Prova da existência do Ser Supremo
Com referência à prova da existência do Ser Supremo, muitos filósofos são de opinião que as demonstrações a concomitante e a simultâneo são inaceitáveis, como Tomás de Aquino e quase todos os tomistas, Suarez e muitos molinistas, Kant, etc. Por outro lado, admitem a suficiência do argumento a simultâneo Santo Anselmo, Vásquez, Leibniz, Scot, Descartes, etc. No entanto, estão todos de acordo em que não se aplica, de modo algum, a demonstração a priori, porque não tendo o Ser Supremo uma razão de ser fora dele, não poderíamos partir de uma premissa que encerrasse a causa da sua existência. Como já vimos, no argumento a priori, a conclusão é inferida de premissas, que contêm a causa real daquela, ou a razão suficiente daquela, e como tal antecedente. Ora, tal não poderia haver no Ser Supremo, pelo menos não poderia haver uma razão suficiente adequadamente distinta dele, que fosse sua razão. Contudo, podem-se inferir os atributos a priori, mas estamos aí numa explicitação do que já está nele contido, porque não há distinção real‑física entre os atributos do Ser Supremo. Também se nega a possibilidade de uma demonstração a concomitante, porque, nesta, deduz-se a conclusão de algo inseparavelmente conexionado, cujas premissas estão inseparavelmente conjugadas, por dependerem de um princípio comum. Ora, o Ser Supremo não pode depender de nenhum outro ser, razão pela qual não cabe na demonstração a concomitante. Argumentam ainda os que negam a demonstração a simultâneo, que esta, além de não ser propriamente uma demonstração, caracteriza-se, ademais, por ser a conclusão inferida, não de outra coisa que seja causa ou efeito dela, nem de alguma coisa que dela se distinga segundo uma razão de distinção perfeita, mas de alguma coisa que, implícita e formalmente, já contém a conclusão. Há aí mera explicitação como se pode proceder quanto aos atributos do Ser Supremo.
Considera-se, assim, o argumento anselmiano (argumento a simultâneo ou também chamado ontológico) como inválido para o fim que pretende. E reduzem-no à seguinte forma silogística: Deus é o que nada de maior se pode cogitar; ou seja, o máximo excogitável; ora, o máximo excogitável existe; logo, Deus existe. Os adversários desse argumento acusam-no de uma ilegítima passagem da esfera meramente lógica para ontológica, porque não se prova ainda a existência de Deus ao afirmar que é ele o que de maior se pode cogitar. A premissa maior é convencional, já que muitos podem conceber Deus, não como o ser maior que existe. Mas poder-se-ia objetar que, de qualquer forma, há sempre a admissão da existência de um ser, que é o maior que se pode cogitar. E, ademais, uma concepção de Deus, que não lhe atribuísse tal eminência, seria falha. De qualquer forma, pode-se partir de que, em qualquer pensamento culto, a ideia de Deus implica sempre a do ser de maior poder que se pode cogitar. Se ele não existe, poder-se-ia cogitar de outro que existisse, e esse seria maior, e seria, consequentemente, Deus. Pois, do contrário, o máximo excogitável, que seria o primeiro, não seria o primeiro, o que é contraditório. A argumentação contrária afirma que, pelo fato de ser excogitado, não se prova que se dê a existência exercitada, em seu pleno exercício, fora da mente (extra mentis). Prova‑se que a existência é meramente excogitada, não que exista no pleno exercício de seu ser, o que exigiria outra prova. A contradição é meramente lógica, e não prova ainda a existência extra mentis.
