Idealismo
Diz-se de toda doutrina cujo princípio interpretativo fundamental é ideal. Assim há tantas posições idealistas quantas maneiras de considerar a acepção do termo ideal. O termo idealismo surge no séc. XVII para nomear a teoria das idéias (formas) arquetípicas de Platão e, também, a concepção gnosiológica de Descartes e Locke, os quais consideravam as idéias objetos diretos da apreensão, como possuídos subjetivamente. Deste ponto de vista surgiu a dúvida sobre a existência real do mundo exterior, de modo que foi usado como sinônimo de acosmismo (vide Acosmismo), que afirma que o mundo exterior é apenas uma projeção dos nossos pensamentos, e o imaterialismo que negava a existência real da matéria. O idealismo pode ser visualizado segundo as diversas maneiras como é proposto, pois segundo as acepções que toma o termo idéia variam as posições idealistas.
O idealismo puro nega a existência do mundo exterior real, para afirmar a existência apenas das nossas idéias ou das idéias em geral. Entre os idealistas puros temos o espiritualismo, o mentalismo, o panpsiquismo, o fenomenalismo idealista, o monadismo. Subdividem-se os idealistas em personalistas e impersonalistas. Os primeiros afirmam apenas a existência das idéias na própria consciência, enquanto os segundos afirmam a existência de um mundo ideal numa realidade não consciente.
Real-realismo ou realismo idealista aceita a existência de seres não ideais, mas subordinados às idéias. O ideal-realismo aceita a existência das idéias, mas admite que a sua representação em nós depende da nossa maneira de esquematizar o mundo das coisas reais e ideais, que existe fora das idéias, embora de certo modo subordinadas àquelas.
Na estética chama-se idealismo a posição que afirma que a arte não é apenas uma cópia da natureza, uma imitação desta, mas a representação de uma natureza fictícia, mais desejada para o espírito.
Crítica
Os antigos não consideravam um problema o conhecimento sensível, o dado pelo senso comum (pela conjunção das assimilações provenientes dos sentidos). Contudo contra essa objetividade surgiu entre os idealistas um movimento contrário, que começou a considerar um problema o conhecimento sensível. Eles entendiam que nossos conhecimentos das coisas sensíveis não correspondiam propriamente a entidades existentes fora dos mesmos, coisas reais extra mentis, independentemente da nossa mente, mas apenas representações mentais, aparências meramente subjetivas, objetos construídos pela nossa esquemática; portanto dependentes exclusivamente das formas a priori (independentes da experiência) da própria mente humana, que terminava por construir, como estruturas reais e objetivas, o que não passava de simples construções do nosso espírito. Alguns chegaram a afirmar que nada existia fora de nossa mente, e que a única realidade era a espiritual, como os idealistas metafísicos.
São inúmeras as posições idealistas, e elas se distinguem por pequenas diferenças. Não é possível estabelecer um quadro rigoroso das diversas doutrinas idealistas, mas só um quadro geral, onde são incluídas as principais posições, sintetizadas em duas posições polares:
1) a dos que admitem a existência do mundo exterior, independente de nossos sentidos, mas do qual apenas temos uma representação, que não corresponde à realidade do mesmo, que apenas constitui uma estrutura modelada, formada pela nossa esquemática mental; posição universalista;
2) a dos que admitem que nossas representações são meras aparências subjetivas, negando a realidade do mundo corpóreo e, afirmando apenas a do mundo espiritual ou metafísico, como o idealismo acosmístico de Berkeley. É uma posição particularista que afirma que o nosso conhecimento é apenas imanente e não reproduz realmente o que há fora de nós, nem que as coisas tenham as propriedades que nossos sentidos afirmam. Todo ser que conhecemos é o ser de nossa própria percepção (esse est percipi = ser é ser percebido).
