Especialismo
Um preconceito de nossa época é o valor que se dá ao especialismo, em torno do qual gira um conjunto de outros preconceitos, que vieram a se tornar verdades definitivas. Não é nova essa hiper-valorização do especialismo. Já Sócrates ridicularizava, em sua época, os sofistas em darem um valor excessivo à especialidade, como se aí apenas houvesse o único caminho para o conhecimento humano. Vide Banáusico e Especialidade.
Os defensores desta posição reúnem suas razões que parecem ser poderosas e para alguns até definitivas. Os argumentos utilizados podem ser assim reduzidos:
1) Em face do desenvolvimento crescente do conhecimento humano e da limitação da vida, e da disponibilidade relativamente curta de tempo, torna-se cada vez mais difícil ao homem abranger um âmbito muito elevado de conhecimento.
2) Tomada apenas uma matéria, verifica-se que o campo de seu conhecimento elevou-se a proporções tão grandes que o conjunto do que se sabia no passado representa apenas uma fração mínima em comparação ao volume atual.
3) A impossibilidade de a mente humana poder abranger esse volume tão grande de conhecimentos levaria, quem desejasse possuir um conhecimento enciclopédico, apenas a uma visão ínfima de cada ciência. Dessa maneira, a tentativa de ter um conhecimento desta parte eqüivaleria a uma quase total ignorância.
4) Um conhecimento tão mínimo da ciência, embora abrangendo a totalidade, traria como conseqüência que o grau de saber em vez de aumentar diminuiria de tal modo que ninguém, em nenhum setor, seria capaz de realizar coisa alguma.
5) É preferível, pois, que se tenha um conhecimento maior num único setor, pelo qual possa o estudioso ser mais útil e competente, do que possuir um conhecimento enciclopédico, carente totalmente do mínimo indispensável. É preferível conhecer-se bem uma pequena região do conhecimento do que desconhecer-se quase tudo.
6) Consequentemente todo o ensino deve orientar-se para a formação de especialistas e deve-se combater com energia a tendência enciclopedista que é ineficiente.
Nesses argumentos estão relacionadas as principais razões dos defensores do especialismo. Por tais razões, com o crescimento constante do conhecimento em todos os setores do saber humano pode-se, desde já, fundado no mesmo modo de pensar, dizer que é impossível uma plena especialização em qualquer disciplina. Não se pode mais falar em especialidade da medicina, nem da física, nem da sociologia. Perder-nos-íamos com o decorrer dos anos numa atomização de especialismos dos mais extremos. Por essa concepção, proclamar-se-ia definitivamente o fim do conhecimento, porque tal atomização em intensidade, corresponderia à atomização em extensidade do enciclopédico, e do mesmo modo que este não seria capaz de ligar os conhecimentos mínimos numa totalidade coerente bem fundada, também o excessivo especialista estaria isolado de todos os outros estudiosos e a comunicação entre os homens de saber tornar-se-ia impossível. Podem parecer extremadas estas palavras, mas é onde nos levam se aceitarmos fundamento na tese dos defensores unilaterais do especialismo.
Antes de respondermos aos sofísticos argumentos queremos dizer que não somos inimigos do especialismo. Somos sim adversários desse modo monstruoso de conceber o especialismo e, também, a maneira de avaliar o saber enciclopédico. Quanto à influência marcante do quantitativo nas nossas apreciações, já foi denunciado e analisado por muitos que qualquer pessoa de mediana inteligência, se prestar a devida atenção, facilmente captará a sua influência maléfica, que tem afastado uma avaliação mais justa e consentânea das grandes conquistas do conhecimento, do próprio homem e das suas coisas.
Não sabe mais história quem conhece mais fatos, quem sabe mais datas, quem pode relatar mais acontecimentos, mas quem nela penetra com uma visão mais profunda, e capta a significação dos fatos, as razões das grandes correntes históricas, da motivação revelada pelas suas correlações e analogias. Uma das características da forma de produção capitalista tem sido a excessiva especialização das funções e também dos bens de consumo. O capitalismo impregnou o seu preconceito: o da especialização. Influiu com a sua visão quantitativista, o que demonstra a força propagandística que dispõe.
Por este ponto de vista só poderá conhecer Platão e Aristóteles, não quem apenas tenha lido algumas vezes a sua obra, mas sim aquele que se tenha totalmente dedicado a ler todos os comentários feitos sobre a obra dos dois grandes filósofos, percorrido todos os caminhos da exegese, e o campo das inúmeras controvérsias. Por esse ponto de vista é inexplicável que Tomás de Aquino, tendo lido apenas o Timeu tenha conseguido fazer a mais coerente e justificada interpretação do pensamento de Platão, o que não conseguem fazer aqueles que dedicam a vida inteira a estudá-lo, e que só tem acrescentado notícias sobre notícias, apresentado uma problemática sem muito fundamento, complicando o que era simples e tornando obscuro o que era claro.