Também é inválido o argumento modificado por Descartes, que se pode reduzir silogisticamente à seguinte forma: O ser necessário necessariamente existe; Deus é o ser necessário; logo, ele necessariamente existe. A resposta é contida na objeção de que o ser necessário necessariamente existe, se existe. Não se prova ainda a sua existência. Também é acusada de invalidez a forma leibnitziana, redutível ao seguinte silogismo: O oniperfeito existe, se é possível; ora, o oniperfeito é possível; logo existe. Se fosse impossível não existiria. Também não pode existir nem feito por si, pois existiria antes de existir, nem feito por outrem, porque então não seria o oniperfeito e independente que é. O oniperfeito não contém negação de qualquer espécie, mas só perfeição, nem tem partes compossíveis, porque é simplicíssimo, do contrário não seria o oniperfeito. Não há, pois, nenhuma contradição ou impossibilidade no conceito de oniperfeito. A objeção sintetiza-se dessa forma: que o oniperfeito é positivamente possível não há que duvidar, mas também é possível negativamente. Impõe-se provar a posteriori a sua existência. O simples fato de não percebermos contradição não é ainda suficiente, pois ela pode existir ocultamente. Ademais, o silogismo peca contra as regras da lógica, porque o predicado tem mais realidade que o sujeito, o que é falso. A realidade, que tem, é a meramente cogitada, e não a realidade extramental. Para afirmar esta, é preciso provar a posteriori. Todos esses argumentos, o de Santo Anselmo, como o de Descartes e de Leibniz são assim impugnados.
Em resumo, a crítica afirma: a existência de Deus, do ser que nada de maior se pode cogitar, na forma anselmiana, é meramente cogitada, e não demonstra a sua realidade extramental. Um anselmiano poderia dizer: se julgas que o máximo excogitável só pode existir na mente, não é ele o máximo excogitável. Mas a resposta viria imediata: a existência provada é apenas a mental. Concede-se esta, sem que, por aceitar-se a validez desta, se possa afirmar a validez da existência extramental. Mas pode-se cogitar que o máximo excogitável não existe? Que é apenas um ser fictício? Na verdade, pode-se cogitar de que não existe o de que se pode cogitar que não existe. Mas o máximo excogitável não se pode cogitar que não existe. Portanto, ele existe. Mas acaso, respondem os objetores, inclui o conceito do máximo excogitável, essencialmente, a existência? Ademais, a contradição alegada não procede, porque não se nega a existência cogitada, mas apenas se nega a prova da existência extramental. Também o argumento leibnitziano é falho, porque se a oniperfeição não tem imperfeição nem carência, não o tem quando cogitada, mas daí a afirmação da sua existência, sem prova a posteriori, é improcedente. Além desses argumentos e o de Descartes, apresentam alguns neo-escolásticos o seguinte: O ente necessário existe ou não existe; ora, seria contraditório que o ente necessário não exista; logo, ele existe. Mas a contradição estaria em não existir enquanto cogitado. Ele só existe se existe. Há outro argumento dos neo-escolásticos, e o mais importante, que poder-se-ia sintetizar assim: repugna metafisicamente que o ser não seja; portanto, é necessário que o ser seja; ora, o ser necessário é Deus, logo repugna metafisicamente que Deus não seja, como decorrência da consideração que ser é ser. Seria contraditório afirmar que ser não é ser. Os objetores desse argumento diriam que concordam que há algum ser, mas que exista absolutamente impõe-se uma distinção. Se a existência desse ser é demonstrada a posteriori concordam, mas que seja demonstrada a priori negam.
