Consciência e memória
Consciência e memória são inseparáveis, pois a consciência implica memória, e a memória, consciência. Ao tomarmos consciência de alguma coisa, perduramos nessa atividade. Há memorização no mesmo lapso de tempo, pois, do contrário, a consciência se fosse fluente como o tempo, não se daria. O instante que passa é substituído por outro e não teria eu consciência, neste momento, de que estou escrevendo, se não fosse do momento anterior, alguma coisa memorizada. Ademais, a consciência é uma faculdade elevada, que exige memorizações, pois ter consciência de algo exige atenção, a tensão ad , para… , portanto interesse e consequentemente memória, recordação. Eis aqui por que Leibniz definiu o inconsciente como uma consciência instantânea, uma consciência sem memória, por passar com a fluência do próprio tempo. Entretanto, o sentido da memória como empregamos acima é um sentido geral, um tanto vago. O que freqüentemente se considera memória é a faculdade ou operação de poder renascer um estado que já atravessou a nossa consciência, que já desapareceu dela e que é considerado como um elemento de nossa experiência passada. Há na memória, consciência, pois memória não é apenas uma repetição, como a que se dá com uma frase já pronunciada. Toda a vida é fundada, garantida na memória. Mas é uma memória espontânea, natural. A de que falamos é aquela em que há consciência, que ao recordar, sabe que recorda, sabe que tal fato se deu no passado, e que faz parte de sua experiência passada. É importante distinguir a memória da reminiscência. Esta é uma recordação incompleta, que não é reconstruída, da qual temos vagas lembranças. Este tema coloca quatro importantes problemas: a) como se dá a conservação da memória; b) a evocação, a capacidade de poder trazer à consciência os fatos passados, de recordá-los; c) o reconhecimento do que é recordado: d) localização, quando os colocamos no tempo e no espaço.
Conservação da recordação. Duas são as respostas clássicas à pergunta de como conservamos estados que desapareceram da consciência: 1) a fisiológica ou materialista, que afirma que um estado que atravessou a consciência e dela saiu, persiste em forma de modificação fisiológica, especialmente de modificação cerebral. As percepções são gravadas no sistema nervoso e nele permanecem conservadas. 2) a outra resposta consiste em afirmar que o que atravessou a consciência e dela saiu, permanece no que chamamos de inconsciente. A teoria fisiológica pretende ser a mais científica. O percebido ou a recordação fica gravada numa célula ou num grupo de células cerebrais. Há assim uma modificação em alguns elementos anatômicos, que permanecem nesse estado depois de passada pela consciência. Quando excitada a mesma região cerebral, o estado de consciência é reproduzido. Por essa teoria, a vida psicológica não passa de um reflexo da vida cerebral. Essa tem sido bastante combatida.
A evocação das recordações.. Estabelecida a existência de duas espécies de memória: a física e a intelectual; há, portanto, duas espécies de recordação. A recordação dos mesmos gestos, das mesmas atitudes que foram apreendidas através da experiência, são da primeira memória. Noutros casos, um estado psicológico retorna em conseqüência de outro estado com o qual se aliou. É o que se dá com a associação de idéias. A memória motriz funciona diferentemente da memória propriamente dita, a segunda. Quase sempre exige uma redução de movimentos, certa atenção para que ela se produza mais facilmente. Há uma certa contradição entre uma e outra. Tanto que, muitas vezes, temos dificuldade de descrever uma memória apenas motriz, mas sabemos como realizá-la, como quem dança, teria dificuldade de descrever os passos, um após outro e, no entanto, ao dançar, sabe como realizá-los.
Reconhecimento das recordações.. Há um reconhecimento motor de que só é capaz o corpo. Mas ele é incompleto. Exige a recordação de imagens que nos permitem formar um saber de como podemos servir-nos dele. Esse enriquece o primeiro.
A localização da recordação. A execução de um hábito motor não nos leva a um momento preciso do passado. A localização de uma recordação só se dá com a verdadeira memória. Taine e Ribot estudaram a localização das recordações no tempo e a das percepções, no espaço. Assim para apreciarmos a distância de um objeto longínquo, consideramos os objetos interpostos. Para localizá-los no tempo, procuramos colocá-lo entre dois acontecimentos importantes da nossa vida passada, um anterior e outro posterior. Depois se procede procurando os acontecimentos interpostos entre os pontos de referência até localizar a recordação. No entanto, não procedemos propriamente assim. O que se faz freqüentemente é atentar para o fato recordado, e a penetração que nele se faça, permite fixá-lo melhor, torná-lo mais nítido, completá-lo e daí, localizá-lo.