Por sua vez, também o segundo argumento encontra a sua refutação no que dissemos. O terceiro argumento é capcioso. Para ele, o conhecimento enciclopédico é uma ignorância enciclopédica, porque não é possível conhecer-se senão um mínimo de cada especialidade e tão pouco que seu valor seria diminuto e inexpressivo. O quantitativo domina ainda este argumento sofístico. E é fácil verificar a improcedência de suas premissas. Por acaso não continuam em pé as grandes interrogações? Foram oferecidas melhores respostas que as propostas pelos grandes filósofos? Não mergulhou o conhecimento num mundo de trevas e de confusões, fazendo ressuscitar velhos erros já refutados com antecedência de séculos e milênios, e que gozam do aplauso? Todos os outros argumentos fundam-se em razões do mesmo valor e são estabelecidos pelo mesmo modelo.
Para respondê-los, vamos apenas explicar o que seria o generalismo em nossa época, em contraposição ao especialismo, embora consideremos ambos maneiras defeituosas, porque nossa posição não nega validez ao especialismo nem os bons resultados que tem oferecido. Mas o que a nossa posição afirma é que o especialismo leva a uma visão unilateral e deformada da realidade, a um abstratismo perigoso e maléfico. O que é preciso é uma síntese bem combinada de especialismo e generalismo ou um especialismo-generalista. Realmente, ante o vulto dos conhecimentos atuais, é mister um método de conexão, que realize a entrosagem do conhecimento especializado com uma visão geral coerente e positiva do conhecimento. Contudo, encontramos nos estudos ontológicos, as bases fundamentais que unificam os diversos conhecimentos esparsos.
A escolástica realizou no campo da filosofia a análise mais ampla em intensidade e extensidade, chegando alguns escolásticos menores a excessos realmente indesculpáveis, e que serviram, posteriormente, de argumento contra o corpo geral da obra realizada pelos medievalistas. Há uma analogia e correspondência desse analitismo intensista e extensista, realizado nos séculos XII e XVII, como os cinco séculos da história grega, que vão desde os fisiólogos à Pitágoras, Platão, Aristóteles e até os sofistas, correspondendo a especialização destes com a que se verifica no período atual de domínio quantitativista no ocidente. Contudo, a análise intensista realizada era acompanhada de uma intensista análise da ontologia, porque era impossível deixar-se de fundá-la em campos determinados e vários, sem que houvesse uma preocupação profunda da positividade, do afirmativo, porque tudo isso quanto há aí não pode ser apenas uma ficção, um grande nada, porque nada é nada, e o que há deve ter um fundamento positivo. O exame das características do ser e dos modos de ser, o correlacionamento e a transcendência que realizavam a conexio dos elementos dispersos em unidades estruturais, e estas na grande unidade suprema, impediam que as análises dispersas se tornassem abissalmente separadas umas das outras e criassem diástemas irredutíveis entre os diversos setores do conhecimento.
Para que se institua um generalismo capaz de dar o conteúdo transcendente ao conhecimento, é mister que tenha ele bases fundamentalmente ontológicas e razões baseadas em argumentos e demonstrações apodíticas, cuja validez não possa ser posta em dúvida por qualquer sofista. Para alcançar-se o generalismo capaz de dar a base transimanente e fundamental ao especialismo é necessário um método. A matemática e a lógica tem sido as disciplinas auxiliares do conhecimento, e graças a elas somos capazes de alcançar generalidades que dispensam o exame do vário e do heterogêneo, o que nos permitem construir as leis (os logoi), as constantes, os invariantes, as normas gerais, que formam a estrutura superior de um conhecimento. Pode alguém ter a maior soma de conhecimentos físicos, mas se desconhecer as leis da física, seu conhecimento será apenas parcial. Pois bem, tanto a matemática como a lógica são indispensáveis ao conhecimento hodierno. Mas enquanto falamos em lógica não falamos apenas nos conhecimentos elementares da lógica menor, mas nos mais elevados da lógica demonstrativa e da dialética bem orientada. Graças a essas matérias, quando bem conhecidas, e não são muitos os que a conhecem e bem poucos os que as sabem aplicar, chegaremos então a possuir os métodos capazes de dar a visão geral, não de uma, mas de muitas especialidades e com mais sólidos fundamentos do que a mera acumulação de notícias, de dados, de pesquisas, de fontes, de polêmicas, de divergências.
Para finalizar, queremos apenas dizer o que se segue: a mania especialista passará como passaram muitas outras manias. Também há de se verificar que se cometeu aí um erro que se iguala a muitos erros cometidos no passado. Há ainda de chegar a hora de se compreender que o especialismo não é esse ogre voraz que ameaça tragar o conhecimento num atomismo monstruoso, nem que o generalismo é uma impossibilidade.