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Métodos Da Ciência

Método experimental

O método experimental, na ciência, não consiste apenas na observação empírica dos fatos, mas sim numa orientação metodicamente racional, fundando suas afirmações nos fatos da experiência e, também, provocando o surgimento dos fatos, a fim de observá-los segundo tais métodos com o intuito de extrair destes as leis gerais. Os fatos científicos são repetíveis e, como tais, distinguem-se dos fatos históricos que são irrepetíveis.

No exame dos fatos, a ciência realiza, em primeiro lugar, a observação que consiste na direção atenta do espírito aos acontecimentos com o intuito de descobrir suas causas e suas leis. A observação científica não consiste na mera visão do fato. Ela é ativa. O sábio não os registra apenas, mas penetra em seus pormenores, buscando as relações de causalidade que neles se manifestam. Usa os sentidos, dirige-se pela inteligência, lança mão de instrumentos científicos, busca libertar-se de idéias preconcebidas, de preconceitos, usa a máxima suspicácia sobre si mesmo, a fim de evitar a deformação, que a sua esquemática possa exercer no conhecimento do fato e, fundado na máxima imparcialidade possível, que um estudo epistemológico seguro pode auxiliar a conquistar, logo que perscrute as causas, pode alcançar as leis, que revelam a captação de uma relação constante ou necessária entre os fatos. Por isso, diz-se que a lei científica é a expressão de uma relação geral de causa e efeito. Alcançar tais leis é o fim da ciência para alguns. Na verdade, esse é o fim teórico e ideal da ciência, embora seja ela, também, o meio técnico de domínio do homem sobre a natureza.

Mas nem sempre o conhecimento das causas é dado de modo evidente e definitivo. Ela é precedida por uma hipótese, cujo termo etimologicamente significa suposição. A hipótese surge da observação dos fatos, e não deve contradizer as leis já conhecidas, nem muito menos os fatos certos e incontestáveis, e deve ser controlável pelos fatos. Tem a hipótese um papel explicativo. Considera-se verdadeira uma hipótese, isto é, verdadeira enquanto hipótese, sem que sua afirmação seja ainda definitivamente verdadeira apoditicamente, quando obedece àquelas características que acima expusemos. Por isso não é de admirar que certas hipóteses tenham sido substituídas por outras e até consideradas falsas. Tal se dá quando falta um ou mais daqueles requisitos acima citados. O papel do verdadeiro cientista é verificar o grau de validez das hipóteses, controlando-as com os fatos. A gestação das hipóteses apresenta, no desenvolvimento da ciência, aspectos extraordinários, e quase sempre revela um grau de intuição apofântica e de criação genial por parte de seus primeiros formuladores. É verdade que algumas vezes elas surgem de experiências acidentais, mas sempre, de qualquer modo, exigem uma inteligência capaz de perscrutá-las, de desvelá-las em tais fatos. É das hipóteses que se alcançam as leis. Estas são captadas através do exame das hipóteses, mas exigem uma verificação que é a experimentação científica. Esse termo ex-perientia, que tem sua origem no grego peira, prova, de onde periculum, perigo, significa propriamente ensaiar, provar. A verdadeira experiência científica consiste na provocação dos fatos a serem observados, e sua finalidade é verificar e controlar a hipótese. Por isso na ciência a experimentação é um emprego sistemático de provas com a finalidade de descobrir as causas e as leis dos fatos científicos. Das hipóteses deduzem-se certas conseqüências que a experiência comprova, dando assim um grau de validez à hipótese, quando se verifica a procedência da mesma. Os cuidados e os processos usados em tais experiências constituem propriamente o método experimental, que varia segundo as diversas disciplinas científicas.

Entre tais métodos podemos salientar:

a)

o das coincidências constantes que não se funda apenas em coincidências repetidas;


b)

o da coincidência solitária, que exige a aplicação do método da concordância: “Se dois casos ou mais do fenômeno têm somente uma circunstância comum, a circunstância na qual só todos os casos concordam, é a causa (ou efeito) do fenômeno”;


c)

o de diferença: “Se um caso, no qual o fenômeno se produz, e um caso em que ele não se produz têm todas as circunstâncias comuns fora uma, esta, apresentando-se apenas no primeiro caso, a circunstância pela qual os dois casos diferem, é o efeito ou a causa ou uma parte indispensável da causa do fenômeno”;


d)

o das variações concomitantes: “Um fenômeno que varia de certa maneira, todas as vezes que um outro fenômeno varia da mesma maneira, é ou uma causa ou um efeito desse fenômeno, ou é ligada a ele por algum fato de causação”;


e)

o dos resíduos: “Separar de um fenômeno a parte que se sabe, pelas induções anteriores, ser o efeito de certos antecedentes, o resíduo do fenômeno é o efeito dos antecedentes restantes”.

