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História (Concepção De Toynbee)

Toynbee

Para Toynbee a nossa civilização (que de certo modo corresponde ao termo cultura, como produzir-se, no sentido spengleriano) é filiada à cultura helênica, sobre a qual se fundou. O Império Romano se tornara um Estado Universal, o que também Alexandre desejara realizar com o helenismo, tendo malogrado. O cristianismo também se forma com o mesmo desejo de realizar um Estado Universal, que é, para Toynbee, uma das características da formação das culturas. Esta passagem não se faz abruptamente, mas intercalada por um interregno, em que a sociedade antiga se corrompe acidental e “substancialmente”, e se gera “substancialmente” a nova sociedade, a nova tensão cultural, como a chamamos. Esse interregno é preenchido pela atividade da Igreja cristã, estabelecida no seio da sociedade romana e sobrevivendo a ela, e uma grande quantidade de pequenos estados efêmeros, surgidos do que se chamou Völkerwänderung dos bárbaros (que, em alemão, significa a migração dos povos), que surgiram no antigo território imperial, vindos da no man’s land, da terra de ninguém, do mundo bárbaro.

Para Toynbee três fatores marcam a transição da antiga à nova civilização: 1) um Estado universal, fase final da velha sociedade; 2) uma Igreja engendrada nessa velha sociedade e, por sua vez, engendrando uma nova; 3) a introdução caótica de uma idade heróica bárbara. Desses três fatores, o segundo é o mais importante e o terceiro o menos significativo. Examinando as invasões de bárbaros no império romano, não atribui Toynbee tanta importância às mesmas na formação da nova civilização, por ser insignificante e negativa a sua contribuição, já que vândalos e ostrogodos foram aniquilados nos contra-ataques do Império Romano. Os visigodos receberam o primeiro choque dos francos e o tiro de misericórdia dos árabes, etc. Fazendo, assim, um estudo comparado das civilizações, partilha ele as seguintes, que revelam a presença dos três fatores: A sociedade cristã ortodoxa, a sociedade iraniana e árabe e a sociedade síria, a sociedade pré-indiana, a sociedade pré-chinesa, a sociedade minóica, a sociedade suméria, as sociedades hititas e babilônias, a sociedade egípcia, as sociedades andinas, do Iucatã, mexicana e maia.

Toynbee, partindo da classificação dos etnólogos modernos, que dividem a raça branca em três: a nórdica, a alpina e a mediterrânea, mostra as civilizações que partem de cada uma. Os nórdicos contribuíram para quatro, e talvez cinco civilizações: a pré-hindu, a helênica, a ocidental, a cristã ortodoxa russa e talvez a hitita. Os alpinos contribuíram para sete ou talvez nove: a suméria, a hitita, a helênica, a ocidental, como também para a cristã ortodoxa, com seu ramo russo, e iraniano, e talvez a egípcia e a minóica. Os mediterrâneos contribuíram em dez: a egípcia, a suméria, a minóica, a síria, a helênica, a ocidental, o corpo principal da cristã ortodoxa, a iraniana, a árabe e a babilônica. Outra divisão da raça humana é a morena, que compreende os drávidas, o povo da Índia, os malaios da Indonésia, e que contribuiu para a formação de duas civilizações: a pré-hindu e a hindu. A raça amarela contribuiu para três: a pré-chinesa e as duas civilizações do Extremo Oriente; a saber, o corpo principal da China e o ramo japonês. A raça chamada “vermelha” (que é negada por muitos etnólogos) contribuiu para a formação das civilizações pré-colombianas. A extrema valorização que modernamente se tem feito do fator racial tem sido exagerada, sem que se negue a positividade que cabe à raça. Devido às explorações políticas, como aconteceu com o nazismo, o estudo das raças ficou tremendamente obstaculizado, pois muitos etnólogos temiam contribuir para a formação de preconceitos, que provocassem calamitosas conseqüências. Ora, seria uma visão abstratista querer explicar a história apenas pela raça. Se a raça não pode por si só explicar os fatos históricos, nem a formação das culturas, também não o pode o meio geográfico, porque não se repetem, segundo as semelhanças do meio, a semelhança das civilizações. Tomados em si mesmos, nem o meio nem a raça nos fornecem o fator único dos fatos históricos, embora sejam fatores positivos e cooperantes dos mesmos.

