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Definição

Definição

A definição é o oposto da descrição, porque, enquanto nesta enumeramos o que aparece, surge de uma coisa, na definição apenas se enunciam os atributos e as qualidades próprias e exclusivas das coisas, de modo a distingui-las, totalmente, das outras. Para dizer-se o que uma coisa é, temos que nos referir ao que já sabemos, e a primeira providência é dizer de que ela é feita, seu gênero, depois o pelo qual ela é o que ela é, e não outra coisa, o que a diferencia especificamente das outras, diversas que ela.

Por isso, na lógica aristotélica, a definição é aquela operação do espírito, que consiste em determinar o conjunto de notas à compreensão, que caracteriza o objeto; ou seja, o gênero e a diferença específica do mesmo. O gênero é o de que a coisa é feita, e a diferença específica o pelo qual ela é o que é e não outra coisa. A definição é, assim, um juízo determinativo, de máxima determinação. O homem, genericamente, é animal; daí a clássica definição: o homem é um animal racional. Tem em comum com os outros animais a animalidade. Filosoficamente considerado, é ele um animal, que dos outros se distingue por ser racional. Longa é a polêmica em torno dos fundamentos da definição, e a que acima demos é um exemplo de definição formal, também chamada metafísica, porque apenas aponta os aspectos formais.

Apesar das diversas contribuições feitas por lógicos modernos ela continua encontrando a sua melhor expressão na definição formal clássica, que é equacional, e que permite uma reversão, pois ao dizermos que homem é um animal racional, podemos inverter, dizendo que o animal racional é homem.

Podemos salientar que a definição responde à pergunta "que é isso?", mas oferece uma resposta com sentido de determinação, de máxima determinação. Ela quer responder àquela pergunta, não com qualquer resposta esclarecedora, mas com a resposta que determine, que complete, que seja uma igualdade, a delimitação precisa do definindo, isto é, do que se quer definir, uma resposta suficiente para que saibamos o que é aquilo sobre o qual se formulou a pergunta. A definição é um juízo, pois enuncia uma afirmação sobre o ser do objeto, delimita-o, diz o que é, e ao mesmo tempo o separa do que não é ele, ou seja, exclui o que não é ele.

Pode-se propor esta classificação das definições, mais consentânea com os estudos clássicos, cujo esquema emprestamos de Salcedo: A nominal é aquela proposição que explica brevemente a significação dos vocábulos. Esta será puramente nominal, se explica apenas o vocábulo ou alguma acepção ignorada. Esta definição é importante como ponto de partida para o exame de alguma distinção. A definição nominal pode ser comum ou privada. Comum é a que declara que o vocábulo é de uso comum entre os homens. Privada ou arbitrária, quando tomada segundo alguma significação que lhe é dada. Simbólica diz-se da definição que declara a significação de algum símbolo. Definição real é a proposição que define a coisa por suas notas reais, que se distinguem de todas as outras. Esta pode ser essencial ou descritiva. Essencial, quando explica a coisa pelas notas que constituem a sua essência. Esta pode ser física, se define a coisa pelas notas essenciais que, real-realmente, se distinguem na coisa. Assim o homem é um composto do corpo orgânico e de uma alma racional. Será metafísica, se explica a coisa por notas que se distinguem apenas por razão, como a definição, que é feita pelo gênero próximo e pela diferença específica, proposta por Aristóteles. Ex.: homem é animal racional. Esta é a definição que se deve preferir na lógica e na filosofia. Definição descritiva, a que explica a coisa, não por sua estrita essência, mas pelas propriedades, ou pelos acidentes, ou pelas causas ou por qualquer outro modo, que seja pela enumeração de diversas notas não essenciais. Será, pois, própria, se explica a coisa pelas propriedades que se dizem emanar da essência da coisa, como as definições que encontramos nas ciências naturais, porque lhes escapa a essência íntima das coisas, embora se fundem nas propriedades captadas nas coisas. Definição acidental explica a coisa pelo complexo dos seus acidentes. Definição causal, quando a coisa é explicada por suas causas externas (predisponentes), como a eficiente, a final. "O relógio é um instrumento para indicar as horas" (causa final). Definição genética, a que explica a coisa, indicando o modo e a razão de sua gênese, como se vê na geometria. O que a distingue da definição causal é que não indica apenas a causa, mas também o modo como é gerada. Verifica-se que algumas são perfeitas e outras imperfeitas. Diz-se que é perfeita a definição que não admite outra maneira de definir.

