Natureza
(do gr. physis, do verbo phyô, produzir, crescer)
A palavra, bem como os seus equivalentes, conservaram e aumentaram a variedade de significados. Essa consideração filosófica merece ser tomada como ponto de partida, porque conduz diretamente a uma definição do termo, que é a base para todos os empregos da palavra, e que vê no conceito de natureza a ideia de uma existência que se produz, ou pelo menos se determina a si mesma, em sua totalidade, ou só em parte, sem ter necessidade de uma causa externa. As principais acepções do termo podem ser obtidas, conforme J. Lachelier, pela aplicação à definição acima dada de três diferentes distinções, segundo se atribua essa ideia: 1) a um ser particular ou ao conjunto das coisas; 2) ao princípio intrínseco de produção e de determinação ou à coisa produzida e determinada; 3) a todos estes, considerando, ou a sua constituição material e mecânica ou a sua constituição formal e teleológica.
O que caracteriza essa palavra, particularmente, é o fato de em todos os empregos que tem, conservar sempre em segunda plana toda essa unidade de significação, que corresponde à definição acima, formando, cada, um sentido particular, apenas pela atenuação de certos traços, pondo em relevo outros que de momento são atualizados.
Partindo do primeiro termo da primeira distinção, nos deparamos diante da natureza concebida como “princípio vital” que estrutura e conserva a constituição de um ser particular. É o que temos em mente quando se fala na Vis medicatrix naturae, força medicadora da natureza. É este sentido uma combinação do primeiro termo da primeira e do primeiro termo da segunda distinção.
Combinando o 1º termo da 1ª distinção com o 2° da 2ª, a natureza aparece como a própria essência das coisas, produzida por aquele princípio vital. Assim natureza de uma legislação, natureza de uma ciência, natureza específica de uma coisa, etc.
Tomando a representação da constância da essência em oposição à mutação dos caracteres acidentais, como base de uma nova acepção da natureza, natural é tudo o que tem uma espécie, e particularmente na humanidade, esse caráter constante, isto é, tudo o que é inato, congênito, instintivo: o estado em que nascem os homens. Este sentido reflete a concepção teológica da natureza corrompida do homem como oposta àquele que sofreu a transformação sobrenatural pela graça.
Da mesma maneira significa a estado natural que caracteriza o homem que não o experimentou a transformação, que se processa em virtude da civilização, da arte, da reflexão, quer se trate de um grupo de primitivos, quer de uma criança que ainda não foi educada. (Cf. Rousseau: A desigualdade, que é quase nula no estado de natureza, tira a sua força e a sua base do desenvolvimento das nossas faculdades e do progresso do espírito humano). Essa natureza empírica, enquanto própria a um indivíduo, constitui mais uma modificação semântica do nosso termo que equivale, então, ao caráter ou ao temperamento. Neste sentido fala-se de uma natureza ambiciosa ou natureza conciliante de uma pessoa.
Passando a considerar o segundo termo da primeira distinção e aplicando-lhe simultaneamente a segunda distinção, natureza significa ou a totalidade das coisas que apresentam uma ordem, realizam tipos, acusam a existência de certas leis ou o termo expressa o princípio ativo e vital, a vontade de ordem, que se manifesta nessa regularidade. (Aristóteles opôs neste sentido a natureza ao azar, acaso). No mesmo sentido Linneu chama a sua obra: Systema Naturae. A natureza assim compreendida é muitas vezes personificada, como o faz Rousseau quando diz: “A natureza trata todos os animais abandonadas ao seu cuidado com uma predileção que parece mostrar quanto ela é ciosa desse direito”. A natureza, representando assim uma ordem de índole e de dignidade muito especial, muitas vezes se opõe à ordem sobrenatural. O milagre parcialmente destrói a ordem natural. A natureza manifesta uma própria ética; revela a existência de leis que, senão por sua perfeição ética, pelo menos por sua constância, podem servir de normas fixas para o homem. O fato de ser contra a natureza é, no setor moral, o que torna tão odiosas as coisas que chamamos perversas.
Se consideramos a terceira distinção, que se prende ao fato de que ela revela uma multiplicidade de valores evidentemente hierarquizados, que se movem entre os extremos de matéria e razão, deparamos com o problema mais profundo e mais intrincado da natureza, porque a todo o espaço que separa estes dois extremos, matéria e espírito, é repleto daquele fenômeno misterioso que chamamos vida, nas suas mais variadas manifestações. Nem a matéria nem o espírito estão geralmente incluídos no conceito da natureza, assim como a índole desse problema o exige. J. Lachelier diz que o mundo puramente natural e mecânico representa até a negação da ideia da physis, que implica crescimento, e que igualmente na vida humana, o mais alto grau de natureza revela algo que já não é natureza, o elemento espiritual, que ele chama liberdade. A oposição entre liberdade e natureza foi estabelecida habilmente por Kant: “A causalidade incondicional do fenômeno se chama liberdade, a causalidade condicional, ao contrário, se chama em sentido restrito, causalidade natural”. Toda a realidade que fica dentro destes extremos de mecanicismo e de liberdade é, nesta acepção, a natureza. Vide Arbítrio (livre).