Ao examinar tais pontos, Toynbee cria a sua teoria do “desafio-resposta”. Desafiado pelo ambiente geográfico ou pelo ambiente histórico, um povo responde aceitando esse desafio, vencendo os obstáculos, procurando dirimi-los, ou submete-se às contingências sem capacidade de luta, vencido, quando outro povo, nas mesmas circunstâncias, procede de modo diverso. Assim o dessecamento da Afrásia foi um desafio, e a gênese dessas civilizações afrásicas foram as respostas. A luta contra o deserto, no Egito e na Suméria; a civilização chinesa, como uma resposta ao desafio da natureza física; as civilizações pré-colombianas, que se formaram da resposta ao desafio dos Andes e dos planaltos andinos; a civilização minóica e os gregos, aceitando o desafio do mar; a hitita, o desafio do planalto da Anatólia.

Mas como explicar que aos mesmos desafios os povos respondam diferentemente, se não forem considerados também os caracteres temperamentais, raciais e caracterológicos, em suma? Mas Toynbee estabelece uma regra: à proporção que é maior a dificuldade, mais poderoso se torna o estimulante. As grandes realizações humanas provieram das grandes dificuldades, e as mais altas civilizações foram realizadas onde havia que vencer maior número de dificuldades e as mais poderosas. Examinando, primeiramente, o desafio do meio, apresenta, no exame dos fatos históricos, a presença da geografia como um fator de máxima importância para a compreensão dos grandes acontecimentos relativos às tensões culturais. Na verdade, todas as explicações, que não consideram o ato humano em todos os elementos que o constituem, com os fatores positivos que o viciam, afastam-se da realidade da história, e não podem compreender a razão da predominância de um fator sobre outros.

Contudo, Toynbee afirma, depois do exame realizado na História, que a relação “desafio-resposta” apresenta características várias: a) que a todo desafio corresponde uma resposta; b) que a resposta é proporcionada ao desafio; c) que essa proporção, contudo, varia dentro de extremos, e oferece um optimum de difícil precisão, mas admissível, em face da heterogeneidade dos fatos. Neste caso, há exemplos de que o desafio frágil recebe uma resposta frágil, que a resposta aumenta em intensidade na proporção do grau elevado do desafio, e há casos em que o desafio é extremado e a resposta é uma fuga ao mesmo, uma resposta que não vence a oposição, na qual se dá uma solução que não resolve o malefício que o desafio oferece. O desenvolvimento da Nova Inglaterra, na América do Norte, se deu numa zona árida, em que os imigrantes ingleses haviam sido desafiados pelas condições ambientais. Reúne Toynbee uma seqüência de fatos, que vêm em auxílio de sua tese de que “quanto maior o desafio, mais poderoso é o seu estímulo”. Contudo haverá exceções? Roma, desafiada por seus adversários, tornou-se com suas respostas, cada vez mais poderosa; Cartago, vencida na primeira guerra púnica, ergueu-se ainda mais forte; a Alemanha, ocupada após a guerra de 1914-18, reagiu violentamente, e ameaçou obter a vitória sobre os seus adversários; a invasão dos persas, na Grécia, levou-a ao século de Péricles; tudo isso é verdadeiro, sem dúvida. Contudo o habitante primitivo das florestas do norte da Europa não pode vencê-las e dirigiu-se para o ártico, onde construiu a vida esquimó; os celtas, desafiados, pereceram nas migrações desgastantes; os habitantes do Maine americano não se ergueram como os dos outros Estados; o nordestino brasileiro cedeu ao impacto da seca, apesar da heroicidade imensa da sua luta; e muitos outros exemplos mostram que o desafio foi extremo e a resposta não o superou. São exemplos que nos mostram que há um optimum, um ponto médio, que, excedido, o resultado se inverte. Esses fatos, que são analisados cuidadosamente por Toynbee, incluem-se nas possibilidades humanas decorrentes do dinamismo das estruturas, que, concretamente, consideram a presença da cooperação de tantos fatores, que permitem compreender os resultados.

Dedicando-se ao estudo das civilizações, que realizaram um verdadeiro crescimento, a doutrina de Toynbee, em linhas gerais, é a seguinte:

A observação nos levou a verificar que o aguilhão atinge seu maximum de efeito estimulante quanto encontra o justo ponto entre o excesso e a carência de severidade. Notamos, com efeito, que sua deficiência pode aniquilar toda reação e sua intensidade excessiva quebrar o ímpeto das energias. Que decorre do desafio ao qual se pode enfrentar? A primeira vista é o melhor reativo possível, e nos exemplos concretos dos polinésios, dos esquimós, dos nômades, dos Osmanlis e dos esparciatas, vimos que tais situações são susceptíveis de provocar grandes esforços. Vimos, também..., que esses grandes esforços atraem aos que os realizam uma sanção nefasta sob forma de parada em seu desenvolvimento. Eis por que, ao aprofundar-se a questão, podemos sustentar que a reação mais forte imediata não é o testemunho último que revela a qualidade ótima do desafio. Devemos tomar em consideração um conjunto mais vasto, aquele que abarca o futuro. O desafio realmente optimum é o que não somente estimula o adversário a ponto de impedi-lo a uma única reação vitoriosa, mas o prepara a receber o impulso, que o fará progredir de um primeiro resultado obtido a uma nova luta, da solução de um problema a uma confrontação com outro...