Graças a esses métodos consegue-se controlar com mais eficiência as hipóteses.

Da indução e da dedução científicas: O que caracteriza a indução é a passagem do particular para o geral. A idéia é sugerida do fato, pelo que, em lógica, se chama indução essencial. Na verdade não há indução pura, indução isolada, porque do particular tomado isoladamente não se poderia alcançar com certeza a regra geral válida. Impõe-se que, no caso particular, haja algo que é da essência da coisa para que se possa assegurar como presente na generalidade. De qualquer forma, a indução simples exige a presença de alguns juízos fundamentais que permitem concluir do particular o geral, tais como a regularidade nos fatos da natureza. Ademais, o espírito humano tem a capacidade que se revela com mais agudeza em uns que em outros, de captar dos fatos particulares o que neles há de eidético, o eidos do fato. Da realidade concreta individual é captado o geral pelo espírito. Essa é a conclusão a que chegam os psicólogos, o que na verdade é uma velha afirmativa da escolástica, quando considera que nosso espírito capta a singularidade através do phántasma da coisa (a imagem), da qual o intelecto ativo, ativamente, extrai o eidos, e o imprime no intelecto possível (possibilis). Essa captação dos eide das coisas, realizado pelo nosso espírito, é uma operação distinta da operação meramente material, porque esta se processa de singularidade para singularidade, enquanto a nossa mente parte do singular para o geral, extraindo deste o eidos que permite generalizar através de operações do espírito. A posição mais comum sobre a indução é a que a funda sobre o princípio de causalidade, que se enuncia afirmando que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. Os empiristas com Stuart Mill à frente perguntam como podemos saber que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Essa premissa é tirada da experiência, fundada na experiência, uma generalização desta; portanto, produzida pela indução. Contudo há leis ontológicas que regem o cosmos, leis que, naturalmente não são alcançáveis pelos empiristas, mas que o são pelos que se dedicam mais profundamente ao estudo da filosofia, como o princípio de identidade e o de não-contradição, e outros que servem de fundamento para as induções das ciências naturais. Outro princípio que serve de fundamento é o da constância das leis naturais. Afirma-se a constância da ordem na natureza e também de não sofrerem as leis exceções, além de ser essa ordem universal e o não haver fatos nem aspectos que não sejam regulados por leis. Esse é o pensamento de Goblot. Tais princípios são indemonstráveis para ele, mas devem ser aceitos para toda demonstração. Os antigos escolásticos haviam estudado a via dedutiva ou silogística, que chamavam de resolutio formalis, e a via indutiva, a resolutio materialis, cujas regras encontram-se em suas obras e que indicavam as providências mais seguras para a indução, sem o perigo de certos erros como no caso do princípio da indução que Wolf oferece: "o que convém a todos os indivíduos convém ao universal que os contém", porque se em A, B, C encontramos os caracteres m e n, não podemos ainda afirmar que convenha ao universal, salvo se é da essência deste ou uma propriedade desta.

A tendência também dos lógicos atuais de quererem reduzir o raciocínio indutivo ao dedutivo ou silogístico, não é de todo procedente pela falta do termo médio. Quando Lachelier tenta reduzir a indução a um silogismo da terceira figura, esquece que essa tentativa seria a destruição da validez do raciocínio indutivo, porque então nada mais seria que um raciocínio dedutivo. Para muitos escolásticos a indução é absolutamente irredutível ao silogismo, e são ainda estes que salvam a indução ameaçada pelas análises dos modernos que, como alguns logísticos, chegam a abandoná-la. É de admirar que, havendo entre eles tantos adversários da filosofia medievalista e também do raciocínio dedutivo, por considerarem-no artificial, acabem por destruir o que tanto exaltaram (o raciocínio indutivo) para terminarem ou por tentar aniquilá-lo ou reduzi-lo ao dedutivo. E é ainda de admirar que sejam propriamente os escolásticos e seus seguidores, os que melhor tenham estudado esse processo, e o salvem da ameaça dos modernos.

A matéria da indução pode perfeitamente ser posta em silogismo, porém sua forma não pode; ela se opõe essencialmente ao silogismo verdadeiro pela ausência de termo médio que a caracteriza: conversão alguma poderá jamais fazer desaparecer ou apagar esta diferença. Inductio in syllogismum reducitur materialiter et non formaliter, ita quod forma indusctionis reducatur in formam syllogismi (Santo Alberto Magno, Prior, I, II, Trac.VII, c. iv). A indução prova que um caráter convém a um sujeito comum pela produção dos fenômenos singulares correspondentes. Eis ai seu processo lógico próprio... Da repetição dos fatos nas mesmas condições, conclui um fato geral. O silogismo procede de maneira muito diferente; ele prova que um sujeito e um predicado concordam entre si, porque concordam com um terceiro termo. É por isso que esse último é considerado como o meio, o instrumento empregado para unir, na conclusão, os dois termos separados nas premissas... Numa palavra, o termo médio nos fornece o fato e a causa de sua conveniência. A oposição entre os dois processos não poderia portanto, ser mais completa. Syllogismo proprie dicto opponitur inductio (Prior, I, II, tract. VII, c. IV) diz ainda Santo Alberto Magno. (T.Richard, Philosophie du Raisonnement dans la Science, pp. 298-299, cit. por Maritain).