Julgamos que a síntese que fizemos dos argumentos contrários é suficientemente clara; contudo impõem-se alguns reparos imprescindíveis. O possível, argumentam alguns, implica o necessário, pois o que venha a ser, necessariamente foi um possível que não podia deixar de ser, um possível que inevitavelmente será. Contudo, não há coincidência entre o possível e o necessário, daí não se poder dizer que tudo que é necessário é possível naquele sentido já exposto. É verdade que o possível implica o necessário, sem o qual o possível não seria. É preciso, pois, distinguir o possível ontológico de o possível lógico. O possível ontológico implica, necessariamente, o necessário, e não inversamente. Ora, ontologicamente, é possível em si mesmo tudo o que não contradiz o ser. O ser, que é o máximo excogitável, é possível em si, pois não contradiz o ser. Se ele fosse meramente possível, e não existisse, seria possível em outro, o qual seria maior que aquele. Ora, como ele está acima de tudo quanto é sua possibilidade, implica, necessariamente, a sua existência. Deve-se notar que é possível o que pode ser, e não propriamente o que pode e não pode ser, já que o necessário prova que pode ser, e repele o poder não-ser. Considerando-se o conceito de possível, tomado ontologicamente como o que pode ser, o ser necessário pode ser porque é. Para negar-se a existência do ser necessário, ter-se-ia que provar que ele é impossível, o que é absurdo. O ser necessário não só exige a sua possibilidade, como em seu logos implica a existência. Ora, os possíveis são possíveis em outro; o ser absolutamente necessário não poderia ser possível em outro, pois não seria, então, absolutamente necessário, pois, para ser tal, tem de ser em si mesmo. O ser necessário não contradiz, portanto, o ser. Quando Descartes declara que o ser necessário necessariamente existe, esta premissa já era a conclusão de uma argumentação implícita, que prova a necessidade da existência do ser necessário. Ademais, se não existisse o ser necessário, os possíveis seriam possíveis em seres possíveis, o que levaria ao absurdo. Ontologicamente, há possíveis, porque há um ser necessário. A possibilidade é aptidão para ser. Ora, essa aptidão para ser não pode ser dada pelo nada, mas sim por um ser. E se os seres antecedentes, que dão a razão de ser possível aos seres possíveis, fossem, por sua vez, apenas possíveis por si mesmos, nunca viriam a existir. A existência do ser necessário decorre de uma necessidade ontológica, e não lógica. Note-se que Santo Agostinho, pela sua filiação filosófica platônica, não construia o seu filosofar sobre razões lógicas, pois a posição platônica coloca o lógico num grau hierárquico inferior ao ontológico. É este que dá razão àquele, e não vice-versa. Não é o homem, com seus esquemas mentais, que justifica e dá razão ao mundo, mas são as estruturas ontológicas que dão o fundamento às estruturas esquemáticas do homem. Não é porque nós podemos pensar num ser oniperfeito, que esse pensamento dá existência a esse ser. A validez do nosso pensamento é dada pela inteligibilidade do ser, mas essa inteligibilidade não é um mero produto do homem, mas sim este, por participar da perfeição divina, é capaz de cogitar a oniperfeição. E torna-se isso evidente, porque, sem o ser necessário, afirmamos possíveis dependentes de possíveis, o que nos levaria à niilificação de tudo. Se logicamente chegamos ao necessário, partindo do possível, ontologicamente a razão do possível está no ser necessário. Ademais, se o ser necessário, que é possível à nossa mente, não existisse extra‑mentalmente, abismar-nos-íamos em o nada. A sua existência decorre de modo necessário, porque a sua possibilidade prova a não-contradição com o ser, mas simultaneamente afirma a sua existência, porque, do contrário, o ser estaria negado. A análise ontológica demonstra, concomitantemente, que o conceito de ser implica o do ser necessário, isto é, aquele que não pode não-ser. Ora, aquele ser que é, e não pode não-ser, é o primeiro, pois sem ele nenhum outro poderia ser. Ontologicamente, chegamos à conclusão de que há necessariamente um ser necessário primeiro, independente de qualquer outro, que é a razão do ser dos outros. O que se tem pensado sobre o Ser Supremo em todo o pensamento culto da humanidade é esse ser, o qual necessariamente existe. Logicamente, pode-se dizer que o conceito de possibilidade não inclui o de necessário ou o de necessidade. Podemos pensar na possibilidade separadamente da necessidade. Mas se a mente humana tem essa capacidade de excluir, e de separar os aspectos da realidade, em qualquer esfera, o mesmo já não se dá quando, superando os anteriores limites da nossa razão, trabalhamos ontologicamente, pois, nessa esfera, a possibilidade é falsa sem a necessidade. Na verdade, a matematização do pensamento filosófico só se poderia dar, libertando-se o homem dos conceitos estanques que a sua razão constrói, ao separar os fragmentos da realidade em séries abissalmente diacríticas, como distantes umas das outras por uma contigência utilitária, para melhor compreensão do mundo.
