Poupança
Como ato, é uma renúncia ao consumo presente de bens disponíveis. Pode ser livre ou forçada: é livre quando realizada sem constrangimento do agente econômico; é forçada quando o agente é pressionado por forças exteriores, quer econômicas, quer extra-econômicas a realizá-la (isto é, sob constrangimento).
Na poupança livre há vontade, há uma estima, uma apreciação posta em ato. Ao poupar reconhece o agente econômico que a utilidade futura de um bem é maior que a utilidade presente. Quer, com ela, prevenir. Há assim uma disparidade na apreciação utilidade presente e da utilidade futura. Em suma: poupar é renunciar à satisfação de uma necessidade presente, que experimentamos, desde que consideremos a satisfação de uma necessidade futura, que não podemos experimentar, mas da qual temos uma representação.
As coordenadas da poupança:
o agente econômico é uma representação do futuro;
a existência de uma energia suficiente para suportar um sacrifício presente.
Um dissipador puro, para o qual os bens têm uma utilidade no futuro igual a zero, forma um extremo oposto ao daquele que dá aos bens uma utilidade no futuro elevada ao máximo, chegando ao sacrifício da satisfação das necessidades mais elementares atuais: o avarento, o sovina, etc.
No caso da poupança como conjunto de bens, temos o conjunto de bens materiais que foram subtraídos ao consumo. Podem ser:
bens diretos quando são postos em reserva. Bens de consumo como os bens produzidos por uma economia fechada (agricultores, por exemplo), que os conservam para consumo futuro. Sendo bens de duração limitada, perecíveis, estão submetidos a riscos especiais de deterioração;
bens indiretos, quando formados de bens diferentes dos de consumo. São diversas as modalidades: o agente econômico, por meio de bens diretos, pode adquirir bens indiretos para poupança. Por exemplo, a troca de produtos agrícolas por arados, etc., e numa economia monetária, a venda no mercado de bens colhidos (trigo, café, etc.), e aquisição de bens indiretos como a moeda.
Poupança individual e poupança social. Quando os bens diretos ou indiretos são poupados voluntariamente e ficam à disposição de quem a efetuou, dá-se uma poupança individual. Quando é forçada, ela vai beneficiar a outros agentes econômicos ou ao Estado ou às coletividades públicas. É uma poupança social.
Poupança individual é toda provisão de bens proveniente de uma produção precedente, subtraída voluntariamente ao consumo, posta em reserva para o futuro, cujos poupadores individuais conservem a disponibilidade.
Poupança social é:
toda provisão de bens existentes num país num momento determinado, posta em reserva para o futuro, e resultante de um excesso da produção sobre o consumo, quaisquer que sejam os indivíduos e os grupos que têm dela a efetiva disposição.
— Marco Fanno
Essas noções são válidas para todos os sistemas econômicos.
Formas de poupança — Embora como função econômica ela seja invariante, suas formas e modalidades variam.
Na economia fechada, é feita pela provisão de bens de consumo. Essa fase é substituída por outra quando se dá tesourização, a qual se processa pela renúncia a um consumo presente para obter-se uma soma de moeda que não é colocada, mas que é guardada. Antes do aparecimento dos institutos de crédito, do desenvolvimento do capitalismo bancário, a tesourização era comum na Europa — onde foi mais desenvolvida — com a guarda de moeda não colocada. O desenvolvimento do sistema bancário e das operações de crédito permitiu um progresso na poupança. Deixaram de se dar as provisões em bens naturais e a tesourização em moeda para surgirem os depósitos em bancos, depósitos que variam. Quem dispõe de um supérfluo, confia-o a um banco. Este o coloca, emprestando-o a particulares ou a pessoas públicas. Desta forma, a soma depositada retorna ao mercado.
Na economia capitalista, a poupança se dá segundo as diversas estruturas dessa economia. No capitalismo atômico, liberal, de pequenas unidades, ela apresenta-se como uma poupança caracteristicamente individual e livre. Essas somas obtidas são confiadas a institutos bancários, numerosos e de pequenas dimensões. No capitalismo das grandes unidades e do monopólio, que é o atual capitalismo, os institutos de crédito são concentrados, os institutos bancários aumentam. Esses não estão mais ao sabor dos clientes, têm poder suficiente para imporem-se sobre eles.