A indução, na verdade, realiza-se através da operação que consiste pela abstração, em retirar do particular o inteligível universal, cuja inferência tem suas regras lógico-dialéticas seguras. A abstração é uma operação primária do espírito, enquanto a formação das proposições universais é uma operação mais complexa (terceira operação). O princípio de Wolf que acima citamos pode servir como fundamento da indução, e é aceito pelos escolásticos, mas com modificações. “O que convém a várias partes suficientemente enumeradas de um sujeito universal convém a esse sujeito universal”, diz Maritain (Lógica Menor, pág. 281). O importante está na enumeração, que não deve ser insuficiente, que deve ser a mais suficiente possível, pois do contrário a indução está sujeita ao erro. Se se verifica que o ferro, que o cobre, que o ouro, que o alumínio, que a prata... conduzem a eletricidade, e como tais coisas são metais, pode-se concluir, indutivamente, que os metais conduzem a eletricidade. Mas tal conclusão é apenas provável, pois poderia um metal não conduzir a eletricidade, no caso um metal ainda não examinado. A indução oferece resultados prováveis e até de máxima probabilidade, mas carece da apoditicidade desejada, a não ser quando sua enumeração é suficiente de tal modo que alcança o essencial. Mas neste caso a indução deixa de ser tal. Por isso pode-se dizer que a indução, de per si, somente nos dá conhecimentos prováveis e até de máxima probabilidade.

A indução encontra seus fundamentos na intuição sensível, pela qual captamos os fatos em sua singularidade, na intuição intelectual, as semelhanças e as diferenças e as relações de coincidência e, finalmente, na intuição adivinhatória e na apofântica, pelas quais se capta o essencial, graças à ação abstratora do intelecto humano. A indução é dividida em completa e incompleta, segundo a enumeração. Portanto é mais comum a incompleta que a completa. Contudo, uma enumeração incompleta pode ser suficiente ou insuficiente. A completa é naturalmente suficiente. Não é fácil saber se uma enumeração incompleta é suficiente. É comum considerar a indução completa como indução aristotélica, e a incompleta como baconiana. Alguns querem daí concluir que, antes de Bacon e Stuart Mill, não se havia alcançado a indução incompleta, o que é fácil responder com a leitura do Organon de Aristóteles. A indução incompleta foi tratada pelos escolásticos antes de Stuart Mill e Bacon. Ela faz passar de alguns a todos, enquanto a completa faz passar de todos a todo; a primeira, do particular ao universal, a segunda de todas as partes do universal ao universal, que há em todas elas. Na verdade o raciocínio indutivo, tratado exclusivamente não é bastante para dar a apoditicidade desejada. Por essa razão, jamais o raciocínio indutivo na ciência bem fundada, deixa de ser acompanhado na argumentação pelo raciocínio dedutivo. No exame da via sintética encontramos a contribuição que a lógica pode dar à indução.

Das teorias científicas – Chamam-se princípios na ciência (de princeps, o que vai à frente, do gr. arkhon, arkhe) as normas de ação que constituem as normas do pensamento. Uma teoria na ciência é uma construção intelectual, em que um conjunto de leis particulares está conexionado a um princípio que as justifica, e que permite que possam ser eles deduzidos logicamente. “Um sistema de proposições matemáticas, deduzidas de um pequeno número de princípios, que têm por fim representar tão simplesmente, tão completamente e tão exatamente quanto possível um conjunto de leis experimentais (La théorie physique)” (Durhem). Essa definição é mais adequada às ciências experimentais. Tanto a teoria como a hipótese são explicações provisórias dos fatos, e estão dependentes de posteriores acontecimentos que podem comprovar a sua validez ou não. As demonstrações têm que se submeter à variância e à probabilidade, que é típica das teorias e hipóteses, e o valor das suas conseqüências é, portanto, relativo, o que não impede porém, que graças a uma boa base filosófica, possam cientistas mais cuidadosos dar com o tempo uma construção mais segura, alicerces mais sólidos à parte arquitetônica da ciência, de modo a conquistar certa apoditicidade ontológica desejada, que é possível obter-se no campo da filosofia.

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