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Metafísica

Metafísica

Muito tempo depois da morte de Aristóteles, Andrônicos de Rhodes, no 1º séc. da era cristã, tendo editado uma série de fragmentos das obras do peripatético, que não constavam das edições anteriores, acrescentou logo após à “Física”, outros textos intitulando alguns de tá metá tá physiká, isto é, “escritos que sobrevêm ao livro da Física”. Como os objetos de que tratava esse livro não eram propriamente os do mundo sensível, como os da física, mas transfísicos, as palavras gregas foram latinizadas em metaphysica, nome que tomou a disciplina filosófica cujo objeto são entes transfísicos, como se declara claramente nesta definição de Tomás de Aquino: “Chama-se (esta ciência) de Metafísica, isto é transfísica, porque ela se apresenta após a Física, e temos de nos elevar, a partir das realidades sensíveis, às realidades que não o são”.

Esta delimitação clara do conceito e da atividade metafísica, nem sempre foi bem compreendida. Analisemos a definição tomista: 1) é transfísica, pois aborda, estuda e examina entes não físicos; 2) em sua atividade deve partir das realidades sensíveis. Este segundo elemento é de magna importância. A metafísica deve partir das realidades sensíveis para alcançar as realidades não sensíveis. Ora, as realidades sensíveis, objeto das ciências, pertencem ao mundo do imanente, permitem que sobre elas se construam juízos de existência. As realidades transfísicas, por não serem sensíveis, ultrapassam o campo da imanência, portanto transcendem-no; são, pois, transcendentes. Se no mundo da imanência, mundo da ciência, podemos construir verdades materiais, fundadas no sensível, no mundo da transcendência, as verdades serão transcendentes, portanto, metafísicas.

Mas desligar-se a metafísica, como estudo do transfísico, das realidades sensíveis, cria-se uma crisis (abismo, separação) entre um mundo e outro. A metafísica seria um afastar-se deste mundo, um desinteressar-se por ele, o que não propõe Tomás de Aquino, pois indicara, como ponto ético do metafísico: partir das realidades sensíveis. E será fácil demonstrar que, por não se ter considerado assim, a metafísica conheceu uma forma viciosa, o metafisicismo, que pairou apenas no terreno de lucubrações transfísicas, sem procurar e sem considerar as ressonâncias necessárias que elas deveriam ter e encontrar no mundo sensível. Reivindicamos à metafísica um sentido em oposição à maneira viciosa de alguns metafísicos menores, que pensaram que para serem tais precisariam desligar-se totalmente da realidade sensível. Serve esta advertência para que se patenteie que a posição de muitos opositores à metafísica encontra fundamento apenas na ação dos metafísicos menores.

Observa-se que ela não é uma construção sobre o vácuo, nem é apenas um discursar sobre conceitos inanes, vazios de conteúdo real, formas que expressam nossos desejos, nossos ímpetos ou a nossa ignorância, como se tem dito e repetido! O ponto de partida da metafísica é o das diversas realidades. Essas mesmas realidades sensíveis podem ser consideradas metafisicamente, isto é, pelo emprego de um método analítico metafísico. Eis porque de antemão opomo-nos decididamente ao divórcio criado entre a ciência e a metafísica, pondo uma ao lado da outra como se representassem, uma o pólo da realidade, e a outra o da irrealidade, que compreende-se apenas como produto de uma mútua incompreensão, que serviu para criar uma crise no saber teórico, no saber epistêmico. Se este se distinguiu em diversas disciplinas, não se deu uma separação real, pois ainda mostraremos que esta é falsa, e a ciência e a metafísica poderiam cooperar, como na realidade cooperam, pois aquela é, de certo modo, metafísica, como esta é, por sua vez, ciência.

Portanto a metafísica não é nem deve ser considerada totalmente à parte da ciência, mas o arquitetônico desta, um projetar-se desta além do seu âmbito, não considerando como metafísica apenas o que a ciência ignora, como o propõem alguns, mas o que não cabe à ciência com seus métodos tratar, e que não implica por isso refutação. Desde o momento que a ciência reconheça seus limites, afirmará ela, dialeticamente, um além. E esse além escapa aos estudos e aos métodos empregados pelas ciências experimentais, porém não deve ser desprezado ou abandonado pelo homem. O reconhecimento do limite é um apontar dialético para o que fica além dele. E a ciência tem que respeitar esse limite, que aponta para a fronteira entre dois mundos de realidade, que implicam, por sua vez, métodos diferentes, mas análogos.

