Psicologia
(do gr. psykhê, alma, e logos, ciência, tratado).
Etimologicamente é ciência da alma, e esta tem sido a definição classicamente aceita. O termo psychologia foi criado por Melanchton e usado por Glocênio (séc. XVII). A expressão alma refere-se a algo que a experiência exterior não pode alcançar, salvo as suas manifestações, como é considerada pela metafísica clássica, pois os teólogos sempre a consideraram um ser espiritual, forma do corpo, e que sobrevive à sua morte. É ela a sede de nossos sentimentos e de nossos pensamentos, permanecendo imutável, apesar de todos os estados transeuntes pelos quais passa.
Atualmente a psicologia não estuda a alma sob esse aspecto, embora não tome uma posição decidida quanto ao problema do espiritual e do material, ou seja, não é nem materialista nem espiritualista. Ela restringe o objeto de suas pesquisas, observações, análises, nos quais procura descobrir a legalidade dos chamados fenômenos psíquicos, regionalmente, isto é, circunscreve-se a um campo restrito, sem maiores preocupações de caráter metafísico. O estudo metafísico da psicologia pertence à noologia e à cosmologia. A psicologia não pode penetrar no terreno das origens, muito embora no decorrer da sua atividade tenha que tocar em temas que interessam mais diretamente à filosofia, pois dizem respeito a objetos que só filosoficamente podem ser tratados. Atualmente a psicologia tomou um caráter científico, afastando-se da teoria clássica. A observação dos fenômenos psíquicos, tais como os da consciência, as sensações, os sentimentos, os raciocínios, os complexos, a memória, os desejos, etc., permitiram que ela fosse construída sobre bases científicas, principalmente depois que lhe foi aplicado o método experimental. Desta forma procura evidenciar, no fenômeno psicológico observável, não mais uma faculdade, mas estabelecer relações de sucessão regular entre os fenômenos psicológicos. Na clássica, a alma era considerada como possuidora de determinadas faculdades, tais como a percepção, o raciocínio e a volição. A psicologia moderna não fundamenta mais os fenômenos psíquicos sobre faculdades, e quando emprega este termo o faz como uma expressão cômoda, para compreensão geral. Contudo, para os escolásticos faculdade quer dizer apenas potência e não entidades de per si subsistentes como muitos julgaram ser esse o pensamento escolástico. É ela o estudo de certos campos de consciência que formam o nosso psiquismo, e segundo a tendência mais moderna da filosofia, estes são irredutíveis, isto é, não se reduzem a outros. Assim os fenômenos psíquicos não podem ser explicados apenas como fenômenos biológicos, como estes não podem ser explicados como meros fenômenos físicos. Há estruturas que formam campos irredutíveis no conhecimento. A psicologia tem um campo próprio de ação, um objeto próprio, irredutível às outras ciências. A idéia da faculdade era considerada antigamente como um poder especial de fazer ou sofrer um certo gênero de ação. A teoria das faculdades não admitia uma cisão do psiquismo. A alma era considerada como uma unidade indissolúvel, que se manifesta ora como pensamento, ora como atividade (vontade), ora como sentimento. Desta forma, segundo as operações da alma, segundo sua maneira de atuar ou de sentir, é que se manifestavam estas faculdades. Psicólogos modernos dispensam as expressões alma e faculdade, em vista das acepções pronunciadamente metafísicas que têm, e transformam-na numa ciência da vida mental e das suas leis, ou seja, numa ciência dos estados de consciência enquanto tais, usando as observações e as experiências como meios para a construção dos seus princípios. Por isso se manifesta, na psicologia moderna, mais um trabalho de investigação dos fatos do que a construção de grandes sínteses ou de sistemas. Numerosos são os psicólogos que se preocupam mais com a observação dos fatos isolados ou do seu entrelaçamento, sem se aterem a uma concepção geral, nem tampouco se proporem a construir sistemas, por considerarem que, no ponto em que nos encontramos, muitos afastados ainda estamos de podermos realizar esta grande síntese. Não obstante são também numerosos aqueles que constróem sistemas de psicologia, os quais, na maior parte das vezes, não têm podido vencer o tempo e caem espetacularmente, enquanto outros se arrastam dentro de uma existência estéril, prestes a serem abandonados.
Divisão da psicologia
- Psicologia racional ou metafísica — a que busca o fundamento metafísico dos fatos psíquicos, que aborda os temas da existência da alma, da sua imortalidade, etc.
- Psicologia empírica — observa os fenômenos psíquicos e estabelece e capta as causas, leis, condições de seu surgimento, cujas afirmações são controláveis pelos fatos. Ela segue os métodos científicos, e está para a psicologia racional assim como as ciências naturais para a filosofia natural. Tal não impede haver entre ambas pontos de contato, o que é realizado, sobretudo, pela noologia. Podem estabelecer-se outras classificações, pois poderíamos distinguir, na experimental, uma psicologia teórica ou geral, que é uma psicologia de observações, teoricamente estruturada, e uma psicologia de laboratório (freqüentemente chamada de experimental). Uma terceira possibilidade de classificação seria a psicologia prática ou aplicada, de base empírica, mas construída através de buscas metódicas e da contribuição geral de homens experimentados que, nas mãos de especialistas, transformam-se num conjunto de normas práticas, não só de observação como de aplicação, sem desprezar as contribuições dos outros ramos da psicologia. Também se usa a expressão psicologia em profundidade. Distinguí-la-íamos como a que orienta as suas observações e buscas no mais íntimo do ser humano, como o procede a psicanálise e seus diversos setores e tendências, bem como práticas afins.
Apresentamos uma definição da psicologia: é um saber teórico e prático dos fatos psíquicos que, partindo da observação dos mesmos, busca determinar suas condições, natureza, causas, constantes, leis, bem como aplicar seus conhecimentos em benefício do homem. Nesse enunciado incluímos já a contribuição da psicologia a outras ciências, como à educação, à sociologia, à moral etc. Há um preconceito muito comum entre psicólogos modernos, mais afeitos à psicologia empírica, de que a psicologia clássica era meramente abstrata. Entre os escolásticos foram distinguidas perfeitamente as observações de ordem empírica das especulativas. Que a psicologia, seguindo as normas científicas, deve ser uma "psicologia sem alma", nada se há de alegar, pois não cabe propriamente à ciência, no sentido em que em geral tomamos esse termo, investigar num terreno que é meramente filosófico.