Toda a vida intelectual seria impossível sem a memória, logo a memorização é uma função fundamental do espírito. O notar o diferente ou o semelhante implica a memória, como implica a memória a consciência. E é a memorização que vai permitir ao homem a formação do conceito e da noção do que é tempo. Assim espírito é também memória. Por rápida que seja a consciência de alguma coisa, é um fixar alguma coisa, é um memorizar. Esse fixar-se do espírito é a memória, em sua fase embrionária, primitiva. O repetir, o comparar, o deter-se mais longamente sobre o fato passado é a função da memorização. A função seletiva da vida tem um caráter de oposição, de aproveitamento disto e de repulsa daquilo, e funciona pela comparação instintiva, pela escolha. O espírito repete, num plano mais elevado, a própria vida. Ele seleciona, repete, procura no diferente separar o mesmo, o parecido, o semelhante, em suma: memoriza. E essa função cabe à tensão psíquica (alma, espírito, etc.), mas que aumenta, cresce de intensidade, demora-se (por isso é in-tensiva), sobre o que é semelhante, o mesmo.
Não haveria vida sem memória. No caso das afasias, a perda da memória é progressiva: primeiro perdem-se os nomes próprios, isto é, o do indivíduo, o único; depois os nomes comuns, o geral, o universal; posteriormente os verbos, o que indica a ação ativa ou passiva, o tempo, porque toda ação é um processar-se no tempo. É a memorização que vai dar a noção do tempo. Mas o ser vivo, antes de pensar, age ou padece (verbo), depois compara, identifica, denomina, conceitua (nomes comuns). A individualização como pessoa (nomes próprios) é já de uma fase mais elevada, social. Quando a memória está enferma, o processo de perda segue o mesmo caminho da reversibilidade; inverte-se. A tensão nervosa é contemporânea do corpo, do sistema nervoso. Atua com ele. Quando este está enfermo, ela sofre, porque ele é o meio por ela utilizado. O enfraquecimento das suas funções traz o das mais complexas às mais simples. Assim a razão vai perdendo, no campo da afasia, a pouco e pouco, as suas funções mais importantes.
Ter consciência de um fato é demorar-se sobre ele, é fixar-se. A consciência implica a memória em sua fase elementar; memória como fixação dos caracteres do percebido. Bergson distingue duas memórias: a física e a intelectual. A memorização intelectual pertence a uma fase posterior do ser vivo, à fase da razão. No ato de memorização intelectual há um conflito, e a memória intelectual é esse conflito que penetra na consciência, pois nesse ato há um duplo movimento de irreversibilidade e de reversibilidade. A consciência para reconhecer que há memória intelectual necessita ter o sentido do presente e o sentido do passado; tem de distinguir o estado mnemônico do estado que não o é. Assim o passado reverte ao presente irreversível, pois quando memorizamos algum fato ou idéia ou imagem, sentimo-nos como permanentes, como persistentes, como espectadores estáticos do que trazemos do passado. Conflui uma reversão do passado para o presente estático, subjetivamente estático. Em toda a vida há memorização no primeiro sentido de Bergson, do contrário ela seria impossível.
A memória pode ser considerada:
em sentido amplo – como persistência do passado no presente. A primeira pertence ao homem e aos seres vivos, as chamadas memórias-hábitos dos animais e das flores.
em sentido restrito – memória do homem como representação do passado como passado. A segunda é a re-presentação dos fatos passados.
A memória pode ser:
muscular – comumente chamada hábito: a que nos parece localizada, por exemplo, nas pernas, braços;
a sensorial as visuais das cores, formas, sons, etc.;
a intelectual – relações de causalidade, etc.;
a afetiva – memória do temperamento, de certas emoções. Esta última é aceita por uns e negada por outros. Quando recordamos certos fatos, revivemos a agradabilidade ou a desagradabilidade que eles nos provocaram, embora revivamos mais facilmente as desagradabilidades que as agradabilidades.
Fixam-se as memorizações:
pela repetição: 1) metódica; 2) voluntária; 3) intercalada com repousos;
pelo interesse: 1) intelectual; 2) coletivo.
A recordação pode ser:
espontânea;
refletida.
O esquecimento (o fato não recordado ou que não pode ser recordado) pode ser:
voluntário;
espontâneo.
O esquecimento constrói a boa memória, pois esquecemos para fortalecer a memorização. Virtualizamos o que nos desinteressa para atualizar o que nos interessa.
Casos patológicos:
amnésia – dificuldade externa de recordar;
paramnésia – “Ilusão da memória, que consiste em crer reconhecer no último pormenor, com todas as circunstâncias de lugar, de tempo, de estado afetivo e intelectual, o conteúdo total e atual da consciência num momento dado, como se se vivesse integralmente um instante já vivido” (Lalande).
hipermnésia – evocação de fatos considerados já esquecidos, observa-se em estados de febre ou em momentos de perigo de vida;
obsessão – caso de hipermnésia que consiste na “presença, no espírito de uma representação, de uma associação de idéias, ou de uma preocupação que aparece sem cessar, à qual vêm reunir-se todas as associações, e que a vontade não consegue afastar senão momentaneamente” (Lalande).