de natureza e ordens diferentes?

A tais argumentos Bergson propõe uma posição de paralelismo unilateral, estabelecendo que a todo fato psíquico corresponde um fato fisiológico, e não a recíproca, isto é, há fatos fisiológicos sem correspondência a fatos psíquicos.

"Por haver solidariedade entre o estado de consciência e o cerebral, não se pode concluir no paralelismo das duas séries, a roupa e o prego ao qual está presa, pois se tirarmos o prego, a roupa cai. Dir-se-á que, por isso, a forma do prego desenha a forma da roupa e nos permite de alguma maneira pressenti-la? Assim, do fato de estar ligado um fato psicológico a um fato cerebral não se pode concluir o paralelismo das duas séries, a psicológica e a fisiológica".

Huxley e Maudley foram os fundadores do epifenomenismo, cujas teses estabelecem:

a)

os fatos psíquicos são apenas tomadas de consciência de modificações cerebrais. Dessa forma, todo fenômeno psíquico se funda no fisiológico; é um fenômeno em torno (epi) de, epifenômeno, fenômeno acessório, portanto;


b)

a tomada de consciência não influi sobre o orgânico. "A consciência ...é como o silvo que acompanha o trabalho de uma locomotiva, sem influência sobre o seu mecanismo". (Huxley). "Um homem não seria uma máquina intelectual inferior sem a consciência de que com ela... o agente continuaria sua atividade, na ausência de testemunha..."(Maudsley). "Todas as operações, nas quais consideramos a consciência como ativa, são dirigidas pelas mudanças materiais, que são conscientes, mas que atuam enquanto mutações materiais, e não por serem conscientes..."(Le Dantec). O ruído que produz um galho ao quebrar-se não é o que causa a quebra do galho, mas é apenas um epifenômeno. Desta forma os fatos inconscientes seriam apenas fatos psíquicos aos quais faltam o epifenomenismo da consciência, como um quebrar de galho, sem que se ouvisse.

Crítica

Ele encontra em suas palavras e argumentos a antítese dos mesmos. A testemunha de Maudsley, na frase citada, é virtualizada, mas é importante, como o é sempre. A consciência, como testemunha, não é explicada. Se é incompreensível que um desejo, uma representação, um esquema operatório atuem sobre o organismo, é menos compreensível que modificações fisiológicas sejam acompanhadas desse epifenômeno, a consciência. Além disso, onde as provas de tais afirmativas? Por que uns são acompanhados de consciência e outros não? Que é epifenômeno neste sentido, sobretudo? Ou é algo ou é nada. Se tem uma realidade, a consciência a tem. Ela é uma realidade e escamoteá-la não é resolve-la. O epifenomenismo procede pelo velho erro, o de virtualizar o que não sabemos explicar. Não explica a consciência; apenas quer privá-la da realidade. A consciência é uma realidade, e vêm a seu favor as experiências da psicologia atual, quanto a atuação das idéias sobre o homem. Há uma contemporaneidade entre a consciência e o fato fisiológico, e as respostas à tais posições implicam o estudo da consciência. Ribot reconhece as dificuldades que tal posição oferece, pois como se poderia explicar que certos fatos cerebrais sejam acompanhados, e outros não, do reflexo da consciência? "As disposições psicológicas individuais determinam a maneira particular pela qual o espírito reage sob a influência dos processos patológicos do cérebro", afirma Jaspers. E muitos fatos levam alguns psicólogos a tornarem os fatos fisiológicos acessórios dos psicológicos. Nesse caso, o fisiológico tornar-se-ia epifenômeno e estaríamos em face de outra posição unilateral. O reconhecimento da contemporaneidade oferece-nos melhor campo de observações, de pesquisas e até de soluções. O psíquico é inseparável do fisiológico; este é, de certo modo, exteriorização daquele.

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