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Consciência

Consciência

No sentido mais universal a palavra significa aquele fenômeno que é característico da vida mental, em oposição ao estado simples do ser infra-mental. A consciência é o produto específico da atividade do espírito. Como o espírito, tomado como todo, é atividade e nunca deixa de ser ativo, a consciência é um estado permanente do espírito, produzido por ele mesmo e qualificativo do ser espiritual, tomado como grau metafísico. Nos seres humanos, onde as preferências do espírito são reduzidas às manifestações de uma vida mental, a consciência é o fruto ocasional de atos psíquicos que acontecem com interrupções. Não é portanto uma qualidade permanente do processo de vida humano. Como identificar então a consciência quando ela ocorre em nós? Para Ladd: o que estamos, quando despertados, em contraste com o que estamos quando caímos num sono profundo e sem sonhos, isso é consciência. Subjetivamente a consciência significa uma intuição (mais ou menos completa, mais ou menos clara), que o espírito tem dos seus estados e de seus atos. Essa definição pode ser considerada idêntica à anterior ou mais restrita do que essa. Não é possível, neste caso, precisar os termos, nem reduzir o problema a elementos mais simples, por tratar-se de um fato mais elementar e irredutível do mundo fenomênico. Segundo Hamilton: “A consciência pode ser definida”. É bem possível que saibamos nós mesmos perfeitamente o que a consciência é, mas estamos incapacitados de comunicar aos outros, de maneira precisa, uma definição do que nós compreendemos claramente.

A razão é simples: a consciência acha-se na raiz de todo o conhecimento. As peculiares condições que caracterizam a consciência, alcançada pelo espírito humano, ainda deixam aberta a questão de se o espírito chega a ter consciência de tudo o que constitui ele mesmo, ou se há, em um sujeito, fenômenos psíquicos inconscientes e igualmente se o estado de consciência atual implica ou não a intuição do sujeito como substância, malgrado não faltem, em ambas alternativas, afirmações decididas, a favor de uma ou de outra hipótese.

Consciência significa:

a)

o próprio pensamento, sem considerar ainda a distinção entre o fato consciente e o fato de que é consciente, o que é designado pelo termo clássico de consciência espontânea que, no entanto, foi criticado com boas razões (Lalande) e substituído pelo termo mais acertado de consciência primitiva;


b)

o estado subjetivo, produzido pelo ato de conhecimento e como que separado do objeto em virtude de uma reflexão, o que se chama consciência reflexiva. Mas ainda este último sentido é suscetível de duas especificações diferentes que se referem uma à outra, como subjetiva e objetiva. No primeiro caso considera-se o que ainda resta no sujeito após a diferenciação reflexiva; considera-se sua atividade própria, a virtualidade de operações novas, o que pode produzir ainda, as leis segundo as quais se desenvolve as reservas de potencial pensante, que podem levar a progressos ulteriores do conhecimento: consciência subjetiva. No segundo caso considera-se o conhecimento atual do objeto, na posse mais completa que podíamos alcançar dele por meio dessa diferenciação reflexiva de oposição e análise (por exemplo, na clareza das nossas percepções, na precisão dos princípios do nosso pensamento raciocinante, etc.) e é neste sentido que se fala, ordinariamente, de um espírito consciente: consciência objetiva.

Kant, Schopenhauer e outros usam a palavra consciência (bewusstsein) como sinônimo de conhecimento imediato, implicando, deste modo, a convicção de que a nossa percepção imediata das coisas exteriores lhes atribui o caráter de realidade indubitável, da mesma forma como a consciência nos leva à intuição de nossa própria realidade. Outros, sem considerar se a doutrina assim expressa é correta ou não, condenam este uso do termo consciência, porque reivindica, fraudulentamente, uma qualidade da consciência, a sua certeza indiscutível para outros fenômenos gnosiológicos, deixando porém de atribuir-lhes aberta e expressamente, essa suposta qualidade. Por outro lado, há outros que não só distinguem formalmente entre a percepção imediata e a consciência, mas excluem completamente a percepção sensível do campo de aplicação do termo consciência. Mas este emprego da palavra geralmente também é considerado abusivo. Se há uma diferença entre conhecimento e consciência, então só pode ser essa que a consciência representa um conhecimento intuitivo ou instintivo, e participa, por isso, do caráter positivo e imediato de cada intuição. Com essa acepção também se resolve, facilmente, a controvérsia sobre se a consciência inclui ou não a idéia da certeza. O caráter intuitivo lhe fornece o fundamento próximo da certeza sem, porém, inclui-la formalmente.

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