Nas palavras de William James: “Não pergunteis a um geólogo o que é o tempo: isto o ultrapassa; nem a um profissional da mecânica como são possíveis ações e reações: ele não poderá tratar delas. Muito tem a fazer um psicólogo sem se ocupar da questão de saber como pode ele, e as consciências que estuda, conhecerem um mesmo mundo exterior. Há bastantes problemas que não existem debaixo de certos pontos de vista, os quais, sob outro ponto de vista, são problemas essenciais, e os quebra-cabeças da metafísica são os problemas mais importantes que existem para quem quiser penetrar a fundo na íntima constituição do universo visualizado como um todo. Encontram todas as ciências em seu objeto uma zona que escapa em grande parte ao seu âmbito, e aponta ao que fica além, como a física ante o problema do movimento, das ordens energéticas, etc., como a matemática ante o número, e a psicologia ante o problema da alma, e a biologia ante o da vida. Estão estes grandes problemas a apelar constantemente ao filósofo que trate deles. E o próprio cientista, quando se põe a examiná-los torna-se filósofo, e suas hipóteses são quase sempre metafísicas”.

Mas se encontramos tais pontos de convergência entre a ciência e a metafísica seria primarismo considerar que ambas se confundissem. Ciência e filosofia (incluindo nesta a metafísica) são disciplinas de ordens diferentes. Se a ciência tem por objeto o mundo sensível; a metafísica tem o transfísico. Consequentemente os métodos têm de ser diferentes, mas análogos, porque a analogia é uma síntese da semelhança e da diferença. E, por trabalhar com entes corpóreos, pode observá-los sensivelmente e experimentar com instrumentos físicos, o que não o pode a metafísica, que precisa ainda trabalhar com a razão, com a lógica, ou a logística, ou a dialética, para procurar o nexo que liga os fatos uns aos outros e elaborar suas teorias. A metafísica penetra em um mundo onde devemos nos despojar de todos os instrumentos deste, e que neste permitem-nos obter conhecimentos. O modo de raciocinar metafísico é o mesmo que o do cientista. E este, quando medita sobre as coisas do mundo físico, tange sempre, quer queira ou não, o terreno da metafísica que o cerca. Basta considerarmos a situação do físico ante as teorias sobre o átomo, que muitas vezes são um desafio à inteligibilidade, como a ação à distância, a substancialidade da energia atômica, as contradições entre ondas e corpúsculos, e muitas outras, que enleiam o cientista em especulações metafísicas, porque já tangem objetos supra-sensíveis, ultra-experimentais ou metempíricos, como se costuma dizer.

Mas como penetrar neste terreno se, à sua entrada, temos de deixar todos os instrumentos que a experiência havia corroborado como eficientes? Que garantia temos de que nossas especulações sejam bem fundamentadas? Se não dispomos dos sentidos para fortalecer a parte intuicional dos nossos conhecimentos, mas apenas nossos raciocínios lógicos e dialéticos, como podemos adquirir aquela segurança que temos quando, no laboratório, experimentamos? É por isso que logo surge ao metafísico um problema importante: o problema crítico. Pensamos realizar a crisis, análise aprofundada de nossos meios de conhecimentos. Para os gregos, kriterion é a pedra de toque com que se avaliam os metais preciosos. A palavra critério passou para a filosofia como a “pedra de toque”, que permite avaliar o valor dos nossos conhecimentos. Criteriologia é a disciplina que estuda o valor dos nossos conhecimentos e dos meios empregados. Preâmbulo da metafísica para alguns implica a criteriologia, o estudo da gnosiologia ou teoria do conhecimento. Ponto de partida fundamental, é ante ele que os filósofos vão tomar duas posições: 1) a dos que a estudam, analisam, examinam, depuram, a fim de penetrar no campo da metafísica; 2) a dos que aí se detém por considerarem que toda metafísica nada mais é que o estudo crítico desses mesmos meios de conhecimento. Desta forma, ela se reduz a uma filosofia crítica, como o fez em parte Kant. Mas se a primeira posição é afirmativa quanto às nossas possibilidades, a segunda é negativa, e reconhece que não temos meios de penetração segura no transfísico, ou nos detemos ou avançamos. Afirmar a incognoscibilidade é conhecer que há incognoscibilidade. Nunca o espírito humano pode furtar-se à afirmativa, mesmo quando nega, porque quando procede assim, apenas recusa, o qual é ainda um modo de afirmar. Negar que não se sabe é afirmar que se sabe que não se sabe. E se sabemos que não sabemos ou sabemos que sabemos que não sabemos, é sempre afirmar um saber.

