Campo
Não há solução de continuidade entre a matéria inorgânica e o mundo biológico. Tanto num como noutro operam os mesmos princípios, mas com função invertida: a predominância da ordem dinâmica da extensidade no primeiro e o da intensidade no segundo.
No mundo biológico há, além da predominância da ordem dinâmica da intensidade, momentos que o campo inorgânico prevalece:
campo inorgânico extensidade > intensidade
campo orgânico intensidade > extensidade
O campo inorgânico, como unidade, opõe-se no homem ao campo orgânico, como há momentos em que um prepondera sobre o outro.
Usamos aqui a palavra campo em analogia com o conceito oferecido pela física, dialético, que serve para compreender os fenômenos, cujos conjuntos são sobretudo qualitativamente diferentes. A física aceita que um campo pode penetrar em outro. O campo gravitacional de um objeto pode, por exemplo, penetrar ou ser penetrado pelo campo elétrico de outro, etc. O campo inorgânico penetra no orgânico e vice-versa, pois não há vida onde não há seres inorgânicos, que são complementares ao orgânico.
Mas no campo de ação de cada um, há “degraus” que são os quanta, pacotes de energia, como os visualiza a física, para torná-los concretamente compreensíveis. Esses quanta são, para muitos, como pacotes de uma mesma energia, única e idêntica, cuja distribuição obedece a um mistério inexplicável.
Outros julgam que nos fenômenos energéticos nada se passaria se não houvesse moção, isto é, “transporte” de energia. E essas alterações são produtos das variações tensionais dos fatores de extensidade e de intensidade. Em toda a natureza estamos em face de diferentes e de quedas de potencial, as quais são produzidas pela oposição antinômica desses dois fatores. Do contrário teremos de admitir uma energia-em-si, uma energia soberana, um novo e inócuo substituto de Deus, como já se quis fazer da matéria. Esse conceito é ainda fruto do desejo de homogeneização, próprio da razão humana.
Todo o movimento e as incessantes transformações tenderiam para um retorno ao repouso definitivo, sonho e desejo de certas ideias religiosas e filosóficas. Foi por isso que se interpretou a queda de potencial e de intensidade como uma tendência à nivelação; ou seja, como um fator que facilitaria a missão do fator de extensidade, em vez de uma oposição entre ambos. Nas observações da físico-química era fácil ver essa vitória da extensidade sobre a intensidade, o que levou muitos cientistas a terem uma concepção da energia como expusemos acima. Na biologia a vitória final da extensidade também vinha corroborar essa concepção, como ademais os fenômenos da entropia, na termodinâmica. Tudo parecia dar à razão a vitória sobre o movimento.
Mas eis que a microfísica e as novas descobertas científicas vêm em abono de uma concepção dinâmica, antinômica do universo. A vitória fora apenas aparente e equívoca. A luta prossegue, mas sempre entremeada de vitórias e de derrotas, e a vitória decisiva será apenas desejada como um cansaço de niilistas negativos, passivos ou ativos não importa, mas negativos sempre.
Se não admitirmos que esses fatores são dinamismos inversos, e se não são esses mesmos fatores a energia, e se ela é uma realidade homogênea, à parte, única, fonte de todos os fenômenos de ação, como poderíamos conceber que ela deu nascimento a esse dinamismo, se não aceitamos o “piparote” imaginado por Anaxágoras, ou o “clinamen” de Epicuro, o imprevisto, o inesperado, que pôs tudo em movimento?
A ideia filosófica da escolástica, por exemplo, também aceita em termos essa posição, porque Deus insuflou na potência indeterminada que era nada, a moção, tornando-a matéria determinável, potência portanto, pelo influxo do ato determinante. À oposição cooperadora de ato e potência corresponde a oposição de forma e matéria, cuja cooperação dá surgimento ao composto. A oposição entre os compostos e a sua interatuação explicar-nos-iam o relacionamento dos seres finitos e consequentemente as suas transições.
No mundo corpóreo não se admite propriamente um estado posterior em que a oposição viesse a desaparecer. O aspecto contraditório que há nos dois princípios da termodinâmica prova a nosso favor.