Moção
Na concepção aristotélico-tomista, moção é “o ato do que é em potência enquanto tal”, ou seja, a passagem da potência ao ato. Essa passagem que é o devir, é moção.
Nesse caso poderíamos dizer amplamente sobre a moção, que é o produzir-se de uma variância de modos de ser ou ainda de relações. Sempre que um modo de ser passa a outro (de potência para ato) ou quando atualiza as possibilidades relacionais, pela variação de relações, dos acidentes e das modais, há sempre moção. Nesse sentido amplo inclui-se o sentido restrito e mecânico de movimento como a transladação contínua no espaço em função do tempo, e com uma velocidade definida consequentemente. Este é o movimento local, tópico.
O conceito genérico de moção contém o de movimento. Moção implica também variância de modos de ser ou ainda de relações. O movimento é atualização da moção tópica, é uma modal. A moção se dá do sujeito no sujeito, da forma à forma, mas sempre do contrário ao contrário. O movimento é o ato do móvel, enquanto móvel; é o ato médio entre potência e ato. Desta forma o movimento está no móvel e é requerido, no móvel, dois contrários, um antes e um depois. O movimento não é um ser de per se subsistente, mas em outro. É uma modal como nos mostra Suarez.
Pelo movimento conhecemos o tempo, pois é ele que o determina para nós. Serve para medi-lo. O movimento é a moção local, tópica, mutação local, a mais comum entre os corpos. Há muitas espécies de moções tópicas (movimento), pois no aumento e na diminuição há mutações tópicas também. Vide Mutação.
Quanto à mutação dizia Aristóteles: “medimos não somente pelo tempo o movimento, mas também o tempo pelo movimento, que se determinam reciprocamente”. Três termos estão implicados nesta ideia: 1) o ponto de partida que os escolásticos chamavam de terminus a quo (de onde); 2) o ente que se move, terminus quod (o que se move); 3) para onde se move terminus ad quem. Importante ainda considerar um quarto termo a via (em lat., caminho) os meios empregados para a moção, o onde da moção.
Ora, todo movimento tópico se dá no espaço, mas se processa num tempo. Não se poderia medir o movimento sem os dois termos: espaço e tempo. O quod e o termo ad quem pertencem ao espaço, mas ao termo quod cabe o tempo, porque ele processa o movimento que é sempre um transitar, porque sucede numa variância de relações em face do termo a quo e o ad quem. Todo movimento encerra, em suma, a sucessão da variância numérica das relações entre o quod e os outros dois termos. Se esses apenas mudassem, enquanto quod permanecesse estático, filosoficamente considerado, não conheceria um movimento absoluto, mas apenas relativo.
A variância das relações entre os termos nos permite compreender como concebe o movimento a teoria da relatividade. O movimento é assim relativo à variância das relações entre os termos. Se existir um ponto estático, fixo, como o éter, como era aceito na física e ainda o é, poderíamos conhecer o movimento absoluto, pois teríamos um termo a quo e um ad quem fixos, permitindo que a medida de deslocamento, no tempo, do termo quod, desse-nos a medida absoluta do movimento. Mas desde o momento que os termos conhecem variância de relações, que são portanto covariantes, o movimento é, por sua vez, variante e relativo. Expomos, em termos filosóficos, o que diz a relatividade sobre o movimento, com termos da física e da mecânica.
Se medimos a velocidade do movimento pelo espaço percorrido e pelo tempo que gastou em percorrê-lo, a velocidade do movimento é, em suma, para nós, o espaço percorrido numa unidade de tempo. Então a velocidade do movimento ainda se inclui dentro do esquema do complexo tempo-espacial. Movimento é o percurso da via pelo termo quod; velocidade, o tempo. Mas o processo do movimento é tempo porque sucede; e neste caso a velocidade é o tempo do processo, e nunca excluímos o tempo, nem o espaço. Mas medimos o tempo pelo espaço e pelo movimento; porém, na verdade, não medimos o tempo, mas espacializamos o tempo. Ou em outras palavras: do complexo tempo-espacial atualizamos o espaço para dizer o que é o tempo, como para dizer o que é o espaço, atualizamos o tempo.
A inseparabilidade de tempo e espaço é evidente, e a tentativa de identificação de ambos, pela redução de um ao outro, foi um equívoco que levou filósofos e cientistas a situações embaraçosas e aporéticas, e a cair, finalmente, nas famosas antinomias de Kant: Medimos o tempo pelo movimento e pelo espaço. Medimos o espaço pelo tempo e pelo movimento. Medimos o movimento pelo tempo e pelo espaço. São fisicamente inseparáveis.
Movimento é o desenvolvimento do espaço no tempo e do tempo no espaço. O que nos mostra o movimento? Que o complexo tempo-espacial é intensivo-extensivo, incluindo portanto a gradatividade da heterogeneidade intensiva, a par da estaticidade homogênea do extensivo. As variâncias da intensidade na extensidade são sempre moções porque há aí variância de relações. As próprias variâncias nos modos de ser ainda serão relações. Por isso não há um movimento absoluto porque teríamos então de excluir o estático, e deixarmos o dinâmico em sua plenitude, dicotomizando a realidade que apenas podemos distinguir metafisicamente.
Vê-se assim como a atividade abstratora do racionalismo levou-nos a compreender o tempo e o espaço como absolutos (como ab-solutum, isto é, afastados de uma identificação), acabando por lhes dar uma “subsistência” abstrata, e sem subsistência, pois os esvaziara de tudo para afirmá-los através de uma negação, o nada, — razão pela qual não podia a filosofia racionalista compreender nem alcançar o que a experiência científica teria de exigir, como exigiu, dialeticamente, na afirmação do complexo tempo-espacial da física moderna, que é a concreção do tempo e espaço, como meras distinções metafísicas da realidade, cum fundamento in re, como diriam os escolásticos, mas cuja subsistência é o ser, e não numa subsistência em si, à parte do cosmos, como nos poderiam fazer crer os exageros do racionalismo. E poderíamos compreender as afirmativas da heterogeneidade do espaço, que apresenta para a física moderna propriedades diferentes segundo as covariantes implicadas na sua formação. É natural que alguns racionalistas digam que a deformação é apenas corpórea, pois tempo como duração pura, como temporalidade pura, é imutável e homogêneo, e o espaço que está atrás de todas as coisas é também homogêneo e imutável. Mas compreendemos dialeticamente que as representações do tempo e do espaço nada mais são que abstrações levadas ao extremo do despojamento da realidade, pela valoração dos racionalistas pelo nada, a par do menosprezo que lhes causa o real, com a sua irracional presença através das singularidades.