Examinando a primeira posição encontramos uma seqüência de distinções. Há os que afirmam que as formas subjetivas pertencem apenas à natureza humana, e o mundo que conhecemos é o nosso mundo, modelado antropologicamente. É o idealismo psicologista ou ideal‑realista que afirma estar a realidade das idéias apenas nas idéias. Para uns, como Fichte, estas formas estão no ego humano, ou então num ego absoluto, no Absoluto, no qual tanto se identificam o ego como o não‑ego, onde a ordem real se identifica com a ordem ideal (real‑idealismo), como Schelling. Para outros, estão na Idéia Absoluta que afirma a si mesma, e outras que a si mesma, numa contínua evolução, como Hegel, ou nada mais são as idéias que meras construções das representações que temos de nossa experiência; idealismo empírico de Hume, o idealismo kantiano, o idealismo transcendental.
O que há de comum em todas as posições idealistas é a característica céptica e relativistica em relação ao conhecimento humano. Consequentemente têm de afirmar que não temos uma verdade e uma certeza formal. Contudo, se se assemelham ao cepticismo num aspecto, dele divergem pela afirmação da certeza que têm da verdade da sua posição. O conhecimento é assim necessariamente humano e o mesmo para todos. Deste modo aquele que pensa segundo as normas comuns da mente humana está com a verdade, e se delas se desvia, erra.
Refuta-se a posição idealista do seguinte modo: ela nega uma certeza real e formal, cuja certeza é demonstrada. Consequentemente o idealismo falha pela base. Há princípios filosóficos que não são verdadeiros apenas na nossa mente, mas também na realidade. Diz o idealista que todas as nossas cogitações representam meras aparências subjetivas, que não se conformam com as coisas. Se realmente é assim, há um conhecimento que se conforma com as coisas, que é o do idealista, pois seria conforme com a realidade que nossos conhecimentos não se conformam com a realidade, o que é contraditório afirmar. Ademais o idealista diz que não há conformidade alguma entre o nosso conhecimento com as coisas: é uma afirmativa céptica. Porém como poderia o idealista afirmar com fundamento o seu postulado? Como pode garantir a não existência de um mundo real‑real, apenas fundando‑se em suas afirmações, bem como poderia garantir que nossos conhecimentos não são conformes à realidade exterior, que ele nega conhecer? E estabelecer uma adequação ou não entre dois termos quando de antemão se afirma que se desconhece um deles?
Mas o idealista retruca: para alguém saber se o seu juízo é verdadeiro, seria mister que pudesse compará‑lo com a coisa vista em si mesma. Ora, tal é impossível; portanto, nunca se pode saber se o juízo é verdadeiro. E é verdadeira a afirmativa, porque a coisa que está no intelecto, nele não está como na realidade, mas apenas é uma representação. Neste caso a comparação só pode ser feita com uma representação da coisa, e não com a coisa; portanto é impossível comparar um juízo da coisa com a coisa. Mas a afirmativa da premissa maior é negada, porque o que afirma com o juízo é a existência em ato da coisa. O juízo é uma afirmação, é um julgamento. Seria tolice pensar que para ter uma idéia verdadeira de um avião necessitássemos tê‑lo na mente. A existência do avião se dá em si mesmo, e o que a mente afirma não é a presença dele, mas a realidade dele em si mesmo. Não há necessidade para ser verdadeiro um juízo, que seja idêntico com o que ele afirma. Para ter a idéia do fogo não precisamos ter em combustão nem em brasas a nossa mente. Dizer‑se que um ser intelectual é apenas intelectual é não compreender a sua intencionalidade. Que é um ser intelectual, quem o negaria? Mas que a intencionalidade não se refira ao que há fora da mente, pelo simples fato de estar na mente, revela uma confusão de idéias. Quando pensamos em água, referimo‑nos à água que há. Não é preciso que o pensamento da água seja água, para que seja verdadeiramente uma intencionalidade daquela. Não haver compreendido essa verdade elementar do juízo, ou melhor, por nunca terem compreendido claramente a teoria do juízo, é que os idealistas cometeram tantos erros.
Outro argumento de um idealista: o ente que não é um ato cogitado é um ente em ato ignorado; ora, do ente ignorado nada sei; logo, do não cogitado não sei se existe independentemente da mente ou não existe. É certo que do ente do qual não cogitamos não podemos dizer que existe, porque então dele cogitaríamos. Mas do qual cogitamos, poderíamos dizer que não é um produto apenas da nossa mente, e que pode ter uma existência independentemente de nós.