Comentários sobre a prova de Santo Anselmo
É possível em si mesmo tudo o que não contradiz o ser. O quod majus est... é possível em si, pois não contradiz o ser. Se fosse um meramente possível, e não existisse em ato, seria um possível em outro. E esse outro, ou seria o majus, ou não o seria. Se não fosse, seria absurdo que um ser contivesse em si a possibilidade de ser mais do que a sua natureza. Ora esse mais é ser absolutamente em ato e independente de qualquer ser. A independência, assim, viria da dependência, o que é absurdo. Ademais, a potência ultrapassaria a natureza do ser, que não é ainda o majus, mas que poderia sê-lo. E esse excesso de ser, se é dele, tem de nele ser ato, pois em potência seria absurdo e, neste caso, a potência teria mais ser que o que é em ato, e o infinito atual seria potência, o que é absurdo. Se admitíssemos que ultrapassa a natureza do que é, teríamos um ser sobrenatural e transcendente, ao qual negaríamos a realidade de ser em plena eficienticidade, o que seria ademais absurdo. Resta apenas que o majus é, e não pode deixar de ser; em suma, que necessariamente é, e é necessariamente. É possível em nossa mente, mas que necessariamente é, resta-nos saber. Não podemos dizer dele, que se é, é o majus, mas temos de dizer dele que é, e necessariamente é. A possibilidade está em nós, e não nele. O argumento de Santo Anselmo era ontológico e não lógico. Se fosse apenas lógico, haveria razão de afirmar que nele havia um salto indevido de uma esfera para outra, da lógica para a ontológica. Mas, na verdade, o seu raciocínio pairava na esfera ontológica, embora partisse, como não podia deixar de ser, da conceituação humana, mas para alcançar uma conceituação ontológica, que só pode ser o que é (monovalente, portanto). Ademais, não podendo ser em si uma potência, a possibilidade que nossa mente capta do majus leva-nos a reconhecer que ele necessariamente existe. Como poderia o menos conter o mais? Partimos, não há dúvida, da não contradição entre o majus e o que é contingente e dependente de nossa experiência. Restaria apenas um ponto objetável: que erramos ao admitir a sua possibilidade. O majus não seria possível, mas impossível. Emprestaríamos possibilidade a uma ficção nossa. Resta examinar se é realmente uma ficção. Conceituamos o majus por oposição ao contingente, diriam. Mas, na verdade, verificamos pelas operações iterativas ontológicas, que o ser independente e oniperfeito é absolutamente necessário. É a nossa mente que pode julgar que é possível, embora seja real extra mentis. Mas, pelos caminhos da dialética ontológica, sua necessidade esplende pela própria glória do ser. Já vimos que só há contradição ao ser quando a sua afirmação implica a negação da sua natureza. E a contradição do ser é o nada. Dizer-se que um ser é oniperfeito, não é predicar-lhe o nada. O verdadeiro conceito ontológico de possível é o que pode ser, e não o que pode ser e pode não ser, já que o que pode não ser é uma espécie de possível, que é apenas o que pode ser. A interação dialética ontológica mostrou-nos que o Ser Supremo pode ser. Não podemos dizer dele que pode e pode não ser, porque o não poder ele ser é absurdo. Ele pode ser e, porque só pode ser, é. Sendo ele necessário, prova que pode ser, e repele o poder não‑ser. O majus é o ser oniperfeito e independente. Se se admite um ser que não é oniperfeito e independente, ele não é o majus. Além disso, haver um ser que contenha toda a perfeição de ser, e que não venha de outro, não é mera possibilidade (pois como possibilidade é captado num estágio ainda primário da nossa operação psíquica), mas é uma necessidade absolutamente simples, é simpliciter absoluta. Além de não conter a sua existência contradição, ela ainda se impõe ontologicamente. Portanto, a admissão de que o majus é o ser oniperfeito, subsistente por si mesmo, independente portanto, não é apenas lógica, mas também ontológica. Ora, o que se entendeu