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Prazer E Dor (Análise)

Sensibilidade

A sensibilidade, para os filósofos, é irritabilidade, excitabilidade. Para os psicólogos é ora a faculdade de perceber, ora a de experimentar prazer e dor. Em cada um dos instantes da vida psicológica há prazer ou dor e, às vezes, ambos.

A vida psicológica não é independente da parte somática (do corpo) do ser humano. Tal não consiste em reduzir os fatos psicológicos a fatos meramente fisiológicos. Mas se negamos a redutibilidade de uns aos outros, é porque reconhecemos que o grupo de fatos que formam os psicológicos têm intensidade e características próprias, com objeto também próprio, mas que mantém correlação com os fatos fisiológicos. Não há vida psíquica sem repercussões fisiológicas, como também não deve haver fatos fisiológicos que não tenham qualquer repercussão psíquica, embora muitos deles permaneçam inconscientes.

Prazer e dor são logicamente indefiníveis. Entretanto são tópicos, localizáveis. Alegria e tristeza são estados páthicos, não tópicos. Não temos uma alegria ou uma tristeza aqui ou ali, mas sim uma dor aqui ou ali. Toda a vida afetiva (páthica) está ligada à sensibilidade (portanto à vida orgânica, ao somático). O prazer e a dor são acompanhados de modificações periféricas ou extracerebrais. O prazer é dinamogênico, tonifica, enquanto a dor diminui o tonus e a energia física, abate.

O prazer tem, no entanto, limites variáveis e, quando ultrapassados, torna-se desagradável. A desagradabilidade já é um estado de generalização, e marca a passagem da sensibilidade à afetividade. O mesmo se dá com a agradabilidade. Sentimos, no prazer, uma agradabilidade. O prazer, que é teórico, generaliza um estado de bem estar; agradabilidade. Temos evidentemente a interpenetração da afetividade com a sensibilidade. A vida afetiva é inseparável da vida psíquica. Tal identificação dialética na unidade vital não implica a redutibilidade da vida afetiva à psíquica em geral, porque há nela distinções, estruturas qualitativas diferentes. O prazer e a dor são qualitativamente diferentes, embora se identifiquem na mesma raiz da sensibilidade.

A teoria fisiologista explica-os como consequência de modificações orgânicas. No entanto, considere-se a influência que a consciência (a atenção, portanto) exerce na agudização da dor. Por isso procuramos distrair os sofredores. A presença das modificações físicas afirma apenas a contemporaneidade, não uma mera sequência de causa e efeito.

Para os estoicos experimentar prazer é o saber-se feliz; sofrer é saber ou acreditar que se é infeliz. Para Descartes, o homem é apenas pensamento: quando ativo, temos a vontade; quando passivo, o entendimento. O prazer e a dor, quando passivos, são "percepções" ou "pensamentos" do entendimento. Os afetos são apenas modificações orgânicas, mas condicionadas ao entendimento. Mas a dor física precede a toda representação. Temos consciência de uma dor ao tê-la. Não é a consciência que a cria, mas é ela que a acompanha. Para os ativistas a afetividade é apenas um modo de atividade. Para os pessimistas a ação é sofrimento (Schopenhauer, Kant, etc.).

Pela lei da qualidade, há prazer quando há equivalência entre as forças dispendidas e as forças disponíveis. “Há prazer quando as forças disponíveis são dispendidas no sentido das tendências” (Grote). Com essa lei resolve-se a polêmica entre pessimistas e otimistas. A dor pode tornar-se prazer e vice-versa. Por sua vez há interpenetração de ambos. Este, além das forças disponíveis, causa desagradabilidade e, posteriormente, dor. Prazer — agradabilidade × desagradabilidade — dor. O prazer atinge e provoca um estado páthico-sensível de agradabilidade; aumentado, sobrevém o de desagradabilidade, prosseguindo-se o de dor. Mas deve convir-se que a dor está sempre presente ao prazer, com o qual se identifica na unidade do fato psíquico. Mas é virtualizada no instante de prazer. Sua intensidade é menor que a daquele. Prosseguindo a intensidade do prazer, atinge seu clímax, com a virtualidade ainda da dor, para suceder um decrescimento da intensidade prazerosa e aumentar a atualização da intensidade desprazerosa, até atingir um grau de plena atualidade, enquanto o prazer é virtualizado. Um não se torna, portanto, o outro; um atualiza ou virtualiza o outro. Essa concepção dialética do prazer e da dor evita as inúmeras polêmicas que se fundam em atualizações da nossa consciência e apenas sobre elas se estribam. A neurologia vem em favor desta tese. Tal teoria nos pode explicar porque há certo encanto na dor, como o interesse que temos pela tragédia. Há um prazer no horrível. Sua acentuação anormal cria o que posteriormente se chamaria de algofilia, de sadismo (prazer na provocação da dor em outro) e o masoquismo (prazer na provocação da dor em si mesmo). A virtualização de uma dor aumenta o grau de intensidade do prazer. Por isso sentimos prazer quando deixamos de sentir a dor. E vice-versa. Não há privação de um e de outro, mas apenas atualizações intensivas ou extensivas. São fundamentais em toda vida. Sua gradatividade nos explica a conceituação que tomam, e é essa mesma gradatividade que nos explica a impossibilidade de reduzir os fatos psíquicos aos esquemas formais, que não são gradativos, mas excludentes. Por isso, na psicologia, mais que em qualquer outra ciência, a dialética é metodologicamente mais proveitosa.

Para os pessimistas a dor é positiva; o prazer, não. Seria este privação daquela. Para os otimistas é o prazer que é positivo; a dor, pura privação daquele. Quanto à origem de ambos há duas teorias:

  1. a evolucionista explica que o que é bom para nós dá-nos prazer; o que é mau, desprazer. E tal se daria por seleção natural. Os primeiros seres tinham gostos e inclinações sem correspondência com a utilidade. Havia tendências nefastas que levaram ao desaparecimento de algumas espécies. Perduraram apenas aquelas que harmonizavam suas necessidades vitais. Essas sobreviveram e transmitiram aos descendentes suas tendências. Esta teoria explica porque temos prazer nos atos úteis, mas não explica porque temos prazer nos não-úteis e até prejudiciais. Poderiam, no entanto, os evolucionistas dizer que são ainda reminiscências desse primitivismo, pois a evolução ainda não terminou.
  2. a clássica afirma uma finalidade no mundo. O prazer sobrevém quando cumprimos essa finalidade; o desprazer, nos casos inversos. As tendências dos seres vivos são manifestações dessa necessidade.
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