Vemos, aqui, como ele concebe o crescimento da civilização. São os fatores predisponentes atuais, que operando sobre a emergência da civilização levam-na a resposta necessariamente proporcionadas, segundo a lei universal da interatuação. As atuações predisponenciais, que estão dentro do limite marcada pelo optimum, de que já falamos, são as que permitem as reações mais salutares e as mais enérgicas. É característica de toda vida a excitabilidade, presente em todas as formas perfectivas biológicas, como o é na psicologia, na sociologia, etc.

Ele exemplifica deste modo:

A desagregação da sociedade minóica deixara um resíduo social: minóicos errantes, aqueus e dórios. Os sedimentos de uma velha civilização seriam cobertos pelas contribuições depositadas por uma nova vaga de bárbaros? As poucas regiões de terras baixas da paisagem aqueana seriam dominadas pela selvageria das terras altas que as cercavam? Os pacíficos cultivadores das planícies cairiam ao sabor dos pastores e guerreiros descidos das montanhas? O primeiro desafio foi enfrentando vitoriosamente. Estava escrito que a Hélade seria um mundo de cidades e não de vilas, um país agrícola e não de pastagens, de ordem e não de desordem. Contudo, o próprio sucesso da reação a esse primeiro sucesso da reação a esse primeiro desfio pôs as populações vitoriosas em presença de uma segunda prova. Pois a vitória que se seguiu à pacífica continuidade da agricultura nos vales, provocou o crescimento da população, movimento que não se deteve nem quando esta atingiu a densidade máxima, além da qual seus recursos não eram mais suficientes. Assim, o próprio sucesso da resposta ao primeiro desafio expôs a sociedade, no início de sua vida, a uma segunda prova. Ela reagiu ao desafio maltusiano com tão bom êxito como ao do caos. Essa reação, em face da superpopulação, manifestou-se por uma série de ensaios. Aplicou-se, então, o mais fácil e o mais lógico, até que levou ao recuo. Recorreu-se, então, a um expediente mais complicado e menos nítido. O primeiro método consistiu em empregar técnicas e instituições criadas pelos habitantes dos vales da Hélade, à proporção que impunham sua dominação sobre seus vizinhos das terras altas com o intuito de conquistar para o helenismo novos domínios além dos mares. Graças a um instrumento militar: as falanges de hoplitas, e a um instrumento político: a cidade-Estado, uma multidão de pioneiros helênicos estabeleceu uma Magna Graecia na ponta da península itálica à custa dos bárbaros italiotas, um novo Peloponeso na Sicília, à custa dos bárbaros Sículos, uma nova Pentápole na Cirenaica à custa dos bárbaros da Líbia, e uma Calcídia na costa setentrional egéia à custa dos bárbaros da Trácia. Uma vez ainda, o próprio sucesso dessa resposta provocou um novo desafio. O que esses colonos haviam empreendido era em si mesmo um desafio feito aos outros povos mediterrâneos. Essas comunidades não helênicas detiveram a expansão da Hélade, em parte resistindo à sua agressão com armas e uma arte tática que lhes era emprestada, e em parte pela coordenação de suas forças a um ponto de perfeição tal que os helenos jamais teriam sido capazes de alcançar. É assim que a expansão helênica, começada no VIII século antes de Cristo, se deteve no curso do VI século. Essa sociedade encontrava-se sempre em face do problema de sua superpopulação.

Prosseguindo no estudo do crescimento das civilizações, observa que o momento de expansão de um povo é concomitante com o seu declínio, bem como coincidem com perturbações ou com o Estado Universal. “As épocas de perturbação engendram o militarismo, que é uma perversão do espírito humano dirigido para a destruição. O militarista, que obtém o maior êxito, é, em regra geral, o fundador de um Estado Universal. A expansão geográfica é um subproduto desse militarismo, que aparece no momento em que homens de valor, todo-poderoso, se desinteressam pelas lutas para combater as sociedades vizinhas”.

Contudo, o militarismo tem sido mais causa da destruição das civilizações que do seu desenvolvimento, forçando povos a lutas destrutivas. A pressão, que exerciam os povos vizinhos sobre a Grécia, levou-a, apesar de sofrer a derrota ante os persas, a reerguer-se mais viva ainda e preparar o advento de Alexandre, que foi uma resposta ao desafio que lhe lançavam os inimigos. São, contudo, tais períodos concomitantes com a desagregação, pois o helenismo, no tempo de Alexandre, já estava em decadência. O resultado final daquela campanha, foi a queda acentuada da Grécia.