sempre por Deus? No pensamento elevado e mais culto do homem, é esse ser onipotente, oniperfeito, subsistente por si mesmo, cuja essência é a sua existência, ou cuja existência é a plenitude de ser de sua essência, ou o ser cuja essência é existir plenamente. Se se conclui, como o faz Santo Anselmo, que existe necessariamente, não há salto do lógico para o ontológico, porque a premissa maior não é apenas lógica, mas ontológica também. E não é do seu aspecto lógico que ele conclui a existência, mas do ontológico, porque não é o lógico que afirma a existência mas sim o ontológico. Já vimos que o juízo lógico afirma uma possibilidade de ser, mas o juízo ontológico afirma necessariamente a existência, e o faz apoditicamente. A premissa maior do silogismo de Santo Anselmo é um juízo ontológico, no sentido que expomos. Não há, assim, nenhum salto indevido, porque há um ser que nada de maior pode ser cogitado. Deste modo, a prova ontológica de Santo Anselmo é, na dialética ontológica, absolutamente rigorosa, desde que provada a premissa menor, ou seja: "o máximo excogitável existe". Duns Scot, por outros caminhos, prova a validez da menor. Rigorosamente, o verdadeiro possível é o que não é realizado em ato. E possível é o que pode atualizar-se em ato. Podemos, assim, tomar especificamente o possível: a) como o que pode ser, o possível tomado genericamente (generatim); b) o que pode vir a ser e ainda não é (é o possível distinto do ato); c) o que é e, por isso, pode ser (é o possível junto ao ato); O ser que, se é, é necessário, é o ser hipoteticamente (hypotetice) necessário. Assim, se algo, na esfera das coisas físicas, existe, podemos encontrar a necessidade de sua existência, por estas ou aquelas causas coordenadas. Se existe, é necessária a sua existência, mas dependente. Mas o ser absolutamente necessário simpliciter não é aquele que se pode ser, pode se é. A condicional não cabe, porque sua existência não é necessária por ser efetivada, mas é necessária, porque, do contrário, nada é. Ele não pode não‑ser. É necessariamente, pois sem ele nada é. Sua existência pode, logicamente, ser alcançada a posteriori, partindo da contingência, como se procede na escolástica em geral, mas pode ser alcançada pelo rigor da simultaneidade ontológica, como exemplifica a prova de Santo Anselmo. Que o ser humano possa alcançá-lo pela iteração lógica nada impede que também possa alcançá-lo pela iteração dialética ontológica. Já provamos que há seres contigentes, porque há um ser necessário, absolutamente necessário. E é este que dá a razão suficiente ontológica aos outros. Podemos partir reversivamente da nossa experiência intelectual, como se procede nas provas a posteriori. Mas podemos também alcançá-lo pela simultaneidade da prova ontológica, beirando já a eternidade das razões ontológicas, que são coeternas. A primeira prova revela apenas a contingência humana, da qual decorre. É ainda o produto da razão no afanar-se em alcançar a verdade. A segunda revela um estágio mais elevado dessa razão, que já penetra no que é. Pode-se ainda dar validez ao argumento de Santo Anselmo e às variantes de Descartes e Leibniz, usando as seguintes demonstrações: Necessariamente existe o ser absolutamente necessário, porque nenhum ser contingente é razão de ser suficientemente absoluta do que é. O máximo excogitável pelo homem é o ser absolutamente necessário, aquele sem o qual nenhum outro seria possível. Ora, se nenhum outro ser poderia ser, sem o ser absolutamente necessário, o máximo excogitável existe. Existe não porque é o máximo excogitável, no sentido do que é criado pelo homem, mas é o homem que, em sua máxima excogitação, alcança a necessidade da existência do ser maximamente excogitável, que é o ser absolutamente necessário. Ora, o que se entende por Deus, na exposição anselmiana, é o que se entende por ser absolutamente necessário, que é o máximo ser excogitável pelo homem e que nenhum