Voltar ao Dicionário

Dor

fisiologia da

As tentativas de explicação dos fatos psíquicos, reduzindo-os aos fatos fisiológicos, como não poderia deixar de ser, malograram por desconsiderar os aspectos qualitativos e tensionais, totalmente diferentes, que impedem expliquem-se o superior pelo inferior. O ato psicológico dá-se a par do fisiológico, sem ser dele um epifenômeno, em ser um mero fato (feito) fisiológico. Mas tal não impede compreender a interatuação que é positiva, que se dá entre estas duas ordens, o que, ao captá-la, levou a muitos resolverem com extrema facilidade o que era por demais complexo.

Quanto à solução da fibra nervosa, E.D.Adrian expõe que:

Um impulso eficaz requer, em compensação, certa intensidade e rapidez no meio ambiente. O estímulo atua como um gatilho que desencadeia o impulso, não provê, porém, energia necessária para a sua transmissão. O impulso é uma alteração momentânea, que se desloca ao longo da fibra nervosa, acompanhada de uma mudança de potencial elétrico. A natureza do impulso em cada ponto não depende do caráter ou da intensidade do estímulo que o produziu, mas apenas das condições locais da fibra naquele ponto. Quando um impulso alcança um ponto da fibra, este ponto se torna refratário a todo estímulo externo, e só transmite outro impulso, após haver passado certo lapso de tempo. O resultado é que a mensagem que podem transmitir as fibras nervosas consiste num ou mais impulsos descontínuos, sendo impossível a transmissão contínua de um estado de excitação. De fato, a mensagem só pode ser diferente devido à variação do número total dos impulsos, e na freqüência com que estes se repetem.

A sensação está assim condicionada pela ação do estímulo, que é predisponente. Mas esse estímulo atua por mudanças de extensidade e de intensidade. O estímulo atua descontinuamente, o que nos mostra o caráter cinemático da sensação, que se processa por constantes diferenças de potencial; por oposições, portanto. O impulso, que é levado através da fibra nervosa, implica alterações momentâneas, e a sua natureza depende da mudança de potencial que, por sua vez, depende das condições das fibras nervosas. Essa interatuação de fatores emergentes e predisponentes é importantíssima de ser observada e nos revela o funcionamento alternativo da sensação. A fibra, ao receber um impulso, não transmite outro, torna-se refratária a outro impulso durante certo lapso de tempo, permitindo, depois, a transmissão do novo, o que impede a transmissão contínua. A diferença da mensagem está extensivamente no número das variações e intensivamente na freqüência com que estes se repetem. Todos esses impulsos atuam provocados por fatores presdisponentes, mas a sua atuação depende, portanto, da emergência, da qualidade das fibras, o que completa o ciclo de acomodação das fibras e de assimilação do estímulo. Mas o impulso, que nelas se forma, não é uma transmissão do estímulo que percorre a fibra, mas, sim, as modificações de potencial, que fazem variar as cronaxias (correntes elétricas dos neurônios), as quais, segundo a variedade do número dos impulsos e da freqüência, dão a especificidade da sensação. Psiquicamente, não incorporamos o fato do mundo exterior, que atua apenas como estímulo, enquanto, no biológico, a assimilação se dá por integração do elemento exterior na componência física do organismo. Aqui não se dá tal coisa, mas apenas modificações nervosas, intrínsecas aos nervos, e a assimilação é totalmente diferente, o que nos mostra, desde logo, a irredutibilidade total da fisiologia do sistema nervoso ao apenas biológico. O funcionamento nervoso na vida, não é apenas o biológico, pois é especificamente diferente, não uma mera diferenciação, mas tensionalmente diferente, o que é importante, o que nunca se deve perder de vista.

Pelo que respeita às fibras motoras, há pouca dúvida de que sua atividade normal no organismo consista na transmissão de impulsos do mesmo tipo que os observados nos nervos isolados, estimulados eletricamente. A investigação da atividade formal das fibras sensitivas esteve dificultada no passado pela falta de estabilidade dos instrumentos de registro; mas o recente desenvolvimento da amplificação das válvulas tornou possível o registro das mais débeis modificações elétricas com aparelhos registradores, relativamente pouco sensíveis (Adrian).

Os estudos de fisiologia nervosa atestam que não há uma atividade específica das fibras sensitivas, correspondentes a cada tipo de órgão sensitivo. As fibras dos distintos órgãos receptores podem diferir quanto às suas relações temporais, mas a atividade fundamental, o impulso nervoso, é comum a todas elas, e comum também às fibras motoras. Para Adrian, no caso dos receptores musculares e de pressão, as descargas são tão semelhantes, que a diferente qualidade da sensação produzida tem que depender das conexões centrais da fibra. No caso da dor, contudo, é preciso determinar se existe caráter específico na atividade da fibra nervosa. Como se verificou que a dor pode ser produzida por estímulos térmicos ou químicos, intensidade suficiente, concluíram de início os fisiólogos que qualquer estimulação excessiva de um receptor cutâneo era capaz de produzir dor, ponto de vista abandonado depois. Acreditou-se, então, que havia condutores especiais para a dor, da mesma forma que os há para a temperatura e para o contato. Mas concluiu-se, ante o caráter específico da dor, que os receptores e condutores diferem consideravelmente dos outros tipos de sensações cutâneas. Os estudos de Head e de Ranson levaram a concluir que devem ser filogeneticamente diferentes tais fibras, que estas devem ser de estrutura distinta das outras. Apesar dos estudos de Gasses e Elanger, mais modernamente, nada se pode ainda precisar e tudo permanece no terreno das hipóteses.

A conclusão a que chegou Adrian é a seguinte:

Os impulsos, produzidos pelos estímulos dolorosos, são do tipo habitual, e a sua freqüência acha-se dentro da zona ordinária; mas há alguma evidência de que a descarga deve possuir certa massa (duração e intensidade), para provocar a reação dolorosa.

Não há ainda, evidentemente, nenhuma solução definitiva para os problemas da fisiologia nervosa que não esteja fundada apenas em hipóteses. E até agora o máximo a que se alcançou permitiu apenas que se precisassem os fenômenos de ordem física. Verificou-se, ademais, que os fatos psicológicos diferentes apresentaram iguais processos nervosos. E, desta maneira, a conclusão de Adrian é que a fisiologia não pode, por si, explicar senão como se dão os fatos psico-fisiológicos e não explicá-los no seu porquê, o que é uma verdadeira e nítida posição científica. A fisiologia por si só não nos pode explicar a sensibilidade nem muito menos a afetividade, apesar dos esforços de tantos fisiologistas.

Voltar ao Dicionário