Alguns problemas novos surgem aos seus olhos. Haverá uma correlação evidente entre o progresso da técnica e o progresso social? Os arqueólogos modernos admitem essa correlação. A técnica aponta o progresso da civilização. Contudo, uma dúvida o assalta, apesar de ser uma tese comumente aceita. E sua suspeita se justifica, porque há casos em que civilizações estacionárias conhecem um desenvolvimento técnico mais elevado, sem, contudo, sair do estágio em que se encontram. Nas civilizações imobilizadas, como a dos polinésios, nota-se um amplo desenvolvimento técnico da arte de marear e na arte de pescar; nos esparciatas, na arte de guerrear; nos Osmanlis, na arte de educar os homens. Na América, as culturas de Iucatã e do México atingiram um grau técnico superior à dos maias, contudo não alcançaram o grau de requinte que esta alcançou. Há casos em que a sociedade permanece estacionária, enquanto a técnica progride, e outros em que a técnica permanece estacionária e é a sociedade que progride. Conclui, pois, que a técnica não nos dá, portanto, um critério do crescimento da civilização, como também não nos dá a expansão geográfica. Contudo, ela “nos revela um princípio que comanda o progresso técnico, e que pode ser designado como uma lei de simplificação progressiva”. Se o desenvolvimento da técnica não nos explica o movimento de crescimento das civilizações, permite-nos, contudo, compreender a simplificação observada na técnica, que, para Toynbee, revela uma “lei de simplificação progressiva”. Assim, da volumosa máquina a vapor para o motor a explosão, há uma simplificação técnica, sob certo aspecto, pelo menos qualitativo, bem como um progresso, como também o há da telegrafia com fio à telegrafia sem fio. A própria língua tende a essa simplificação, como vemos nas línguas modernas do Ocidente, com o abandono das flexões, simplificação das formas, etc. Tem sido o desenvolvimento técnico um meio de enfrentar e vencer as dificuldades por que passa uma civilização. Assim o sistema feudal europeu salvou a Inglaterra da invasão dos vikings, etc.

Toynbee analisa por alto a concepção de Spengler para desprezá-la por ser uma concepção organicista, quando a sociedade humana não é propriamente um organismo vivo, mas uma totalidade apenas, formada de elementos de várias esferas, que não são apenas biológicas. Sem dúvida que a concepção meramente biológica da sociedade, ou como se costuma chamar de orgânica, merece repulsa por inválida. Mas atribuir-se a Spengler uma concepção organicista à outrance também não procede, porque não a concebeu apenas assim, embora tenha salientado a profunda analogia com a biologia, não, porém, a identidade.

Do declínio das civilizações – Reconhece Toynbee que não encontrou um critério seguro para explicar o crescimento das civilizações, pelo menos um critério satisfatório. Contudo julga haver encontrado mais facilmente o que se refere ao declínio das mesmas. Examinando as vinte e seis civilizações que ele considera, há entre elas três imobilizadas, dezesseis já mortas, e sete ainda restantes, que são: a sociedade ocidental, a cristandade ortodoxa do Oriente Próximo (incluindo a Rússia), a sociedade islâmica, a hindu, a sociedade do Extremo Oriente, incluindo a China e o Japão. As três imobilizadas, ainda existentes, são as sociedades polinésias, os esquimós e os nômades. As polinésias e as nômades entraram em sua agonia entre as oito restantes, sete estão sob a ameaça de aniquilamento ou de assimilação pela oitava, a civilização ocidental. A esquimó estabilizou-se em infância, e só a ocidental não revela, para ele, sinais de declínio e de desagregação.

Mas qual é o sinal da desagregação? É dado precisamente pela unificação política forçada sob a forma de um Estado Universal, a exemplo do que foi o Império Romano. Todas essas civilizações já passaram por seu Estado Universal, e nenhuma delas, com exceção da nossa, pôde conter as tentativas de intrusão por parte de elementos estranhos a ela. A introdução do Estado Universal não marca o fecho de uma civilização, mas o princípio do declínio, seguindo-se o “interregno” de que já falamos e a “época das perturbações”.

