Evolucionistas
Chamam-se evolucionistas as teorias da evolução, que, seguindo as suas pegadas, procuram explicá-la por razões de ordem científica e filosófica. Ante o evolucionismo surgem as posições não evolucionistas que as combatem: 1) Teorias que não aceitam a evolução propriamente dita. 2) Teorias que a aceitam. Etimologicamente, o termo evolução significa desenvolvimento, volver para fora o que já está contido em algo. Nesse sentido seria o desenvolvimento pela atualização das possibilidades, das potências já inclusas virtualmente em algo, o processo das atualizações das potências dos seres, e nesse sentido lato todos estão de acordo. Assim o germe evolui até alcançar o indivíduo acabado. A evolução é, pois, uma ex-plicação, um "desembrulhar" das virtualidades que se atualizam, o efetivar-se do que já estava no germe. Há uma evolução no campo do indivíduo, como há também uma no campo das espécies. Neste último caso, a espécie posterior e mais perfeita estaria em potência na inferior, cujo desenvolvimento terminaria por dar surgimento efetivo a uma possibilidade. E isto se dará ou por fatores internos ou por externos, ou por um desenvolvimento interno na espécie, que tenderia para a espécie superior, ou então essa passagem, esse desenvolvimento, dar-se-ia sob a pressão dos fatores externos, que estimulariam o processo interno, segundo alguns, ou apenas fatorariam o processo interno, que seria, nesse último caso, apenas um efeito de ação exterior. A observação dos fatos biológicos leva facilmente a uma posição evolucionista, pois este pensamento é dominante na observação deles ao teorizá-los. Mas é evidente que há várias maneiras de considerar a evolução, e nessas modalidades do pensamento evolucionista está o motivo que gera as maiores discordâncias. Há necessidade, portanto, de esclarecer as divergências para depois analisá-las.
Há teorias que não aceitam a evolução e há as que a aceitam. E em ambas se dão modificações: a) por fatores internos; b) por fatores externos; c) pela interatuação de ambos.
As que não aceitam podem classificar-se:
1) Fixistas – admitem uma harmonia preestabelecida entre o organismo e o meio. Temos, em parte, o criacionismo clássico e o vitalismo moderno.
2) Preformismo – admite que o organismo responde a qualquer situação atualizando suas estruturas virtuais (posição mais do vitalismo moderno, mutacionista, e que corresponde ao apriorismo nas atitudes filosóficas). O meio ambiente tem um papel de "detector". No terreno da psicologia temos as posições apriorísticas, que consideram algumas estruturas mentais como anteriores à experiência. Esta apenas facilita a atualização de potencialidades latentes, como nos inatistas clássicos. Aquelas são preformadas e não elaboradas pela experiência. Há correspondência com o intelectualismo, que explica a inteligência por si mesma.
3) Doutrina biológica da emergência, afirma que as estruturas de conjunto são irredutíveis aos seus elementos e determinadas simultaneamente de dentro para fora. As estruturas de conjunto são irredutíveis. Corresponde à fenomenologia moderna, aos elementos exteriores e as sínteses também à teoria da Gestalt, das "formas", na psicologia.
As que aceitam a evolução (evolucionistas):
1) O Lamarckismo afirma a adaptação por pressão exterior. Essa idéia corresponde ao associacionismo, pelo qual o conhecimento resulta dos hábitos adquiridos, sem que nenhuma atividade interna, que constituiria a inteligência como tal, condicione tais aquisições. Corresponde também ao empirismo, que explica a inteligência pela pressão das coisas.
2) Mutações endógenas com seleção. Temos Darwin aceitando-as através da concorrência. Há ensaios e erros. Corresponde ao pragmatismo, ao convencionalismo. Por ex. o espaço euclidiano tem três dimensões, porque estas correspondem aos nossos sentidos. (Há adequação do espírito ao real).
3) A interatuação dos fatores internos e externos: é o que afirma o relativismo biológico. Corresponde à interdependência do sujeito e do objeto, da assimilação do objeto pelo sujeito, e da acomodação deste àquele. (O interacionismo afirma a colaboração indissolúvel entre a experiência e a dedução).