Na disputa filosófica são importantes as definições, pois facilitam a melhor compreensão das questões e do estado das mesmas. Muitos filósofos distinguem a definição real da conceitual, deixando para esta, preferentemente, o objeto formal, que é a parte do objeto total. Muitos consideram as nominais idênticas às formais, e as reais às materiais. Entretanto, a definição formal é propriamente uma definição conceitual. Tais divisões são arbitrárias, e por essa razão alguns filósofos oferecem outras: a definição genética, que define o objeto, expondo a sua formação, a sua gênese. Por ex.: queremos definir um círculo e dizemos "o círculo é a figura descrita por um segmento de reta, que gira ao redor de um dos extremos". Embora tais definições sejam muito usadas na matemática, como a que diz "a linha é o resultado de um ponto em movimento no espaço", muitos filósofos julgam-nas inaceitáveis. No entanto, como o salientam Hamilton, Krug e Blondel, essas definições consideram o definido em seu progresso ou devir (vir-a-ser), pois, como diz Blondel, é o fieri (devir), que aclara o esse (ser).

Não se deve confundir a explicação com a definição. Aquela enuncia alguma coisa que vai além da definição com o intuito de aclarar, mostrando as propriedades, as características. Quando dizemos que o homem é um bípede, que vive em sociedade, que escolhe, aprecia valores, preocupa-se, tem noção de suas possibilidades, conhece a morte, cria modos diversos de viver, tudo isso seria explicativo, aclarativo, não definição.

Há algumas definições que são chamadas de negativas. São aquelas que se caracterizam por negar ao definido alguma determinação. Por exemplo, quando se diz: "imortal é o que não perece". Na realidade, a negatividade dessas definições é apenas aparente, pois supõe a determinação positiva do correspondente conceito positivo.

Chama-se definição essencial aquela que se enuncia, assinalando os caracteres que, sem eles, o definido deixaria de o ser. Definição acidental, a que se atém a uma determinação acidental, como "Pedro é aquela pessoa que está sentada junto à porta".

Se afirmamos que a definição, para ser rigorosa, deve obedecer à regra clássica; ser construída com o auxílio do gênero próximo e da diferença específica, chegamos à conclusão que o gênero último é indefinível, pois não pode ser referido a outro. É o que sucede quando vamos, de gênero a gênero, até alcançar o último gênero. Assim podemos referir este livro ao ser; mas ser é indefinível, pois não podemos referi-lo a um gênero superior, pois é aquele o superior. Por outro lado, são indefiníveis o que nos é dado como singularidade individual. O fundo último de toda definição é o indefinível, pois se definimos homem como um animal racional, definiremos animal como um ser vivo, ser vivo como ser, e chegaremos, finalmente, a um indefinível (ser). Assim se vê também que as demonstrações fundam-se em alguns axiomas, os quais são indemonstráveis, o que, porém, não impede que se mostrem como verdadeiros de per se.

Gênero: é o grupo, no qual todos os indivíduos em número indefinido, isto é, não determinado, e dotados de certos caracteres comuns, estão idealmente reunidos. Chama-se de gênero supremo o que contém todos os outros.

Espécie: Quando dois termos gerais estão contidos em extensão um no outro, o menor se chama espécie, assim como se chama gênero ao maior. Por exemplo: o triângulo é uma espécie do gênero polígono. Homem é uma espécie do gênero animal.

Propriedade é o que pertence à espécie ou ao gênero, por isso pode ser específica ou genérica. Assim risível é uma propriedade específica do homem, mas mortal é genérica.

Diferença específica é o caráter pelo qual uma espécie se distingue das outras que pertencem ao mesmo gênero. Assim, racional é uma diferença específica da espécie homem, que a distingue das outras espécies animais.

Acidente é o que sobrevem, o que não é nem constante, nem essencial ao sujeito da definição. Por ex.: quando dizemos que "Pedro é aquela pessoa que está sentada junto à porta", o estar-sentado-junto-à-porta é apenas um acidente que ocorre àquela pessoa, porém não é essencial nem constante à mesma.

Leis da definição: Ela será mais clara quanto mais clara for o definido. Para tanto, devem evitar-se: a) que os vocábulos, que entram na definição, sejam obscuros, vagos, metafóricos, pois não se pode definir o que não se conhece pelo que se desconhece. b) deve-se evitar o círculo vicioso; ou seja, definir o mesmo pelo mesmo, como repetir, na definição, o termo a ser definido. Por ex.: definir a psicologia como ciência dos fatos psicológicos. A definição deve ser a mais breve possível. Ter a máxima clareza. Devem-se evitar todos os termos desnecessários e inúteis. Ser recíproca com o definido. "Assim homem é animal racional", "animal racional é homem". Não ser meramente negativa, porque impede a reciprocidade. Há definições que são aparentemente negativas. Assim o ser infinito é o que absolutamente não é composto, pois o ser absolutamente não composto é o absolutamente simples.