Toynbee escreve:

Nós vimos que, na História, de qualquer sociedade, quando uma minoria criadora degenera em minoria dominante, e tenta manter-se pelo constrangimento, cessou de merecer a posição. Essa mudança de caráter no elemento, que dirige, provoca, de outro lado, a secessão de um proletariado, que não admira nem imita mais seus amos e revolta-se, então, contra a servidão. Vimos, também, como esse proletariado, quando se afirma, divide-se em duas partes distintas desde o início: o proletariado interior, prostrado e recalcitrante, e o proletariado exterior, fora das fronteiras, que resiste violentamente a toda incorporação. Segundo este exposto, o declínio das civilizações pode, pois, relacionar-se a três categorias. Malogro do poder criador da minoria. Retirada correspondente do mimetismo da parte da maioria. Perda consecutiva de unidade na sociedade considerada como um todo.

Para muitos pensadores, o declínio das civilizações é inevitável, bem como o seu aniquilamento final. Sentiam-no muitos pensadores gregos ao anunciar o fim de helenismo e muitos pensadores cristãos também afirmavam a inevitabilidade daquele fim e o surgimento da nova era, a cristã, na qual se estabeleceria a justiça e a paz reinaria entre os homens de boa vontade. São Cipriano afirmava que o mundo envelhecia, por uma condenação de Deus, e que tudo estava fadado a morrer. Modernamente, também, surgem idéias semelhantes, e Nietzsche, no século passado, exclamava que era uma imbecibilidade julgar-se como possível uma humanidade indefinidamente jovem, e muito menos ainda que as civilizações não conhecessem o término de seu destino. Nota-se, ao examinar o pensamento de Spengler, que a teoria da decadência busca, como fundamento, não propriamente uma determinação, mas um destino, o que se verifica ao termo das atualizações das possibilidades que ela conta e dispõe. No pensamento moderno, contudo, não se religa a decadência das civilizações a uma decadência do mundo. As afirmativas de Spengler são recusadas por Toynbee, pois julga não ter aquele apresentado provas suficientes em favor de suas idéias, por ele consideradas “dogmáticas”.

Salienta, e aqui está uma das hipóteses oferecidas à historiologia, que no interregno que se situa entre a dissolução final de uma sociedade decadente e a aparição de uma sociedade nova, que àquela está ligada, tal se dá freqüentemente quando se verifica a Völkwänderung de populações provindas de berços diversos, que realizam uma infusão de sangue novo, cujo sangue provém de uma raça primitiva. Essa doutrina não a aceita Toynbee. É uma explicação racial, que afirma sobrevir a decadência pelo debilitamento do sangue, e só a infusão do sangue novo poderia explicar o novo surto da civilização, como se deu no ocidente pela invasão dos godos e dos lombardos no sangue romano viciado e anêmico. Não é uma perda de técnica que leva à decadência social, mas sim a desagregação da sociedade para a qual a técnica fora criadora de tantas coisas, assim como o abandono das vias romanas deve-se à desagregação da sociedade romana, do mesmo modo que a desagregação da sociedade mesopotâmica se deve ao abandono do sistema de irrigação que fizera, durante quatro mil anos, o bem das populações do Eufrates e do Tigre.

Após a guerra do Peloponeso, foi tão intenso o despovoamento da Grécia pela restrição à natalidade e pelo uso do aborto, que as regiões, que antes eram o celeiro daqueles povos, tornaram-se infestadas de mosquitos. Não era a falta de técnica, mas um conjunto de circunstâncias, que levaram aqueles povos à ruína. Assim, em nossa época, não é o desconhecimento do contraponto, nem das regras do ritmo que leva a música moderna a abandonar as tradições musicais, nem tampouco o desconhecimento da técnica musical, mas sim uma mudança de gosto, que leva a abandonar deliberadamente um estilo que perde seu prestígio. Inspirações vindas da África, em aliança “sacrílega” com estilos europeus, vão influir em nossas artes plásticas e em nossa música. Não há decadência técnica, mas sim uma decadência espiritual. “Ao repudiar nossa tradição e, por isso, ao reduzir nossas faculdades a um estado de inanição e de esterilidade, no qual elas se apossam da arte primitiva e exótica do Dahomey e do Benin, como de um maná do deserto, confessamos, perante todos os homens, que traímos o nosso patrimônio espiritual. Nosso abandono de uma técnica artística tradicional é manifestante a conseqüência de uma espécie de declínio espiritual de nossa civilização e a causa não pode, com toda evidência, ser imputada a um fenômeno que nada mais é que um dos seus resultados”. E finalmente conclui: “O abandono de um estilo tradicional na arte é o índice que a civilização, que dele se torna culpada, desde muito já decadente, entra em desagregação. Do mesmo modo, a renúncia a uma técnica estabelecida é a conseqüência do declínio, e não sua causa”.