Contudo, de todos esses idealistas, o que mais auxiliou a confusão das idéias humanas, e de onde partiram as doutrinas mais deploráveis foi, sem dúvida, Kant. Esses erros tornaram‑se verdades incontrastáveis e entusiasmaram a muitos filósofos, que aceitaram sem exame e consideraram até como algo definitivo. A posição kantiana é falsa por muitas razões:
1) Que o espaço e o tempo são formas a priori é improcedente, como se demonstra na cosmologia;
2) Que a experiência não nos dá o universal, nem pode explicá‑lo, revela apenas desconhecer o em que consiste a abstração humana, como a expôs Aristóteles e os escolásticos;
3) Negar ao intelecto intuições próprias desmente‑se pela intuição das próprias intuições e do próprio eu, e das espécies impressas no mesmo, pois é ele tanto ativo como passivo;
4) Segundo a posição kantiana não se podem dar juízos sintéticos a priori;
5) Todas as suas exposições da doutrina escolástica são fundamentalmente erradas e demonstram que não a conhecia;
6) Desconhecia a doutrina dos juízos virtuais;
7) Suas alternativas (e divisões) são falsas, pois deixa de considerar uma terceira possibilidade como se vê no referente ao conhecimento a priori e a posteriori, e em muitas outras divisões;
8) Entra em muitas contradições, como a de afirmar que jamais a mente humana é capaz de saber o que é a coisa em si e, no entanto, admite que ela se dá. Ademais afirma que há causalidade ao declarar que o númeno causa em nós o fenômeno, e depois conclui que a existência da causalidade é meramente subjetiva;
9) Ao afirmar que nossos conhecimentos são meramente subjetivos e meras aparências, cai no idealismo absoluto;
10) Afirma que o númeno só é aceito pela fé. E como então admitir que ele nos dá conhecimentos?
A obra de Kant promoveu o advento de uma série de doutrinas errôneas e prejudiciais como o positivismo, o agnosticismo, o idealismo, o intelectualismo, o pragmatismo, o vitalismo, o voluntarismo, o panteísmo, o relativismo psicológico e provocou o ficcionalismo.
Lamentável tem sido o erro daqueles que julgam que, por não termos a possibilidade de alcançar uma verdade absoluta, exaustiva, consequentemente, tudo quanto sabemos é falso. Ora, nada podemos saber desta porta porque não a captamos em si, em toda a sua pujança de ser. Mas esquecem que as perfeições in indivisibili e as in divisibili distinguem‑se entre si por não estarem as primeiras sujeitas a graus, enquanto as segundas o estão. Assim, ou isto é uma porta ou não é; contudo pode ser mais alta ou mais curta, tecnicamente mais bem feita ou não. A substância, por exemplo, não está sujeita a mais ou menos. Um ser humano, enquanto ser humano, não é mais como espécie do que outro ser humano. Basta que nosso esquema mental se adeqüe ao que a coisa é para que seja ele verdadeiro.
Ademais que seria a porta em si? Em si ela é apenas um artefato que tem uma determinada função e nada mais que isso. Ademais, já não é a porta, mas a matéria que a compõe, etc. A coisa em si que Kant falava era apenas um fantasma que ultrapassaria a toda experiência, e como a colocava fora de toda experiência, seria ela consequentemente, previamente inatingível. Conseguia, assim, com algumas idéias verdadeiras, construir estruturas filosóficas falsas, e lançava a dúvida total à capacidade humana de conhecer, pelo simples fato de que ela não conhecia o que ele pretensamente tornava de antemão incognoscível. Quando dizemos que este objeto é uma porta, dizemos que este fato do mundo exterior se adeqúa especificamente ao conceito (que significa a ordem dos objetos, que têm uma determinada lei de proporcionalidade intrínseca, logos) que nomeamos porta e se adeqüa a este objeto do mundo exterior.