outro pode ser excogitado além dele, pois é a fonte de todos os outros, a razão de ser de todos os outros. Consequentemente, Deus existe, porque Deus é em todos os pensamentos cultos o ser máximo excogitável como ser absolutamente necessário para que algo haja. Ademais, esse ser absolutamente necessário, se quiséssemos partir da lógica, pondo de lado o logos ontológico, que dá rigor à tese de sua afirmação, não contradiz o ser, pois não contradiz o ser um ser absolutamente necessário, pois só contradiz o ser o nada absoluto, porque um afirma a posse do ser, e o outro a total e absoluta privação do ser. Se o ser absolutamente necessário não existisse, permaneceríamos em pleno contingentismo, e teríamos que negar validez de existência ao que o homem havia alcançado em sua máxima excogitação, que é a necessidade de existência de um ser absolutamente necessário. Ora, como é imprescindível a existência de tal ser, o ser necessário, que julgamos poder não existir, não é mais o ser absolutamente necessário, mas sim um ser contingente; não é, portanto, o máximo excogitável. Estaríamos falando não propriamente do que desejávamos falar. A necessidade da existência do ser absolutamente necessário não é uma criação lógica. Sua necessidade não é dada pela nossa esquemática. O que se verifica é que ele é ontologicamente necessário, e o homem, em sua excogitação, alcança a existência desse ser, que é, ademais, o máximo excogitável. Não é, pois, a existência lógica que lhe dá a existência ontológica. É a sua existência ontológica que dá validez, rigor e conteúdo à existência lógica. Ainda poder-se-ia argumentar que era o máximo excogitável, para Santo Anselmo, o ser absolutamente necessário, depreende-se claramente dos argumentos que apresenta a seu favor em sua resposta às objeções de Gaunillon. Este havia afirmado que o simples fato de pensarmos nas Ilhas Bem-aventuradas, onde toda a riqueza terrena pudesse existir, e que seriam assim perfeitas, não provaria, em nada, a sua existência. Santo Anselmo responde que não há paridade na objeção ao seu argumento, porque as Ilhas Bem-aventuradas seriam um ser contingente, que poderia, portanto, existir ou não, enquanto o máximo excogitável não é o ser contingente. Portanto, para Anselmo, é o ser absolutamente necessário. Se somos capazes de alcançar, pela excogitação, o ser absolutamente necessário, tal demonstra que a afirmação deste é realizada através de uma especulação, de uma cogitação demorada. Deus nada mais é que o ser absolutamente necessário. Portanto, ambos se identificam. O ser absolutamente necessário tem de existir, pois, do contrário, não seria o ser absolutamente necessário. A existência de um ser absolutamente necessário não pode depender de nossa mente, pois, então, seria um ser dependente desta. Tem de ser por razão de si mesmo. Ora, se tal ser é possível para nós, e não implica contradição, tal demonstra que há, virtualmente, para nós, e que o pode alcançar a nossa mente, quando retamente conduzida. Sua existência evidencia-se por si mesmo e não por nós. Qual a prova desta afirmação? É a seguinte: a possibilidade de um ser contingente é contingente. A possibilidade de um ser absolutamente necessário é necessária. Se somos capazes de alcançar pela excogitação, tal nos prova que ele existe, pois, do contrário, o ser meramente contingente conteria, confusamente em si, a possibilidade de ser absolutamente necessário, o que seria afirmar que o menos conteria o mais. Se a nossa especulação filosófica pode alcançar ao ser absolutamente necessário, sem contgradição, de onde viria a razão desse ser senão dele mesmo? Tudo quanto é possível nos ser absolutamente necessário, é. Se a sua existência é possível, ela é necessariamente. A captação da sua possibilidade é apenas de nossa parte, não que ele seja apenas um possível. Demos acima alguns dos argumentos em favor da posição de Santo Anselmo, tendentes a dar-lhe validez ontológica.