Na história das sociedades hindu, babilônica e andina, manifestou-se o mesmo processo de absorção, como se deu nos russos e nos japoneses, ao atingirem essas sociedades decadentes os seus Estados Universais. Essas sociedades agonizantes sofreram uma conquista militar. Na história hindu a conquista britânica foi precedida pela invasão turco-muçulmana, que se inicia na era do Grão-Mogol às invasões de 1191-1204. Igualmente se deu com a sociedade babilônica, que foi absorvida pela síria depois da conquista de seu Estado Universal, o império de Nabucodonosor por Ciro da Pérsia. Sem dúvida, o império andino foi destruído pelos conquistadores espanhóis. Sem estes, o império inca teria durado alguns séculos mais. Contudo, a civilização andina já vinha em decadência, e a ascensão dos incas, um século antes, era já sinal da decadência instalada naquela civilização.

Toynbee escreve:

A civilização mexicana desmoronou-se numa época anterior aos conquistadores, quando o império asteca, embora já manifestamente destinado a tornar-se o Estado Universal, não havia ainda completado suas conquistas militares. Podemos estabelecer a diferença, dizendo que a sociedade andina foi conquistada na época de seus Antoninos, e a sociedade mexicana na de seus Cipiões. Mas “a época dos Cipiões” é uma fase de tempo de perturbações e, portanto, por definição, a conseqüência de um desmoronamento anterior.

Nestas palavras, Toynbee é bem spengleriano, e busca as analogias e correspondências, que Spengler tanto gostava de fazer. Graças ao ataque dos persas, a Grécia deu ao mundo suas maiores obras; graças ao ataque dos magiares, no século IX, o ocidente conquistou essa forma de governar e essa ciência que o orgulha; graças à ação dos espanhóis, na Inglaterra e na Holanda, sobreveio o surto desses países desafiados, e muitos outros são salientados por ele na justificação de suas teses. A expulsão dos hiksos corresponde à dos mongóis na China, pelos Ming. Também não se julgue, quando Toynbee fala em declínio, queira indicar a desagregação total, mas o período em que cessa o crescimento e começa a manifestar-se a preponderância das disposições prévias corruptivas, segundo a nossa maneira de conceber a história. Um período de declínio pode ser pontilhado ainda de grandes realizações, como o foi de Sócrates, Platão, e Aristóteles, na Grécia.

Preocupado em descobrir quais as causas que se podem estabelecer da decadência, entre muitas possíveis, Toynbee estabelece uma, que é fundamental: a nossa natural perfídia. Essa causa emergente vem da própria natureza humana, vem do coração humano, “porque é do coração humano que vêm os maus pensamentos”, dizia Cristo e são eles “que imundam o homem”. Como se processa essa ação corruptiva passa a preocupá-lo, já que o progresso humano é obra de algumas personalidades seletas e de minorias criadoras. Estas, quando conseguem despertar nas vastas massas humanas a faculdade primitiva e universal do mimetismo, conseguem erguê-las a algo mais elevado. Do contrário, por si sós, não alcançariam esses estágios superiores, nem sairiam da estagnação que lhes é própria. O que é mister impedir é que a minoria criadora seja vítima de seu próprio hipnotismo, pois, então a docilidade da massa será adquirida à custa de uma perda de iniciativa, como acontece nas civilizações imobilizadas e nos períodos estagnantes da história das outras civilizações. Quando os chefes cessam de dirigir, deter o poder torna-se um abuso. A massa se amotina e os chefes tentam estabelecer a ordem por meio da coação. Essa desagregação da sociedade manifesta-se na cisão do proletariado e na degeneração dos dirigentes, que se tornam numa minoria dominante. Essa cisão entre dirigentes e dirigidos revela uma falta de harmonia entre as partes; ou seja, perturba-se o funcionamento da totalidade à qual estão as partes subordinadas, cuja normal dada pela totalidade não é mais obedecida. Essa falta de harmonia revela-se pela perda de auto-determinação, que é um critério da decadência, pois a marcha para a auto-determinação, que implica a harmonia das partes no todo, é realmente o critério do crescimento.