Do emprego da definição: Se tentássemos definir tudo, chegaríamos ao círculo vicioso. Há, pois, muitas coisas que não são definíveis, porque são irredutíveis a outras por serem simples. Consequentemente, nem todas as coisas podem ser definidas. Nem todas as coisas podem ser definidas por definição essencial e até metafísica. Tal se dá pela simplicidade da coisa, como são os conceitos transcendentais, os gêneros supremos para Aristóteles, porque não constam de um gênero próximo e de uma diferença específica. Outras coisas não podem ser definidas em conseqüência da deficiência de nossa mente, como se dá ao tentarmos definir os indivíduos, os quais apenas podemos descrever. A definição alcança a perfeição na proporção do exame cuidadoso e longo. No uso vulgar, elas são apenas descritivas. O ideal filosófico é alcançar as definições mais perfeitas. O melhor método para alcançarem-se definições rigorosas consistem em: a) evitar termos equívocos; b) se substância, defini-la por si; se acidente, defini-la em relação à substância à qual inere; c) se for um hábito ou uma potência, defini-la pelo ato; o ato, pelo seu objeto formal; se relação, pelos termos correlatos; d) se são privações ou negações, defini-las pelos opostos positivos.

Via da definição: Pode ser realizada pela via analítica ou ascendente. Consiste a via analítica na análise; ou seja, na separação das diferenças, partindo-se do todo para as partes. Diz-se que é uma via ascendente, porque, na árvore de Porfírio, ascende-se dos inferiores para os superiores, assim, do indivíduo, sobe-se à diferença específica, desta à espécie, da espécie ao gênero próximo, deste aos remotos, anotando-se as diferenças que se dão entre eles. Pela via sintética ou descendente, ao contrário, se vai da parte para o todo, dos componentes à componência. Diz-se descendente (descensus), porque dela se desce aos inferiores, do gênero às espécies, destas às diferenças específicas, destas aos indivíduos. A via analítica era pelos antigos chamada de collectivam logice, logicamente coletiva, enquanto a sintética era chamada de divisam logice, logicamente divisa, porque, na primeira, tende-se a coligir, e, na segunda, a dividir. Não é, pois, de admirar que se dê em ambas, diferenças de inversão na extensão e na compreensão das idéias.

Comentários dialéticos: Ora, como sabemos, todo ente pode ser visualizado segundo os fatores emergentes e predisponentes que cooperam para que ele seja. A definição aristotélica, que é a definição metafísica, fundamenta-se apenas nas causas intrínsecas do ser (fatores emergentes), que são a matéria e a forma de um ser, o de quem um ser é feito e o pelo qual um ser é o que ele é. Procurando-se ao que analogicamente corresponde à matéria e à forma, encontramos a definição de qualquer coisa ou objeto do pensamento. De que é feito o homem? De animalidade. O pelo qual o homem é homem? Pela racionalidade. Consequentemente: homem é animal racional. De que é feita a prudência? De virtude. Pelo qual a prudência é o que é? Por ser a capacidade de saber escolher os meios para determinados fins. Logo, a prudência é a virtude que consiste na capacidade de saber escolher os meios para determinados fins. A pergunta pelo de que é feito, ou de que consiste, não quer apenas, como resposta, a matéria próxima, mas a formalidade dessa matéria, e a forma que tem ou lhe dão. O avião é um veículo a motor; seu gênero próximo, pois, é classificado entre aqueles cuja forma, por ser um artefato, é indicado pela funcionalidade de sua constituição tendente para um fim: voar. É portanto um veículo a motor para voar. Para alcançar-se a definição, busca-se primeiramente o gênero próximo, que é a classe, na qual está incluído o conceito e, depois, o que o diferencia, especificamente, dos outros. A definição aristotélica é uma definição metafísica e apenas descreve os fatores emergentes. Uma definição dialética concreta incluiria também os fatores predisponentes necessários previamente para dar ser ao ente. Aristóteles não ignorava tal coisa, pois dizia que a melhor definição seria aquela que incluísse todas as suas causas. Contudo, julgava-se fraco para alcançá-la, e esperava que "outros mais robustos que eu possam, no futuro, realizá-la."

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