Do que foi analisado pode-se apresentar o seguinte esquema: São fatores hereditários: a) o nosso sistema nervoso e os órgãos dos sentidos; b) a organização tensional da nossa inteligência manifestada nos níveis de capacidade. Não poderia o organismo adaptar-se às variâncias exteriores, se não estivesse já organizado. Nem a inteligência apreenderia nada do mundo exterior sem funções coerentes, próprias da organização noética. Não herdamos a técnica, mas a capacidade, pelo menos a aptidão para os esquemas que se estruturam em conjuntos, e este em conjunturas, que formam a constelação do nosso psiquismo. Há assim uma hereditariedade biológica e uma psíquica. A individualidade, hereditariamente considerada, é invariante quanto às condições de espontaneidade próprias de expansão e retração do processo vital (da matéria viva e seu desabrochamento); e variante, quanto às influências acumuladas através de gerações. A individualidade, hereditariamente considerada, é tomada como a parte invariante da individualidade humana.
Comentários
Das teorias que não aceitam a evolução em sentido restrito, os fixistas estabelecem que o organismo humano tem a sua forma adequada ao meio ambiente. O processo de seu desenvolvimento se dá dentro dessa forma, e acontecimentos que sobrevêm são apenas acidentais e não substanciais. Não há portanto transformação, isto é, o ser humano biologicamente não é uma fase do desenvolvimento do ser animal, pois o homem é formalmente homem. Para que um ser animal se tornasse homem, teria de perder a sua forma anterior para ser novamente informado. Haveria assim uma geração e uma corrupção. Corrupção da forma anterior e geração imediata da nova forma. O que se manifesta através das modificações sofridas pelo ser biológico são apenas atualizações de virtualidades já contidas na forma, porque todo ser atua proporcionadamente à sua natureza. São potencialidades latentes que se atualizam no pleno exercício de seu ser, como o afirmam os preformistas. Os mutacionistas admitem que as mutações experimentadas pelo ser biológico estão contidas na forma que tem, e são apenas possibilidades atualizadas que não afetam a substância do ser, tomado formalmente. O que há de positividade nessas posições refere-se à impossibilidade de ser um ente mais do que realmente é, o que é congruente com o axioma do de nihilo nihil. As mutações experimentadas são apenas possibilidades que emergem do ser, segundo os emergentistas. O fundamento dessa positividade está no postulado filosófico de que a "ação segue-se ao agente". As mutações que se dêem, se ultrapassam ao campo da forma, exigiriam a corrupção do ser anterior e a geração de um novo. Exemplifiquemos: um triângulo pode ser isósceles, escaleno, etc., mas suas mutações se dão dentro da forma da triangularidade. Ele jamais se torna um quadrado, porque ao surgir este, dá-se o desaparecimento deste triângulo. O quadrado não é um triângulo evoluído, mas outro ser, formalmente outro. As mutações dão-se ao âmbito da forma. A evolução com transformação é por muitos negadas. Para que surgissem novas espécies, essas não seriam apenas fases de uma espécie anterior, mas corresponderiam a uma nova informação, com a corrupção da forma anterior. Para algumas posições, as espécies já estão dadas desde início, e as mutações que se conhecem são apenas o atualizar de possibilidades virtuais, latentes, e nada mais. Para uma filosofia cristã a evolução é aceita desde que respeite essa positividade. Não há porém nenhum inconveniente na assunção da humanidade por parte de um ser animal, que tenha desenvolvido suas possibilidades, o qual corresponderia à matéria em face da forma. Mas o advento do homem implicaria ademais a providência, isto é, o preestabelecimento de uma causa eficiente, que permitisse ao ser animal ser assumido pela humanidade, o que é expresso no termo bíblico da inspiração da alma humana do Adão feito de barro, no Adão animal, que recebe o espírito que o humaniza. Não há aqui propriamente composição, como se o homem fosse o produto de uma mixis, de uma mistura de animalidade e racionalidade. O ser adâmico é assumido pela humanidade por um ato criador. A humanidade não era uma potencialidade que se poderia reduzir à animalidade, mas um salto específico, que exige uma causa eficiente superior, que permitiu essa assunção, uma informação nova.