O que se oferece à primeira vista é o aspecto que temos da riqueza e da beleza da natureza, e que também foi a primeira realidade da qual partiram os filósofos gregos especialmente os da escola jônica. Diz Baldwin que ainda não foi feita nenhuma distinção clara entre matéria e espírito; a natureza foi concebida como viva, ou pelo menos, como animada (psychical). Esta concepção, em uma palavra, foi hilozoísmo, não materialismo. Platão introduziu a distinção entre físico e metafísico, dando origem à tendência de usar o termo natureza em um sentido restrito, que o distinguiu do espiritual. Era o mundo do devir, distinto do mundo do ser.
Em Aristóteles, a natureza é o sistema das coisas cambiantes que tendem a um fim ou, em sua totalidade, ao fim: o bem absoluto. Ele aceita, não a independência existencial das formas no sentido de Platão, mas a transcendência das formas com respeito à matéria. Quanto mais alto, mais perfeito, mais espiritual é o princípio informante, tanto mais fortemente se manifesta essa transcendência. Deus, que deu a ordem teleológica ao universo, é ao mesmo tempo o que mais transcende a natureza.
Não parecia assim aos estóicos, que consideraram a natureza movida por si mesma, causal e teleológicamente. Era o seu fim em si, era Deus mesmo, e viver de acordo com ela era a virtude perfeita.
Os epicureus eliminaram o ponto de vista teleológico e, com isto, todo elemento racional e espiritual da natureza, e chegaram a um atomismo mecanicista, que encontrou a sua mais perfeita expressão no poema de Lucrécio De rerum natura, que muito contribuiu para limitar o termo natureza ao sentido preferentemente físico. Também entre os estóicos, o termo possuía, ao lado da acepção mais integral acima aludida, um sentido mais restrito que coloca a physis como princípio animador do mundo vegetativo, acima dos corpos inorgânicos e abaixo dos animais e do homem.
Na Idade Média, além da tradição aristotélica, observa-se uma outra concepção mística da natureza, que desenvolve elementos platônicos e neoplatônicos em uma direção panteísta, tomando-a como a misteriosa e vital energia criadora de Deus.
Uma terceira corrente parte da interpretação que Averróis deu a Aristóteles, imputando-lhe que negava existência de um transcendente e considerava a forma e as finalidades completamente imanente à natureza. Assim Averróis chega a uma distinção, que avidamente adotada pela filosofia medieval, se expressa nos termos escolásticos de natura naturans / natura naturata, a forma materializada no mundo, o efeito da força divina.
Com isto o termo se estendeu novamente para o lado ideal, extraindo do materialismo de um Lucrécio um uso que, porém, nunca de todo esteve esquecido, em virtude do emprego que os autores escolásticos fizeram da palavra; foi Spinoza quem mais decididamente definiu este sentido, dizendo que “a natureza de uma coisa é a sua ideia”.
O pensamento moderno, aliás muito dado à exploração das forças e lei mecânicas e a descrever as formas do mundo biológico, nunca deixou por completo de reconhecer um elemento teleológico na natureza, pelo menos quando considerada em sua totalidade. O próprio evolucionismo contribuiu a reforçar este ponto de vista e o princípio da seleção natural (indireta) é perfeitamente compatível com o mesmo e até aprofundou a concepção de uma ordem teleológica. Ademais, em geral, não se ergue a questão se essa ordem teleológica acusa a existência de uma inteligência transcendente. O termo natureza tende, modernamente, não só a perder o setor ideal, como também o campo puramente material e mecanicista de sua aplicação. Ainda falamos em ciências naturais opondo-as às ciências do espírito. Contudo o naturalista para nós já é um homem que deixou de ser um recluso de um laboratório, como o físico ou químico, e vai para junto da natureza para estudá-la, como o zoólogo, o botânico, o geólogo. Depois da exposição da tríplice distinção sistemática é conveniente resumir a totalidade de todos aqueles fenômenos que designamos como naturais, por meio de uma enumeração dos termos, aos quais a palavra natural se opõe em suas várias acepções. Natural, segundo Lalande, pode ser oposto a: adquirido, refletido, constrangido, artificial, afetado, humano, divino, espiritual, revelado, regenerado, sobrenatural, surpreendente, monstruoso (biologicamente), perverso (moralmente), positivo (direito natural), legítimo (filho natural).
Na estética há um emprego muito vago do termo e dos seus derivados, de maneira a reduzi-lo à completa imprecisão de sentido. Quase todos proclamam a volta à natureza. Mas uns entendem a natureza humana no que ela possui de especificamente humano: a razão. Outros, no que ela tem de individual: a sensibilidade, a impressão subjetiva. Outros se referem à natureza externa, porque é abundante, pitoresca e romântica; outros, porque é saudável e forte. A palavra naturalismo, pelo contrário, tomou um sentido muito especial ao cingir-se com preferência aos aspectos inferiores da natureza.