Chegado aqui, resta então estudar como se processa essa perda da auto-determinação, para que se possa estabelecer como se precipita a desagregação, a decadência. Partindo da parábola de Cristo, que diz: “Ninguém põe um pedaço de pano novo numa velha roupa, porque ele levará alguma coisa do vestido e o rasgão se tornará pior. Não se põe vinho em velhos odres, do contrário os odres se rompem, e o vinho se derrama e perdidos serão os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos e ambos se conservam”, ele conclui que a fonte da dissonância entre as instituições, que compõem a sociedade, nasce da introdução de novas forças sociais, como aptidões, sentimentos, idéias, para as quais os sistema vigente não estava preparado para sustentar. Essa justaposição de elementos novos na velha sociedade tem um papel degenerativo. Esse papel cabe às revoluções, pois estas têm sempre uma relação com algum acontecimento já sobrevindo, e sua explosão não se dá por si mesma se não for provocada pelo jogo anterior de forças externas. Assim, a Revolução Francesa de 1789 teve sua inspiração na Revolução americana, na luta pela independência, glorificada em França por tantos escritores e políticos. O caráter violento das revoluções é proporcional à resistência oferecida pelas velhas instituições, pela sua tenacidade. Contudo há muitos outros fatores que penetram ainda na sociedade para atuarem como corruptivos e destrutivos. Um deles é a democratização da cultura que sempre se tem feito à custa da própria cultura. À proporção que se difunde o conhecimento, pelo modo que se tem feito, este decai em rigor e em profundidade. Jamais o conhecimento dado a todos atinge os graus quando ministrado a uma minoria, que o considera como um galardão. O número das mediocridades pseudamente cultas aumenta de tal modo que favorece a eclosão de uma sub-literatura, que muitas vezes se apregoa como a mais alta e mais robusta manifestação da inteligência humana, como se verificou e se verifica ainda em nossa época, em que, por influência da industrialização e da educação extensiva e não intensiva, o romance e a poesia sem valor conseguiram cultores inúmeros e um público capaz de devorar todo o lixo da inteligência humana. Nunca espécimes humanas mais medíocres conseguiram tanto aplauso.

Por outro lado, um fato que também intervém para a desagregação social é o excesso de especialismo, o que também se verificou entre os gregos que criaram uma palavra Banausia, para indicar essa especialização deformadora, que constrói mentes monstruosas, afastadas da concreção, tendentemente abstratistas, que é uma forma viciosa da abstração, e que perturbam a unidade necessária e a harmonia indispensável para o crescimento normal de uma civilização. Tais especialistas, devido às viseiras que usam, têm uma visão sempre parcial e limitada, e são facilmente manejáveis pelos poderosos, porque sabem que lhes é fácil indicar um caminho a seguir, pois não são capazes de examinar e escolher com segurança o melhor que convém ao todo, porque não têm uma visão do todo, mas apenas da parte. A banausia, tão ridicularizada pelos gregos, domina a nossa sociedade, e impede que uma visão geral mais profunda das coisas possa orientar os homens. Todos esses elementos, como muito bem o salientava Toynbee, têm um papel desagregador e favorecem a corrupção. Basta que olhemos em nossos dias o espetáculo doloroso da literatura mundial, onde verdadeiras mediocridades são endeusadas como arautos da verdadeira arte, e chegamos a um século em que o número de grandes e reais valores é cada vez mais diminuto, enquanto repórteres da literatura e falsos artistas forçam violentamente os meios de propaganda, com o intuito de obterem o cartazismo de vedetes, não trepidando em usar e empregar os mais vergonhosos expedientes publicitários e demagógicos. Felizmente, há sinais de que um público mais culto desperta, e exige obras melhores.

Essa cisão, que se observa na época moderna, é de máxima importância. Toynbee estabeleceu dois aspectos da queda da autodeterminação, que foram: a mecanização do mimetismo; ou seja, a não correspondência por parte dos dirigidos em relação aos dirigentes, e em segundo lugar, a irredutibilidade das instituições; ou seja, a impossibilidade destas suportarem formas supervenientes, não contidas em suas virtualidades. Destaca um exemplo de decadência quando se instaura uma idolatria a uma instituição efêmera, como a dos atenienses ao papel de educadora do mundo, que atribuíram à sua cidade; a dos cristãos, no sonho de um novo império romano, o sonho da cosmópolis de Alexandre. Outros aspecto é o apego a uma técnica efêmera, como o é a simbolizada pelo duelo de David e Golias, em que este, convicto da sua técnica, desprezou totalmente as possibilidades de seu contendor, e avançou sem receio, como a França na guerra de 1939, confiando na impenetrabilidade de sua famosa Linha Maginot, como os mamelucos do Egito, ante a nova técnica de Napoleão, os velhos exércitos ante a falange macedônica, e a falange cedendo às legiões, as velhas formações militares ante as armas de fogo, a vitória do exército francês sobre as formações prussianas de Frederico o Grande e, finalmente, o desenvolvimento técnico do exército alemão em face das velhas técnicas dos franceses em 70, e superando-as.