Que pretende a metafísica? Saber como são os entes? Não, pois isto cabe à ciência. Saber por que são e o que são? De onde vêm e para onde vão? Metafísica não é apenas “um esforço invencivelmente obstinado de pensar com clareza e coerência” (William James), nem tampouco “a ciência das razões e das coisas” (D’Alembert), nem “o inventário sistemático ordenado de tudo o que possuímos pela razão” (Kant), nem apenas “a ciência do ser enquanto ser” (Aristóteles), definição restrita à ontologia ou metafísica geral. Uma ciência do incondicionado? Não, o condicionado também serve de ponto de partida para a metafísica. Ela é:

a)

ciência do ser enquanto ser, e temos a ontologia ou metafísica geral;


b)

usa métodos não experimentais para as suas especulações, os quais se fundam, analogicamente, na realidade, como a lógica, a logística e a dialética;


c)

examina o conhecimento e o critica em busca de um critério seguro;


d)

especula sobre a origem e fim de todos os entes e das suas relações entre si, e com o ser, sob todos os aspectos.

Método da metafísica — Costumam-se classificar em dois: 1) método a priori ou dedutivo; 2) método a posteriori ou indutivo. O primeiro é o empregado fundamentalmente na matemática e na lógica formal; o segundo, na física e nas ciências da natureza. Em geral os metafísicos são dedutivistas. Procedem pelas distinções e análises dos aspectos que fisicamente não podem ser separados, como a rotundidade de um copo e o copo, que só metafisicamente é separável, não fisicamente. Analisam as propriedades do real, sem recorrer à experiência física, mas apenas à experiência mental. Os eleáticos, usando do método apriorístico, partem da afirmação do ser. Para eles se partíssemos da inexistência do ser, partiríamos do nada. Se admitimos que houve um momento em que nada existia, esse nada teria a eficacidade de tornar-se ser e, desde então, deixaria de ser nada, pois já teria possibilidade de ser, sendo, portanto algo afirmativo, ser. Afirmar o nada, implica algo que o afirme, o que já é propor um ser que nega o ser. O ser sempre antecederia ao nada. O ser, portanto, sempre foi, e será. Outros dedutivistas procedem sinteticamente, como Hegel, cuja dialética mostra que parte do sinteticamente do real, que é tético (de thesis, em gr., o que tem posição). A posição dedutiva parte da aceitação da eficácia da nossa razão para especular sobre o ser; e que nossa razão e nosso pensamento se identificam com o real, bastando analisar aquele para alcançarmos o real, como procedem os idealistas.

Mas é preciso nunca esquecer que a metafísica se dá no mundo real, e é dele que ela tira suas noções. Não pode escamoteá-lo, como procedem os dedutivistas, pois teríamos que nos entregar a uma atividade meramente extensista da razão, o que, como dialeticamente se pode ver, apenas capta um dos campos do conhecimento. Já com os aposterioristas dá-se o contrário. Estes, mais numerosos, partem da análise do real para atingir o ser. Experimentar o real, vivê-lo, desvivendo-o como tal, para alcançar o ontológico (real — ideal) é o método indutivista cujo exemplo temos em Bergson e nos existencialistas metafísicos. A metafísica da escolástica superior é apriorista e aposteriorista, pois parte, ora das ciências experimentais, ora das ciências meramente dedutivistas. Há entre a dedução e a indução uma inevitável reciprocidade. Deduzir é inibir o singular pela atualização do geral, enquanto induzir é inibir o geral pela atualização do singular, mas dialeticamente as duas atividades são inseparáveis, pois os indutivistas jamais alcançariam a afirmação do universal sem a aceitação de um postulado de ordem, da captação da essência distinguida da acidentalidade. Na verdade, só se pode afirmar que pertence à espécie, essencialmente, o que se capta como pertencente ao indivíduo essencialmente. Pela dialética concreta, o método dedutivista e o indutivista são apenas fases de um processo intelectual mais amplo que os inclui. Este processo, que é o dialético concreto, parte da simultaneidade dos nexos conceituais, da habitualidade dos conceitos-predicados em relação ao sujeito, classificando-os segundo a ordem dos antepredicamentos de Porfírio, e dos predicamentos aristotélicos, estabelecendo-se que ao apresentarem as características de generalidade, especificidade e propriedade, quando atribuíveis a um indivíduo, são atribuíveis a todos os da mesma espécie, no grau e ordem em que o são, o que permite assim realizar-se a indução sem receio de erros. A postulação indutiva será apenas uma possibilidade, quando o predicado for apenas acidental, o que não permitirá que dele se conclua a generalidade.

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