Da desagregação das civilizações – Escreve Toynbee: “… nós já descobrimos, que a causa última e a razão fundamental dos declínios, que precedem as desagregações são essas explosões de lutas intestinas, que comprometem a faculdade de auto-determinação das sociedades. Os cismas sociais, que revelam essa discórdia, rompem simultaneamente a sociedade derruída sobre dois planos. Existem cismas verticais entre sociedade cindidas geograficamente, e cismas horizontais, em que as classes, que habitam o mesmo território, opõem-se uma à outra”. Entre as primeiras, temos as guerras entre os estados, que os levam ao suicídio; quanto às segundas, estas aparecem já quando a sociedade declina e inicia seu derruimento e desagregação. Estas últimas não surgem nas fases de crescimento. Em nossa civilização ocidental, encontramo-nos em face desse último tipo de cisão. “Ao terminar nossa análise, descobrimos que mutação qualitativa, que acarreta a desagregação, traz um caráter oposto ao que produz o crescimento. Vimos que, no decurso do desenvolvimento, as diversas civilizações, que se elevam, diferenciam-se cada vez mais umas das outras. Vamos agora descobrir que, ao contrário, o efeito qualitativo da desagregação leva à estandardização”.

O socialismo autoritário de Karl Marx é um exemplo desse cisma social desagregador pela exaltação da luta de classes, portanto da cisão social. “Este cisma… nasceu de dois movimentos negativos, inspirados cada um por uma má paixão. De início, a minoria dominante experimenta manter, pela força, a posição privilegiada, que ela cessou de merecer. O proletariado responde, então, à injustiça pelo ressentimento; ao medo, pelo ódio; à violência, pela violência. Contudo, o movimento completo alcança a criações positivas: o Estado Universal, a Igreja Universal, as horas bárbaras”. Contudo, não se evita que uma nova minoria seja dominante e toda poderosa, e de um poder muito superior à anterior, por colocar toda a máquina do poder às suas ordens. O que caracteriza o proletariado interno não é propriamente a sua existência, mas a sua consciência de classe, o ressentimento de sentir-se deserdado da situação. E é esse proletariado que é, posteriormente, excitado pelas mais sinistras figuras de cesariocratas, trânsfugas de seus estamentos sociais, como um Sertório, um Sexto Pompeu, um Mário e um Catilina, entre os romanos, e outros que a história nos conta em nossos dias, que auxiliarão a destruição de uma civilização. Contudo, se não se dá a vitória desejada, abrem as portas a um novo surto cultural, porque, rompendo, corrompendo e desagregando totalmente o que perdurava do passado, dispõem os elementos materiais e fundamentais para uma nova informação, para um novo ciclo cultural, que se abre, também, com uma nova fé robusta, com seus mártires e seus propagandistas fervorosos.

Antes de terminar este apanhado geral, no qual compendiamos as principais concepções de Toynbee, desejamos atentar um pouco para a especialização, que é, na verdade, um dos movimentos mais sinistros de cisão da alma, para usarmos uma expressão daquele autor. A valorização do especialismo surge da consciência, que se toma em primeiro lugar, do acervo imenso de conhecimentos particulares e da impossibilidade que limita nossa vida e nosso conhecimento em poder acompanhar tudo quanto é descoberto, achado, conquistado. Então, surge aos olhos de muitos, que é preferível conhecer-se bem alguma coisa em particular do que mediocremente muitas em geral. O universalismo do conhecimento é combatido em favor do especialismo, e o especialista começa a surgir aos olhos dos menos percatados como representante de um nível mais alto de cultura. Contudo, na verdade, não foram as mentes da banausia que criaram algo de novo e de grande para a humanidade, mas precisamente aqueles que invadem vários setores do conhecimento. Por isso, não é de admirar que a Humanidade deva mais aos autodidatas o seu progresso intelectual que aos prisioneiros de uma escolaridade particularista. Ademais, os poderosos sabem que o melhor meio de dominar é dividindo. E como desejam dominar uma totalidade, como poderiam dividi-la em partes? O processo é simples: dividam-se os homens pelo conhecimento, de modo que nada em comum haja mais entre um médico e um engenheiro, que não podem mais manter entre si uma conversação sobre temas superiores, porque estão ambos distantes um do outro, e separados por um abismo de ignorância, pois o médico orgulha-se de ser nesciente da engenharia e o engenheiro exibe o galardão da sua ignorância total da medicina. Desse modo, estarão separados pelo espírito. Mas poderão estar unidos pelo poder coativo do Estado ou do partido, ao qual servem como “soldados fiéis” ou “correligionários”. Desse modo, os poderosos, dividindo, melhor podem governar. Eles sabem disso e toda orientação do Estado todo-poderoso sempre consistiu, na história da humanidade, em desenvolver, sob o pretexto da divisão do trabalho e da vantagem que há no conhecimento do particular, o aumento crescente da especialização, de modo que os homens se separem, unidos apenas pelo poder estatal, que os uniformiza como servidores apenas.

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